Escolhidos a bolso

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Não me interessa levantar a poeira das nossas ruínas,  dos labirintos da vergonha no interior das nossas consciências. A falta da palavra, não silêncio, da palavra. Palavra cuja ausência destrói a casa que construímos no outro e edifica mágoas. 

Cresci num meio em que uma das frases que mais ouvi e vi, em gestos, foi: “amigo é família que a gente escolhe”. Só esqueceram de dizer-me que nos dias que correm até consanguíneos são admitidos a bolso.

Em momentos de bolsos ansiosos por um oásis com retratos de rostos que se esqueceram da precariedade de preocupar-se com o preço do pão, energia, água e chapa, o primeiro recurso que temos são os amigos, talvez por isso a escolha a bolso. Apelamos a emoção, argumentamos lamurias para que o amigo, escolhido a bolso, possa nos socorrer. 

A aflição nos investe de humildade apelativa, nem o negócio das fotos dos miseráveis africanos supera, nem mesmo a Somália, o Sudão, a Líbia, todos à Beira do abismo. E ele como é amigo, inocente (talvez não! apenas amigo), empresta. 

Os rostos se desmancham em sorrisos, partimos, às vezes, lembramos de agradecer, mas nunca deixamos de prometer: 

-“Yah mano, não vou te matrecar”. Falta de sinceridade? Desespero? Fé? Certeza? Qual?O tempo passa na mesmice de sempre, o mesmo se perpetua. A conversa vai e vem ao mesmo ritmo, envergamos a máscara do esquecimento: 

-“Se ele não perguntar, não lhe lembro”. Até que o credor se manifesta e descobrimos a origem da retórica dos padres para o sermão da homilia. E o tempo vai.

Há dias um amigo, de quem levei emprestado um dinheiro, ligou-me e não atendi. Já não há sequer coragem de assumir a minha escassez do Metical, que impossibilita a devolução. Aquilo me martelava os juízos e a consciência pesava porque naquele instante precisava doutro empréstimo, mas aquela fonte já não jorrava. 

Ontem o amigo mandou-me uma mensagem, no WhatsApp, na qual escreveu “outro dia liguei para cumprimentar, andas desaparecido”. Arrependido, Afinal não era para exigir? 

Nhtla, era oportuno pedir mais, se tivesse atendido”. Quem deve, teme.

Recolhi-me às minhas ruínas, rocei os meus escombros, a recordar que no último fim de semana não fui ao social da malta para não ter de enfrentar os meus credores. 

Com um rio a nascer na minha janela para o mundo, a respirar a neblina da menta, numa tarde de Abril com o mesmo Blues de Paris de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, descubro-me, repentinamente, a concordar com o Dj Ardiles: -“Sabes porquê que o mundo é redondo nem? são dívidas!”.

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