“Sou pessimista por defeito e perfeccionista inveterado”

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Por Elton Pila

“Mundo grave” é um romance para o nosso tempo, o primeiro de Pedro Pereira Lopes, que lhe quer afastar, mais um passo, da sombra da literatura infanto-juvenil pela qual se fez conhecer.

Agora, baralha ainda mais as contas. Não lhe caberão os rótulos que lhe pretendamos colar. Já com a obra de contos, “o mundo que iremos gaguejar de cor” (Cavalo do Mar, 2017), Pedro Pereira Lopes mostrou que era mais do que um escritor de livros infanto-juvenis, este “mundo grave” é mais um passo a outra margem do rio. Na verdade, quer aquela, quer esta obra são parte da irregular “trilogia absurda das minúsculas” – falta-lhe um livro de poesia – que inaugura as primeiras obras para o público adulto. Se são, em género, irregulares, talvez encontremos semelhanças temáticas, afinal, como diz o autor, e as obras que estão cá fora podem testemunhar, são uma reflexão sobre as pessoas e os seus mundos. Este “mundo grave” – que sai do prelo com o selo de vencedor do prémio INCM/Eugénio Lisboa, 2017 – é um romance policial que namora com o fantástico, vivos à braços com mortos, um enredo regado despudoradamente por sangue, é a normalização da anormalidade, que não nos vais chocar, porque a realidade já há muito nos habituou a isso. Costley Liyongo, o investigador que se empenha em esclarecer os assassinatos que animam o livro, não nos entusiasma pela astúcia que talvez tenhamos memórias de outros romances policiais, mas pela obstinação que tem em resolver os casos. Sobretudo – é inevitável fazer esta comparação – neste momento que o país atravessa, caracterizado por inércia por parte da Polícia. Se a Polícia lesse este romance, talvez aprendesse o compromisso pelo trabalho de Liyongo que lhe tiraria do “estamos a trabalhar” para o trabalho de facto. É uma pena que não leia – a Polícia – romances, nem mesmo os policiais. Mas nós lemos e conversámos sobre eles.

Uma questão que já deve estar farto de responder, mas que nos parece pertinente fazer. Por que escrever todo um livro em caixa-baixa, incluindo nomes próprios? É uma ideia apenas para os livros que fazem parte da “trilogia” ou é já uma marca?

A priori, sim, é (ou era) apenas uma ideia para a “trilogia” – talvez porque, como dizia Adriano da Gama Kury, “a tradição e as normas oficiais são insuficientes e insatisfatórias”. Tenho uma fixação pela escrita e ficção experimental, desde Hemingway, Calvino, Lispector, cruzando os mestres do realismo fantástico, incluindo Foster Wallace, Saramago, Hugo Mãe, Cabrita, entre outros. O uso de minúsculas não é uma “invenção minha” e não é, de igual modo, a única característica da “trilogia”, a pontuação e a mancha gráfica também são “estranhas”. As letras maiúsculas, a tradição, são de uso cerimonial, um realce gráfico convencional que nos foi ensinado quando nos introduzimos na escrita, mas antes desta iniciação, não nos pareceriam as palavras iguais, democráticas? Contar histórias é um processo oral, e eu quis trazer, no“mundo grave”, um “narrador oral”. Em “o mundo que iremos gaguejar de cor” também acontece o mesmo, há essa liberdade das palavras pelas páginas e a ruína tanto da narrativa como do layout convencional do livro, veja, por exemplo, que o título aparece em espiral e na contracapa.

CAPA....

O que fez com que uma estória nascida conto se tornasse num romance?

Pratiquei, durante algum tempo, o short-story americano, contos longos de até vinte mil palavras que, se calhar, os teríamos por “novela”. O “mundo grave” perdeu as estribeiras, foi isso, por emoção ou, quiçá, por ambição.

O conto é um género menor?

De jeito nenhum! É uma imbecilidade ver os géneros literários em “maior ou menor”. Eu, por exemplo, acho extraordinária a precisão do conto (incluindo o nano ou o microconto). O conto é mais um haiku da prosa, límpido e abrupto.

Numa conversa com Hirondina Joshua – o texto foi publicado nestas páginas, semana passada – disse não se sentir capaz de escrever um Romance, porque exige muita investigação. Como lhe correu o processo de investigação?

O Ungulani diz-se incapaz de escrever poesia porque ela é um “território sagrado”, ou seja, cada escritor tem as suas crenças e medos, aliás, como ele ainda diz, “cada um tem o seu músculo”. Eu sou ultra metódico, quando se trata de investigar, por influência da academia, creio. Para o “mundo grave” estudei, com pormenor, a ficção policial, os grupos de personagens, os cenários, etc. Perco sempre bastante tempo a construir ambientes e falas.

Faz questão de lembrar-nos, nos ‘comentários e agradecimentos’, que “embora quase a totalidade dos lugares mencionados no texto existam na realidade, as suas características podem ter sido exageradas…”. Era para fugir da investigação que ia requerer uma descrição fiel?

Era para fugir da realidade imediata, insuficiente, para nos lembrar que a vida pode ser mais deliciosa quando nos tornamos curiosos e inventivos. “mundo grave” não seria literatura se não tivesse desconstrução e criação, não me compadeceria com um relato, uma revelação, e o livro tenciona que o leitor desconheça o que conhece, que redescubra o que crê conhecer.

As intromissões do narrador (que também soam as do autor, como separa estes dois?) como se estivesse a lembrar ao leitor que está diante duma estória de ficção, seria para que o leitor não confundisse com a realidade?

