PROPRIEDADE SEMÂNTICA DA PALAVRA TIPO

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António Kutema
António Kutema

Por António Januário Baptista Pedro

Falar é a rés casa sem palavras as cores incandescentes, incendiados gritos até
a violência se despe nua e completa ao vento desnuda-se
numa repousada e lenta manifestação, maus cheiros da história que se rasgam nas persianas o fedor de luz imenso costura imagens duras … os silêncios que circulam em mim

A língua como um instrumento de comunicação varia de contexto a contexto, pois a mudança é um carácter peculiar da língua. Assim, toda palavra acarreta alguma significação.

Uma qualquer língua apresenta uma multiplicidade de registos distintos, cujas características são determinadas por factores de natureza histórica, geográfica e social (Correia, 1998, p.59). E esse registo dá-se no léxico, pois é um inventário aberto da língua.

De acordo com Biderman (1981, p.138), o léxico inclui a nomenclatura de todos os conceitos linguísticos e não linguísticos e de todos os referentes do mundo físico e do universo cultural, criado por todas as culturas humanas actuais e do passado. O léxico está em constante evolução, ou seja, é um elemento dinâmico da língua – podendo permitir a desactivação de uma palavra e a activação de outra. Essa activação pode surgir da necessidade de nomear algum objecto ou ideia inédito na sociedade ou quando há o interesse pessoal para garantir uma maior expressividade no discurso. Logo, a desactivação pressupõe arcaísmo e a activação, neologismo.

Neologismo do grego significa nova palavra, ou seja, composto do grego neo (novo) e do grego logos (palavra).

Boulanger (apud Assirati, 1998, p.122) definiu neologismo como uma unidade lexical de criação recente, uma acepção de uma palavra já existente(…).

Entende-se que a nova forma ou novo conceito que a palavra toma constitui-se em neologismo.  Daí concordarmos com a classificação de neologismo apresentada por Guibelt (1975, p.59):

a) Neologismos fonológicos, que se baseiam na formação da substância do significante e na sua transcrição;

b) Neologismos sintagmáticos [1], que reúnem todos os modos de formação os quais requerem a combinação de elementos diferentes; eles são morfossintácticos e abarcam todas as formas de derivação;

c) Neologismos semânticos , que consistem na mudança semântica sem que uma nova forma significante seja criada, são do domínio do significado;

d) Neologismos por empréstimo, que definem os diferentes aspectos do empréstimo em um novo sistema linguístico.

O que nos interessa na classificação apresentada são os neologismos semânticos. Assim sendo, a palavra tipo existe e tem um determinado significado; para além do significado primário, em vários contextos, ele pode ter outras propriedades semânticas.

De acordo com Dicionário de Língua Portuguesa (2011), a palavra apresenta as seguintes acepções:

  1. Conjunto de características que distinguem uma classe;
  2. Modelo, estilo;
  3. Indivíduo, sujeito (…);
  4. Personagem cujas características a tornam representativa de uma classe ou de um grupo.

Exemplo: Eu quero ser tipo Kutema.

Quando um falante diz isso pressupõe dizer que, Kutema é um modelo a seguir ou a imitar. Nesta conformidade, nem sempre o tipo será usado no acto comunicativo com o significado de modelo.

Não obstante apresentar esses significados, a palavra tipo apresenta outros significados, mormente: provavelmente, parece, igual a, a semelhança de, por exemplo.

Vejamos:

O Jamba tipo foi ao mercado (parece, provavelmente).

Sou tipo água (igual).

Eu gosto de comer tipo: arroz com feijão ou pirão com jimboa (por exemplo).

Como ficou provado, a mutação é um factor essencial na evolução do acervo lexical de uma língua. Mediante a necessidade de se comunicar, o homem procura várias formas de interagir com os seus semelhantes. E quando não houver uma equivalência de forma, transcrição ou significado, ele atribui nova forma, transcrição ou significado.

Entretanto, a significação de uma palavra vale o que vale quando estiver inserido num contexto frásico.

Referências

Alves, I. M. (1990), Neologismo: criação lexical, Editora Ática, São Paulo.

Assirati, E.Th. (1998), Neologismos por empréstimo na Informática, Alfa, São Paulo, pp.121-145.

Biderman, M.T.C. (1978), Teoria linguística: linguística quantitativa e computacional, Livros Técnicos e Científicos, Rio de Janeiro.

Correia, M. (1998), Neologia e Terminologia, in: terminologia: questões teóricas, métodos e projectos, Publicações Europa-América, Lisboa, pp.59-74.

Porto Editora (2011), Dicionário da Língua Portuguesa: dicionários académicos, Porto Editora, Porto.

Guilbert, L. (1975), La créativité lexicale, Larousse, Paris.


[1] Segundo Alves (1990), os neologismos semânticos, também chamados de neologismos conceituais, ocorrem sem que haja mudança na forma de unidades lexicais já existentes. Um acréscimo ou variação na carga semântica de uma palavra resulta em um novo produto.

Cicatrizes os ventos duros materiais … a frequência de espelhos … nesta erva desértica de fumos ressequido sábado; as botas deste novembro.

* * *

António Kutema é pseudónimo literário de António Januário Baptista Pedro, licenciado em Ensino da Língua Portuguesa, ensaísta, cronista, contista, poeta. É membro do Círculo de Estudos Linguísticos e Literários Litteragris, pesquisador do Projecto de Definição do Espaço Público e Privado das Línguas Nacionais (PRODELINA) e membro do Grupo de Linguística Contrastiva PA/PE no Centro de Língua Portuguesa Eco7. Natural de Lobito, Angola.

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