Esqueci Miles Davis em Saint-Pierre

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De Leonel Matusse Jr.

Num desses dias “Kind of Blues”, a busca de refúgio em “All Of Me”, na embriaguez da voz da Billy Holiday, contemplava a praia, em frente ao Hotel Ville de Lile, em Saint Pierre.

Tomou-me de assalto aquela agitação das águas do Índico que se perdiam na garganta do horizonte, o céu estava coberto por um cinzento metálico. E aquela marginal, despropositadamente, culpava-me ainda mais por não visitar a cidade de Inhambane.

Por obrigação de cronista, procurei por pássaros no alto para trazer alguma poética a estes parágrafos, que, na verdade, são sobre nada. Mas os pássaros não estavam lá, meu receio era tratar-se de um mau presságio.

Comoveu-me, então, a angústia que Clara Ferreira Alves sentiu num barco, do tempo colonial, nas ilhas do sul da China, recentemente. Ela conta, na crónica “O silêncio dos pássaros”, que os marinheiros, leitores do mar, ficaram em alerta, quando os pássaros desapareceram.

Habituado às desgraças, às vezes o optimismo, assumamos, falha. Porém, já tinha escrito alguém, temos de ajudar a Deus. Nalguns copos de Rum, num bar algures, Inhambane volta, para o meu tormento. Era um jovem, de Saint-Denis, um município próximo, rapper, admirador de Samora  Machel. Descreve que tem as fotos do primeiro Presidente da República de Moçambique distribuídas em todos os compartimentos da casa. “A luta continua”, liberta, num sotaque que se mistura com crioulo, francês e um inglês do Caribe. A euforia acenava entre os gestos.

“Your are my cousins”, entreolhos. “I came from Inhambane”, despejou, a contragosto do “All Blues”, que me consumia. Senti o rosto a desenvolver um sorriso, entre os lábios. Percebi que nunca estou assim tão longe de casa. A casa não é o edifício, é um estilhaço de fiapos de memória. Rubem Alves e Mia Couto dominam melhor esta matéria.

Ensamorisado, (como se estivesse) igual no alto da Avenida Samora Machel, ainda absorvia aquela informação. Talvez fosse o Rum, era possível.

Lá fomos ao Hotel para conversar, no meu, lamentavelmente, pobre bitonga, ensinei-lhe “wa ghaya”, “de casa”, traduzida nesta língua trabalhada por Nelson Lineu, Álvaro Taruma, a Hirondina Joshua (ela que nos denúncia: quem escreve anda nu).

Ainda a procurar absorver a explicação dele, fomos para os concertos. Pelo caminho, entre edifícios antigos restaurados, numa estética de época, em coabitação com a modernidade, perseguia-me a voz do rapaz caneco, de óculos de vista, a contar que o seu tetravô tinha sido arrancado de Inhambane para servir ao tráfico escravocrata que precisava de mão-de-obra para o cultivo de cana-de-açúcar nas Ilhas Mascarenhas e algures. Um doce com sabor amargo.

O Maloya, já num dos recintos dos concertos do IOMMA, levou-me à Mafalala, a passagem era patrocinada pelas similaridades com o batuque do Tufo, herança da forte presença de originários da Ilha de Moçambique.

No pátio verde, como insiste ser toda Saint-Pierre, aproxima-se alguém que me  cumprimenta, “Edjoh, comé?”. É a Natalie, que esteve em Maputo por quase dois anos, há cerca de uma década.

“Lá é maning nice, quero voltar”, confessou, com os olhos asiáticos a reluzir as memórias de quem cá esteve e assume: “gramei maning”. O desafio era aprender o “Warrrelssss”, do Txiobullet, internacionalizado pelo Trkz, jovem promissor que busca a essência na variedade estética da sua música.

Acabei perdendo o Miles Davis entre os Maloyas do Saquifo. É um festival de dimensão colossal, sete palcos em simultâneo. GranMah a prender o público. Gente a aplaudir até ao fim. A banda foi, o público ficou a gritar: “une chanson de plus”.

A nostalgia caiu esparramada na avenida, quando cruzaram o meu percurso duas crioulas, sombras da madrugada. Um parêntese, a língua tem limitações para expressar determinados fenómenos. Ao descrevê-las lindas corro o risco de ser redutor. Pele de chocolate, com as coroas que a Sara Tavares canta, a ensinar-nos coisas bonitas, fechar parênteses.

Na manhã seguinte me perseguia o olhar magoado do rapaz, que era incapaz de dizer-me que séculos de escravidão geraram a sua voz. Lágrimas molham esta memória que flutua na tua canção fraterna, Mãe Noémia.

Os prantos do “Blue in Green” ressuscitavam a minha nostalgia com aquelas ondas do Índico a emprestar a sua sonoridade. A voz de Micadjuine insistia: quem impôs mistério e dor em cada palavra tua? E o pranto de melancolia no fundo do teu olhar? A euforia do irmão negro denunciava a morte de emoções proibidas.

So what? Ooooopssss… Não! “Warrrelssss”?

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