“Alucinoescritos” (1)

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Na Bermas de nenhuma estrada é título de um livro de Mia Couto. É sugestivo, pode significar um lugar com gente sem sonho, sem caminho. Sonho é caminho, o primeiro passo. Pode ser a cerimónia fúnebre da esperança.

Numa realidade mais concreta pode significar um lugar onde agricultores produzem e não têm como escoar os seus produtos. Onde essa gente raramente tem contacto com as gentes da cidade.

Apenas vi a capa, não li o livro, aquela quantidade de metical para a aquisição não cabe no meu bolso. Na sede de o ler, já que não pude, adaptei imaginação:

Um homem de cabelo crespo, o preto a disputar espaço no grisalho. Estatura média. O rosto feito de dobras, produto do tempo, da idade que lhe pesa. Olhar distante, sentado no limite do seu terreno, diante de capim alto, contemplando, fruto da sua fantasia, o som de carros e de gentes sorridentes, felizes, na ilusão de prosperidade na selva de betão.

O velho não faz outra coisa da vida. Amanhece e, antes mesmo do sol, senta ali. As vezes levanta acena e grita “boa viagem”. Volta a sentar-se. Nisso sorri, abana a cabeça e suspira. Noutras explica o caminho aos transeuntes perdidos, a busca de um estabelecimento próximo. Ao meio dia a esposa lhe leva o alimento e um litro de surra. No bolso, o velho guarda um bocado de “mbangue”. Ela já cansou de chamar atenção sobre as alucinações.

No final do dia, regressa à casa e conta aos netos o que viu. Sentam-se ao redor da fogueira. Sempre inicia a conversa nestes termos: “Já nem durmo. Se sonho de dia, para quê dormir?

Na minha idade já não é para descansar que se vai a cama. Também não é para sonhar, é para recordar”.

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Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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