OS evangelhos de Fernando Manuel

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Assumo o risco de me aventurar nesta empreitada, afinal estou a me atrever em enfrentar uma escrita que já vem afinada desde os Tempos. Mas, convenhamos, não podia fazer desfeita a confiança que me foi depositada pelo poeta Mbate Pedro (ele é que colocou-me o desafio). 

Encontramos em “Missa Pagã”, livro que sai sob chancela da Fundação Fernando Leite Couto, um álbum de retratos de um tempo que, infelizmente, ainda não passou. Os textos datam de há 20 anos, em média. É um tempo de miséria, no qual até a esperança virou prostituta. A gente vai ao rumo do vento.

É genial o modo como as narrativas se parecem com histórias ouvidas nos chapas, na conversa com o colega, a namorada. Isto é, ele penetra nas nossas casas. Fernando vai até ao osso.

Missa Pagã, um livro de crónicas, é de uma disponibilidade de imagens, que concebidas com um material simples, da língua que Camões verteu na Ilha de Moçambique. Não há abuso de palavras pomposas e neologismos. A língua é tratada tal qual ela é. Para ser mais concreto diria que é de uma limpeza que só o Miles Davis conseguiu para o seu trompete no período do Kind of Blues.

Nesta mania dos Fernandos, o Manuel também é um fingidor. Platão estava certo quanto aos poetas. Imitadores. Todo artista é poeta. Os narradores e os personagens são vestidos, pelo escritor, como se alfaiate competente tivesse feito o trabalho.

Um autentico Hamlet, o escritor, finge muitos papéis nestas crónicas, ou orações da plebe, sendo mais sincero. Fernando Manuel metamorfoseia-se vários. A dado texto é o jovem que se senta no muro enquanto o tempo passa, ignorando o conselho que nos é dado por Chico da Conceição, ao lado do Moreira Chonguiça, no tema “a idade não perdoa”.

Noutro instante é um “cota” que foge da Malhangalene para beber espirituosas de má reputação, na Mafalala. A meio do percurso assume a culpa pela Cólera que foi buscar nas barracas que o seu bolso podia. É ali, naquelas barracas, onde a Dona Maimuna serve-lhe o petisco, até a vale, onde foi buscar a patologia, negligenciando que poderia ter ido tomar a sagrada refeição da segunda-feira no Hotel Polana ou Cardoso.

A viagem prossegue e Fernando Manuel se apresenta como mais um “tchonado” a conversar com outros tesos sobre as restrições no consumo de energia lá em casa. Chega, a dado instante, a ser o ouvinte do companheiro que lhe conta que teve que pedir emprestado taco a tia para pagar energia da sua casa.

Estão patentes nas crónicas, de cunho literário que as revestem de perenidade, marcas da nossa maneira de ser, no detalhe. O escriba traz a ribalta as senhoras a guardar dinheiro entre os suculentos, já caídos, e gastos seios.

Desta forma, “Missa Pagã” obedece a quem defenda que a literatura supera a história. Talvez porque despida de interesses políticos, na asserção de gestão da coisa pública para posterior lapidação.

A sentar-se no mercado Janeth para uns copos de cerveja, passando pela Avenida Marien Nguabi, em Maputo, Fernando Manuel é capaz de dar um salto à Inhambane, para visitar a Maxixe ou Inharrime e voltar a Munhuana, antes de entrar para a Mafalala.

Com muita ironia a mistura, senso de humor que Celso Muianga e Leo Cote aplaudiram, o escritor arromba o conformismo e escancara o nosso modos vivendi que, tristemente, envergonha-nos.

Entretanto, diante do caos, em que o subúrbio e a suposta urbe se misturam para tornar-se um só, neste livro, a vida jamais deixa de ser preciosa. Há mulheres feias mas preciosas. É assim que a vida se oferece na visão de Fernando Manuel.

“Missa Pagã” é uma obra que nos para além do mau agoiro nos transmite a mensagem de que a vida é bela. Por exemplo, conclui a crónica “Lua cheia e loucura”, escrevendo “a vida é bela, embora só os loucos saibam porquê…”. Ele sabe.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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