Crónica desconseguida em Quelimane

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O lençol escuro da noite já cobria a Quelimane de White e Lineu. O roncar dos motores das motas e o “trilim, trilim” das bicicletas nos acompanhavam, enquanto os candeeiros públicos iluminava as ruas. Saltava a vista o detalhe da malha que decora os passeios. Nós, Ercílio Fernandes Bechardas, Carlos Jossia, Gabriel dos Santos e eu, caminhávamos.

Para trás deixavámos a esplanada Txapu-txapu, nas costas do Hotel Chuabo. Caminhavámos para o Januário, nossa pensão. A conversa ia solta, o verbo fervia naquele calor húmido, a risada mascarava os rostos.

Nascido, criado, crescido e radicado na costa, entre Inhambane e Maputo, no sul, dois dias depois do pouso eu ainda não tinha o norte. Quelimane está no interior do centro. As direcções eram um dilema.

Naquela cidade nos cruzámos com pessoas a andarem num passo sem muita pressa, como se o pé alcançasse um território sagrado, ao chegar ao chão, tamanho respeito na leveza do andar. É um passo que não quer ferir um solo que de tanta história tem sangue a circular por baixo. Mas também, a beleza tem que ser triste, como nos diz Vinicios de Morais no “Samba de Bênção”.

(Está certo que o poeta falava de mulher. Mas a sensualidade, a sensibilidade da cidade nos remete a esse ver; convenhamos a mulher é protagonista de várias narrativas de saudade… outras conversas. Por isso é triste. Porém é uma tristeza bela. É, outra vez o poeta e diplomata, uma tristeza que tem sempre a esperança de um dia não ser mais triste.)

Nós caminhámos pelo pequeno Brasil. O Délio, meu irmão da vida, companheiro de infância, estava em Maputo, vindo de Inhambane a trabalho. Não pudemos nos ver. Vinicios, desgraçado, está em tudo. É: a vida é feita de encontros, mas há tantos desencontros nessa vida, p(r)o(f)etizou.

Quando sentei-me, no Januário, pedi uma cerveja. Algo gelado para refrescar a espinha. A humidade do calor já há muito me tinha abraçado. Acompanhei o noticiário. Só tristeza. Pareceu-me que as histórias que algumas estações de televisão desembarcam são uma representação de actos e cenas sheakespereanas, em que os detentores de poder são, muitas vezes, perturbados por trivialidades humanas no interior do palácio, escondidas por trás dos altos muros para à rua. Hamlet e Lear que nos confirmem. A consequência é o desgoverno e discursos tétricos, desfasados da realidade.

Ualalapi chamou-me pelo nome. Eu resisti, mas insistiu! Me deixou sem hipótese. Já no quarto, fiz a lista de reprodução no computador. Confesso, foi uma lista que desmentiu o português Alfredo Margarido que escreveu que há sempre dança a acompanhar a música africana, quando contestava a visão do intelectual Sartre sobre o que considerou, uma distorcida percepção da Negritude.

Era Abril. Logo correu-me a cabeça escrever uma crónica, Ungulani que se sentasse ao lado, na cabeceira. Rabisquei alguns parágrafos, enquanto Jaco Maria interpretava “Munga lili”, depois da Fiztgeral na companhia de Armstrong terem me convidado para “April in Paris”. O sabor da galinha cafrial ainda passeava no meu paladar.

A crónica resistia. Não queria pintar de preto o branco do word microsoft. Por mais que eu inistisse. Mas me recordo que o último parágrafo da frustrada tentativa terminava neste ponto: a divagar sobre o encanto de Vasco da Gama quando desembarcou no rio dos Bons Sinais.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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