“Aquele abraço” Galiza Matos

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A NOITE já era um facto consumado. O negro cobria a Ilha de Moçambique, enquanto os candeeiros dos postes de iluminação pública e as lâmpadas que se viam pelas cortinas das janelas das casas insistiam em o contrariar.

Saí para caminhar pelas ruas que, provavelmente, Camões percorreu na sua – sagrada – solidão e que de certeza inspiraram os poemas do Rui. A Pensão Escondidinho, que não é o equivalente à congénere em Maputo, pelo menos formalmente, diga-se, a cada passo ia-se perdendo nas minhas costas.

Passo calmo para não ferir o silêncio que se incomodava com o pisar o chão e o chutar de pedrinhas que se espalham aos montes, numa cidade que tem o atrevimento de parecer um museu. A cidade toda, na parte de pedra e cal, assim se parece. Lá ia eu, com destino a sei lá.

Alguns nativos, em grupos, teciam, sentados na rua, conversas nalguns pontos da ilha. “Boa noite tio!”, cumprimentavam-se, como se todos ali fossem da mesma família.

A contemplar o mar, com ares de saudade, ao lado da Casa Branca, cruzei-me com a estátua de Luís de Camões. Vitória minha estar ao lado do poeta que verteu, de certeza, naqueles solos, o sangue do rouxinol que nos fez país de poetas.

Tinha de voltar a estalagem onde me hospedei, mas não queria usar a mesma via, meu desejo era evitar aquela ruela de séculos atrás que mais se parece com imagens descritas em qualquer romance de época. Como não conhecia os caminhos, tive de perguntar para chegar ao meu destino. A minha referência era o Conselho Municipal, em frente ao “Escondidinho”.

Gentilmente, pela indicação de outro transeunte, um camarada ofereceu-se a acompanhar-me, até porque íamos na mesma direcção. Fizemos as apresentações de praxe enquanto de longe ouvíamos o latir de cães e, com sorte, os acordes de um piano a invadir as ruas, vindo das casas que ladeiam as estreitas ruas da ilha.

O seu nome é Momed, funcionário das Telecomunicações de Moçambique (TDM). Depois de lhe ter dito que sou jornalista, desmanchou-se e abriu o coração. Já aparentemente na casa dos cinquenta e tantos exclamou: “meu sonho era ser jornalista”.

A razão do sonho tem um nome: o radialista Galiza Matos, que nas décadas oitenta, noventa e princípios do novo século deu a sua voz a vários noticiários e reportagens da Rádio Moçambique. Revelou-me e a emoção transpirava nos seus olhos.

Com as mãos junto ao peito, revisitou a adolescência, para recordar que não largava o aparelho Xirico, a pilhas, quando descobrisse o seu ídolo a navegar nas ondas hertzianas. Até porque decorou os horários.

A desfiar a memória, num relato que parecia retratar um acontecimento do dia anterior, contou que ao saber que Samora Machel iria a Milange (Zambézia) e Galiza Matos o acompanharia, fez as malas de imediato. Fez-se à estrada com a expectativa de ver em carne e osso o proprietário da voz e dos relatos que iluminavam os seus dias e sonhos.

Não teve dúvidas de quem era quando viu um homem com uma pasta nas costas, o gravador nas mãos, a afastar a multidão, num exercício que se assemelhava ao de Moisés a dividir o Mar Vermelho, de modo a encontrar um ponto estratégico, de onde pudesse descrever melhor o que via.

Ali, disse, percebeu que nalgumas vezes o que ouvia no seu Xirico não era previamente escrito. Era cru, natural, nada mais do que a descrição in loco da realidade. Seu encanto estava evidente na forma como narrava aqueles factos, tal qual adolescente apaixonado.

Para Momed, naquele comício, Galiza Matos, o jornalista, era mais importante que Samora Machel, o Presidente da República que declarou a independência do país, naquele eterno 25 de Junho de 75.

Não obstante estar a alguns anos da reforma, Momed assume que só estará realizado quando realizar o sonho de ser jornalista para, por outro lado, escrever artigos sobre futebol, como os que lia no “Notícias”, onde, sem nunca ter visto televisão, conheceu, em detalhe, figuras como JJ, Chiquinho Conde…

“Eu decorava os textos e conhecia todos os onzes dos maiores clubes do país”, disse, entusiasmado. Já nos aproximávamos da minha estalagem quando pediu que levasse o abraço e as palavras que, em Milange, não pôde dizer a Galiza Matos.

Ficou o compromisso, embora ciente de que não o podia fazer de facto porque o decano não é das minhas relações e, igualmente, o tempo de que sente saudades não é meu. Mas enquanto subia as escadas para o quarto, a vasculhar a chave, entre os bolsos, me veio a certeza de que este poderia, talvez, ser o meu jeito de dar o abraço prometido. E como se no instante que concluo esta crónica ouvisse “Música dos Entas”, a reproduzir Gilberto Gil, assobio “aquele abraço”.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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