Poesia Visual com Heduardo Kiesse

0
526
Heduardo Kiesse
Heduardo Kiesse

Objetos poetidianos

Texto de Heduardo Kiesse

Mais do que me guiar por processos criativos conhecidos e praticados anteriormente, nomeadamente pelos que deram origem à poesia visual que se fez em Portugal a partir dos anos 60, procuro pôr as palavras em diálogo com elementos que, não sendo tradicionalmente poéticos, podem assumir configurações simbólicas inesperadas.

Imagem de Heduardo Kiesse
Imagem de Heduardo Kiesse

Na poesia visual a erradicação do discurso linear constitui um dos pontos essenciais. No meu trabalho, designadamente naquele que tenho desenvolvido no mural da página de facebook Paradoxos, a palavra insinua-se não como uma substância, mas como uma estrutura formal em permanente reinvenção.

Tal como eu a entendo, a poesia nasce no ato de me conhecer a mim próprio através dos diferentes ângulos de leitura do outro. A minha prática artística tenta ser a sua expressão através de um procedimento inventivo que une indissoluvelmente o verbal e o visual. É assim que a poesia acontece numa espécie de construção artesanal que utiliza suportes com um caráter inutilitário, objetos fora do seu prazo de validade, pedras, madeira, tijolos, parafusos, esferovite, fósforos, botões, folhas, areia, alimentos, etc.

Imagem de Heduardo Kiesse
Imagem de Heduardo Kiesse

Nalguns casos, como nos vídeo-poemas, por exemplo, são realizações poéticas que não são reproduzíveis numa folha de papel devido à sua dimensão cinemática. Não se trata de um derivado ou de um subgénero da poesia visual. Na verdade, pouco importa a categoria que lhe quisermos atribuir. É mais do que uma fusão de materiais verbais e extraverbais. Direi, antes, que é a “in-fusão” do meu contacto com o mundo.

Imagem de Heduardo Kiesse
Imagem de Heduardo Kiesse

A capacidade de entendermos a linguagem poética passa pela capacidade de entendermos que um texto pode existir sem palavras, ou que nele as palavras podem ser substituídas por objetos do quotidiano. Estes, por sua vez, deixam de ser meros objetos, passando a objetos poetidianos na medida em que transferem a poesia para o meio dos Homens multiplicando os modos de ser do poema. Com as minhas poemoGrafias tento essa metamorfose entre a palavra e os objetos do dia a dia.

A poesia já não se resume a versualizar as palavras. É também um instrumento de produção do sentido da vida. Impõe-se, por isso, reformular o seu conceito. É que, mesmo não tendo em nós presente a ideia do que é exatamente a poesia, experimentamos o fenómeno poético diariamente, por exemplo, quando contemplamos imagens que, não sendo poemas, nos provocam uma espécie de incandescência que nos reconcilia com a natureza e com o mundo.

Heduardo Kiesse, pseudónimo de Pacheco Quiesse Monteiro Eduardo, nasceu a 5 de Março de 1978, em Angola. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, é licenciado em Filosofia e Mestre em Cultura e Comunicação pela mesma Universidade. 
Participou em vários eventos literários e da criação de capas para livros de poesia, como por exemplo, o livro de Alice Vieira “Os Armários da Noite”, realizou diversas exposições de poesia visual entre as quais  se destaca a exposição na “Livraria Ler devagar”.

Artigo anteriorO Sanidade
Próximo artigoUm dos meus leitores tem problemas de vista
Hirondina Joshua nasceu em Maputo, Moçambique, aos 31 de Maio de 1987. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos. Participou de várias antologias, revistas blog, jornais, colóquios, debates, festivais nacionais e estrangeiras. Tem colaborado com a plataforma mbenga de artes e reflexões fazendo conversas e divulgando textos de autores lusófonos. É co-redatora da revista portuguesa incomunidade. E colunista da revista galega palavra comum onde colabora com ensaios sobre a arte da escrita.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here