Que tal devolver a Prancha?

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DESTOA o discurso segundo o qual a cultura deve ser preservada. A cultura é a forma de ser e estar das pessoas e reflecte a sua forma de pensar. Destoa esse discurso como o encerramento do lazer na Prancha, na cidade de Inhambane.

Aquela é, antes de mais, uma galeria de memórias de várias gerações, que nela se reencontram sob efeito da crença no mito de que o passado era mais feliz. Estão ali “guardados” vários episódios da infância (e poderiam viver-se outros). Não se pode esquecer que se trata de uma cidade com uma tendência migratória significativa.

A Prancha é um museu. Mas os museus, como a vida, não são estáticos. Nada têm a dizer, sem movimento, sem dinâmica. Não foram concebidos para estar à margem da sociedade.

Proibir que se desfrute a sua brisa ao sabor que os seus proprietários, ritualmente, pretendem, é agredir o ser e estar da sua gente. É ignorar a tradição da cidade de Inhambane.

O que seria do Rio de Janeiro sem a Copacabana? Tom Jobim nem teria visto a Garota de Ipanema se a praia estivesse condicionada. O que seria de Alexandre Chaúque sem o Desportivo? Porque vedar a possibilidade de novas poéticas?

A decisão de encerrar a Prancha não coaduna com a preservação dos hábitos das gentes da cidade. O turismo que quer ser original preserva os seus costumes. A singularidade há-de sempre abrir-nos as portas para o concerto das nações.

É parte da narrativa sobre a cidade de Inhambane a seguinte imagem: miúdos, alguns descamisados e descalços, a voltar, temendo represálias dos pais, pelo desacato de ir à praia mergulhar. Estão parados, é uma multidão de jovens de todos os bairros, na Mafurreira, em frente à Catedral, depois de um banho, a conversarem sobre a mítica Laurentina.

A Prancha é um lugar de culto, ponto de encontro com o aroma do sal, ao ritmo de qualquer música. É qualquer mesmo, porque nenhuma supera a do quebrar das ondas nas barreiras. Naquele ponto, em frente à Assembleia, onde diante de si está a imponente Prancha de cimento, nos seus dois níveis, que mais parecem dois braços abertos, dispostos a receber todos.

Manter aquele lugar encerrado pode ser um atentado ao turismo cultural, que move vários turistas do mundo. Pode ser comprometer a aliança entre a cultura e o turismo.

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