Doralice já despertou?

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O sol, comentou a Juliana, andou de sacanagem connosco. Escondeu-se lá atrás das montanhas, nas costas do moro. Impediu-nos de ver-lhe cumprir o ritual que encanta Chico Buarque. Ele canta: “O poente na espinha/Das tuas montanhas/Quase arromba a retina”.

A tarde já era um facto consumado. O relógio já tinha passado das quinze. Depois de tomar um café carioca com pasteis de queijo, fomos caminhando protegidos pela brisa das amendoeiras, apesar do dia cinzento.

A nossa expectativa de dias estava a frustrar-se logo pela manhã. Mas ainda na fé, lá fomos, eu e a Juliana. Ao percebermos que o clima ignorava os nossos anseios, não nos demos por derrotados. E lá caminhamos.

A brisa denuncia a proximidade. A luz se abre. A fragrância forte de sal penetra. Estamos na calçada. Tal qual o “Englishman in New York”, do meu velho amigo Sting, fui um manhambana no Rio de Janeiro. Bebi uma água de coco enquanto fazia o pedido, o vendedor perguntou-me: donde és? Moçambique – respondi. Percebí no sotaque que não és brasileiro, disse.

Fomos caminhando no calçadão até colocar os pés na areia, onde uma malta construía um castelo de areia. O mar, aquele mar ali estendido, pálido, por baixo de um céu cinzento, dançava ao ritmo do vento.

Caminhando nas margens, onde as ondas desistem de ser pássaros, quando quebram-se junto a areia libertam-se e fazem a sua própria música. Duvido que o vento ali tenha sono tranquilo, como sonhava Fernando Pessoa. Água gelada namorando nossos pés. Isso é que é poesia.

O horizonte que não permite se perder. As montanhas contornam o infinito e exigem todas as cuidadas atenções. As nuvens que escondem o sol acabam perfuradas pelo pico das duas montanhas altas, lá para o Le Blon.

Sentados na Pedra do Arpoador, perdemos a tarde a ouvir Roberto Chitsondzo, Milton Nascimento, Jaco Maria, Clementina de Jesus, Albino Mbie, Carlota, Wazimbo, Os Novos Baianos, os irmãos Isabel e Neco Novel(l)a(s).

“Aqui, a olhar para o mar, percebo que o eterno retorno, de que Nietzsche falava é verdade. As coisas acontecem e se repetem infinitamente no presente”, comentou a Juliana.

– Não sei se faz sentido o que direi: mas estou aqui a pensar que gosto de coisa velha, mas que hoje fazem todo o sentido – respondi. Ela sabia que me referia a elevação que me causa um Marcos Valle, quando o Rio hoje vibra com a Xênia.

O ar começava a ficar mais gelado que a água da praia. Era hora de ir embora. Pelo caminho, o violão no ombro, dono do mundo, vinha Tom Jobim. Talvez tranquilo por saber que a cidade tornou-se sagrada, em parte por culpa sua.

Esperou por nós. Quando chegamos perto, franziu o rosto porque, como disse, triste é viver na ilusão. O dizes pela mesma razão que o Cristo Redentor, perguntei-lhe, ao que me respondeu, sei lá, só sei que a vida é uma grande ilusão.

Sentamo-nos a beira-mar a conversar sobre aquela altura em que eu o ouvia, no quarto da Karl Marx, no bairro Central, em Maputo. De quando usei os seus versos para engatar aquela gaja que passava todos os dias as 18:00 horas.

Tom falou pouco, quase nada. A noite anunciava-se. Aos abraços nos despedimos. Dei dois passos e recordei-me de perguntar: a Doralice já descobriu que meteu água ao abandonar a parte esquerda de João Gilberto.

– Meu filho, o tempo dirá, o tempo – respondeu.

Na manhã seguinte o céu abriu-se por completo. Do quarto do hotel, pela janela, vi o Redentor, sorridente. Mas já era tarde, meu voo era dali a poucas horas.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

 

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