ILDO NANDJA: Uma voz a passar despercebida

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ANTES de mais: paz a todos. Essa foi a mensagem que Ildo Nandja enviou-nos em 2015, numa compilação de 11 faixas, nas quais o jazz flui com sorriso maroto no rosto, trajando uma indumentária ocidental que não esconde, de propósito, o tecido sonoro destes solos.

Afastei-me do Gregory Porter, Jammie Collum e Kamasi Whanshington – da Esperanza Spalding é que, de vez em quando, não há como contornar; A Nina Simone e Chales Mingus já são outra história. A responsabilidade é de Nandja com um disco bem conseguido, o seu álbum de estreia.

A executar contrabaixo e a emprestar a voz, o jovem moçambicano exibe uma harmonia que busca atingir o contexto da realidade de quem ouve, pois, preenche vários espaços no ar. Trata-se de um trabalho digno de respeito, numa linha que não dista de Albino Mbie – essencialmente no “Mozambican dance”.

Liberta-se um coltranismo na faixa “Witch Doctors Letter”, uma das que surpreende devido à linguagem que a sustenta. O saxofone tenor é executado como se estivesse à busca de superar-se a si mesmo, à procura de sonoridades que rocem o interior de quem o consome, sendo que, nalgumas frases, pouco antes da introdução do baixo recorda as lucubrações de Anthony-Braxton no seu experimentalismo, conseguindo, nesse exercício, atingir alguma espiritualidade.

Ildo Nandja segue uma estética que se difere do que por estas bandas é designado jazz, a partir de composições simples, pese embora com títulos clichês, como “Lembranças de vida”, “Paz a todos” – que dá título ao álbum.

A audição de “Flores do jardim”, de 8.09 minutos, é similar à obrigatoriedade de quem vai a Istambul ter de passar pela Praça Taksim, no lado moderno europeu. Trata-se de um discurso instrumental que parece congregar a essência de todo o conjunto.

Tal qual um Ron Carter, o contrabaixista moçambicano imana uma capacidade de composição cativante e apelativa distanciando-se, do primeiro, nas terminologias afro, evidentes na falta de subtileza de algumas melodias, para além da forte presença da percursão, que escapam no sotaque das frases das suas músicas, assim como nos arranjos.

Nandja empreende obras cuja arquitetura tem, nalguns casos, os seus alicerces no folclore, como, por exemplo, ocorre em “Ngonani Nomidana”, em que a melodia-tema parece construída a partir dos batuques do tufu.

A revisitar a tradicional catedral do jazz, o músico a adorna com material que, mais uma vez, recorda a fusão com o rock, iniciada na década 70 que, inclusive, teve contributo do Miles Davis.

Em peças em que as linhas melódicas simultâneas tecem de textura leve, o músico atinge numa precisão de realce na execução do contrabaixo e exibe um conhecimento harmónico patente em todo o álbum.

Passando de forma despercebida, este disco de originais, que marca a estreia de Ildo Nandja, “Paz a todos”, transpira jazz, merecendo um lugar cimeiro nas nossas discotecas.

Com composições aparentemente simples, em temas como “Rise”, por exemplo, há um diálogo entre o piano, o saxofone tenor e o contrabaixo na vanguarda a explorar as penumbras da sonoridade. É 1.39 segundos com tempo eterno. Há liberdade. Há discursos de entoação densa na sua execução.

Seguindo o culto de reconhecimento dos ancestrais, o contrabaixo não deixa de prestar tributo a Fani Mpfumo, em “Remember Fani Mfumo”, posiciona-se face a questão “King da marrabenta”, apelando a eternização do ídolo.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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