FESTIVAL RAIZ À procura do “Ntsutsu”

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“NTSUTSU” é um termo que nalgumas línguas bantu, tem um significado, que se aproxima de essência, nesta língua calcada por Ungulani, Mia, Álvaro Taruma. Mas tutano, talvez seja a mais adequada, a que mais se avizinhe, ainda assim parece incapaz de encarnar a acepção de “Ntsutsu”.

É este retrato, uma das possibilidades para a qual conduz o conceito da última edição do Festival Raiz, decorrido na sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

Com o palco elaborado e adornado com esteiras por todo lado, um trono, onde o líder, na performance, Madala Matusse conduzia a “cerimónia”, que parecia ter a intensão de resgatar ancestralidades perdidas.

Os protagonistas em palco tinham origem em diferentes escolas de música, mas reuniram-se ali para resgatar as nossas sonoridades, conversar com as nossas paisagens.

Albino Mbié na guitarra, destilava a sua versatilidade. Actualmente reside em Boston, onde formou-se em Performance, produção de música e engenharia de som e Minor em acústica e electrónica, pela Berklee College of Music.

O jovem que cresceu no bairro de Benfica, na capital do país, já tem dois álbuns, que indicam que há um novo nome na lista dos ilustres guitarristas moçambicanos. Recordar que ele produziu o tema “Ntsumi”, da Isabel Novella. A Orlanda, integrante do Malhangalene Jazz Quartet, no baixo e contra-baixo. Téxito Langa, director musical dos Tp50, na bateria. É uma malta que formou-se, basicamente, no jazz.

Noutra secção, Matusse conduz com as suas intervenções, o auditório a uma atmosfera do folclore e do tradicional.

Edna Jaime, a bailarina, emprestou os seus movimentos obedientes às melodias libertas pelo rufar dos tambores da Timbila e das vozes de Nbc, Rodhália Silvestre, o versátil jovem Trkz, Luyolo Lenga, Nkosinath e Thobile.

No final, Alberto Langa, antropólogo que assistiu a todo o espectáculo, comentava: “a música estava boa, mas acho que falta algo para cativar”.

Tendo assistido à edição passada, que decorreu no pátio do Museu Nacional de Arte, em Maputo, avaliou, que houve crescimento conceptual este ano.

“Juntar o tradicional com o moderno pode ser um bom caminho para resgatar a essência da nossa identidade, que é uma preocupação, neste contexto, de deterioração da globalização”, afirmou o espectador Alberto Langa.

Numa altura em que há focos de renascimento africano, que em Moçambique tem exemplos na edificação do Museu Mafalala, na adopção do cabelo crespo, como marca de identidade (fundamentado ou não), vozes nos debates a convidar para essa reflexão, a diáspora africana – os afrodescendentes – a procura deste lugar, a busca do “Ntsutsu” é esse regresso ao que nos pertence, ao berço da nossa existência.

O nosso entrevistado considerou que levar Xigubo, Xitende, Niketche, Timbila entre outros, para o palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano, associado à música moderna, pode ser uma via, para manter a cultura viva, “diante do quadro actual de esvaziamento de valores e de consciência”.

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