Queremos o nosso espólio de volta

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SOMOS, enquanto indivíduos, resultado de vários acontecimentos, que ficam registados na nossa memória. As nossas tomadas de decisões são então consequência dessa bagagem a que chamamos experiência. Com o Estado, que é uma extensão dos indivíduos, não haveria de ser diferente.

A nível macro, a memória é o que, cientificamente, convencionou-se designar história, que nada mais é do que o relato do passado percebido na perspectiva de quem se dedica à sua interpretação e redacção.

De modo a certificar e legitimar as narrativas referentes ao que fomos são necessários testemunhos palpáveis. Daí a importância do património – material e imaterial -, pois atestam a veracidade do que é descrito pelos historiadores.

Mas como e o que preservar? Esta pergunta, entre outras razões, para além das expostas no introito, pode ser sustentada no discurso quotidiano, que advoga a necessidade de resgate da identidade moçambicana.

Para início de conversa, o conjunto de elementos, que constituem a estrutura, do que somos, não é linear e ainda não está, cientificamente, sistematizado. Sem domínio do passado, torna-se complicado definir com bases claras. Entretanto, parte dos registos e das nossas obras não está nos nossos arquivos, o que dificulta o seu acesso. É só observar que para estudar algumas questões referentes a nós temos de recorrer a Portugal.

Acreditamos que já é chegada a hora de termos de volta esse material para que possamos, nós moçambicanos, construir narrativas mais sólidas a partir de dados concretos, que nos ajudariam a pensar de forma mais coerente, o que vem a ser, realmente, essa identidade moçambicana – claro que jamais deixamos de lado o facto de se tratar de um processo que não acaba.

Na sequência de a França ter tomado a inteligente iniciativa de devolver obras de arte desapossadas de alguns países africanos no contexto colonial e noutras circunstâncias, parece-nos oportuno que toda a Europa, como aliás o Reino Unido já deu sinais nesse sentido, devolva esse material, que nos pertence.

Enquanto Estados ainda aprendizes dessa condição, o regresso ao passado constitui uma obrigatoriedade. Não nos parece leviano assumir que nem todos os modelos de percepção do mundo ocidental se adequem às nossas realidades, a opção por elas se deve ao facto de serem a única a que temos acesso. Há que contornar esse estado de coisas.

A devolução de informação – seja ela escrita ou objectos – nos possibilitaria, por exemplo, melhor entender as formas de administração social anteriores à colonização, pois acreditamos que a tomada de decisão sobre o que quer que seja, deve, antes de mais, respeitar aquilo que é a vida de quem vai lidar com ela, diariamente. Esse material ajudaria a compreender de onde se funda a nossa forma de pensar.

É nesse contexto que nos parece urgente uma comissão que trabalharia, exclusivamente, no resgate do nosso espólio. Porém, mais do que ir buscar algo, que nos pertence, é preciso que estejamos preparados e com instituições que sejam, realmente, funcionais.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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