“Anúncio”: a realidade inconveniente

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O NEO-REALISMO italiano mostrou ao mundo outra forma de retratar a realidade. O célebre filme “Ladrões de Bicicleta”, realizado por Vittorio De Sica em 1948, influenciou uma legião de cineastas. Lúcidos, sentiram os problemas da sua sociedade e decidiram retratar imagens em movimento.

Tocado por esta corrente, José Cardoso, habitante da cidade da Beira, Moçambique, então colónia portuguesa em 1955, decidiu abraçar o cinema. Naquele pedaço de terra virado ao mar se fez cineasta. Gravou um documentário que nunca chegou de editar e por fim decidiu investir na ficção, assim surgiu “Anúncio”. Inicialmente, o filme tinha mais de 50 minutos. No entanto, depois de escutar conselhos de amigos, decidiu reduzir os minutos da película.

O filme de ficção traz a história de um homem branco desempregado e que anda à procura de emprego na época do carnaval. A realidade chocou muito, causava repulsa ver o que de miserável a sociedade gera. Ávidos de ver alegria que nas suas vidas não desfila, surgiram muitas críticas negativas ao filme. Mesmo assim, “Anúncio” foi por diversas vezes premiado.

Em muitos pontos, “Anúncio” tem traços de “Ladrões de Bicicleta”. Enquanto Vittorio De Sica retratava uma Itália que lutava para se recuperar dos danos da segunda grande guerra, Cardoso  olhava para a condição humana da sua sociedade, marcadamente colonial, com as lentes da sua câmera retratou o sofrimento, a pobreza, na sua forma mais explícita.

Outro aspecto a notar é o esforço empreendido pelos dois cineastas que, com recursos escassos, fizeram o filme. Cardoso dispôs de uma equipa de trabalho composta por empregados de comércio, dois contabilistas, um trabalhador dos Caminhos de Ferro de Moçambique, entre outros amigos.

A extemporaneidade é outro aspecto saliente do “Anúncio” e o filme do italiano. Podem ser levantadas várias hipóteses, mas é incontornável que a condição humana e a miséria continuam sendo temas actuais.

Em relação a aspectos técnicos, os dois filmes são feitos praticamente à luz ambiente. O som das duas películas muitas vezes falha.

No entanto, há que notar a trilha sonora do “Anúncio”. A canção “Vejam bem”, que abre o filme,  é da autoria de Zeca Afonso, conhecido compositor e cantor de baladas de intervenção. Ele viveu em Moçambique na década 60 e escreveu a canção especialmente para a curta-metragem.

Sem duvidas, “Anúncio”, é um filme a visitar, para quem quer conhecer o percurso do cinema nacional. É um filme que retrata a realidade, de forma crua, mas ao mesmo tempo agradável. ‘Anúncio’ representa um cinema directo, mais populista, enquanto ‘Pesadelo’ e ‘Raízes’, as posteriores duas obras de Cardoso, são filmes mais intelectualizados, cheios de simbolismo.

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