Não tenho noção, quase sempre, de como o leitor vai receber o livro. O que faz da ficção, uma ficção? Quando leio, não digo para mim “não te queixes, não te zangues, não te emociones, é tudo patranha, fruto de uma imaginação doentia!” É tudo real, quando lemos. É real para o autor, é real para o narrador, é real para o leitor; se não for verossímil, então não é arte. Não me preocupo muito com os aspectos técnicos no instante da escrita, o subconsciente faz o seu trabalho, mas, como disse antes, é ficção experimental, daí a negação dos padrões das fronteiras literárias, não sei muito bem que relação é esta (narrador versus autor), pode ser discurso híbrido, narração fragmentada ou metaficção.

É curiosa a forma como olha para as obras, a forma como as entende e as justifica. Apesar de ter dito que “não tenho noção, quase sempre, da forma que o leitor vai receber o livro”, parece que sabe, pelo menos, o que quer que a obra signifique para o leitor.

Também não! Estaríamos a falar de, se não me engano, simbolismos. Tenho noção do que a obra representa para mim, mas não posso controlar o leitor. Já ouvi falar de leitores que choraram depois de terem lido “A história do João Gala-Gala”. Terá sido minha intenção fazê-los chorar? De jeito nenhum. É clássico: os livros deixam de ser nossos depois de os apresentarmos ao público.

Faz parte dos escritores que se deixa levar pelos personagens e perde o controlo da estória ou manipula os personagens para que sirvam ao que pretende transmitir?

Gosto de admitir que o escritor trabalha sempre em duas etapas ou níveis, num primeiro momento, domina o subconsciente, e no segundo, o consciente; mais ou menos como diz o Stephen King, trabalha-se primeiro com a porta fechada, e depois, com a porta aberta. É o meu método. Põe-se tudo cá para fora, aí os personagens planam, a seguir, olha-se para tudo aquilo com olhos de lupa, aí entram as “manipulações”. Na última revisão do “mundo grave”, por exemplo, retirei cerca de cinquenta páginas. Cortei capítulos inteiros, cenas e personagens desapareceram. É sempre bom deixar o subconsciente fazer o seu curso, a narrativa é natural e insuspeita.

Percorremos o livro e percebemos que o “mundo grave” não se reflecte, pelo menos não apenas, nas circunstâncias e motivos do assassinato da prostituta, a “shonga”, mas em todo o ambiente por onde o enredo se desenrola. Quando lhe chega o “sentimento do mundo grave”?

Tive consciência deste “mundo grave”, na verdade, após ter fechado o livro, dois anos depois. A princípio, não era nada simbólico, e o título, afinal, só calhou, mesmo a despropósito. O aspecto “grave” é corolário tanto do “desconcerto” de Camões como do “sentimento do mundo” do Drummond. É a “gravidade” que se encontra no “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, ou no poema “Metamorfoses”, de Patraquim. Não há nada de novo sobre o mundo à sua volta, o fim dos tempos já não são uma novidade há muito tempo.

Não deixa de ser irónico que construa este romance policial num país com tantos crimes sem resposta. Quem nos dera um Liyongo real (ainda que tenha algumas atitudes também questionáveis).

Talvez, mas eu não quis fazer uma literatura escapista, não se trata apenas de procurar seduzir o leitor, mas de proporcionar uma experiência transcendental, de tal modo que, enquanto alguns crimes são deslindados, outros ficam por solucionar, como a tragédia da família do Costley Liyongo e a morte do Comandante Gramane, peculiarmente ignorados pela polícia. Liyongo é um investigador nato, com um faro excepcional, mas no lugar de ver espíritos, ele vê criminosos. É um policial “à nossa maneira”, sem grandes dons, não faz mirabolantes deduções e não possui muita ou quase nenhuma tecnologia. Liyongo não é, muito menos, o Poirot ou o Alex Cross do terceiro mundo, está mais para um Bukowski com requinte militar, um distintivo e uma arma.

Neste livro, os personagens são psicologicamente muito ambíguos, não permitindo – pelo menos foi assim connosco – que o leitor sinta alguma coisa em relação a eles. Não era uma preocupação maior construir heróis e vilões?

Uma primeira leitora, uma amiga, fez, de igual modo, semelhante comentário. Por que eu quereria construir heróis e vilões? Não somos, nós mesmos, um pouco de tudo? Bons e maus, belos e feios, íntegros e desvirtuosos? Não, não tive esta preocupação, “mundo grave” não é um livro de conforto, de sonho, os personagens são instáveis, imprevisíveis, potencialmente voláteis. É importante voltar a referir que esta é uma narrativa experimental, voraz e radical neste sentido, que não busca empatia pelos sentidos, pelos personagens, não! É, talvez, uma manual para compreender as pessoas, sem entretanto julgá-las pelas suas acções, sem juízos de valor ou outras emoções. Se o “mundo grave” consegue essa imparcialidade, então estou feliz. Para concluir, “mundo grave” é apenas parte deste manual… No caso específico do Costley Liyongo, eu ainda não o conheço muito bem, “mundo grave” terá três partes: “mundo grave: o caso das cabeças cortadas”, que é uma prequela, ou seja, acontece antes dos eventos deste livro, daí que poderemos ter um outro Liyongo psicológico; e um ainda não nominado terceiro volume, que deverá estabelecer, de uma vez por todas, o carácter do investigador especial.

‘mundo grave’ é um romance que reflecte o nosso tempo. Acha que as guerras (de Resistência, de Libertação e Civil) que serviram de pano de fundo de significativas e definitivas obras da literatura moçambicana, perderam ou perdarão interesse para os escritores da nova geração?

Não estou interessado em escrever “obras significativas”, e creio que o escritor não pensa nisso quando está a escrever, independentemente do tema ou do contexto. Eu gosto de explorar géneros, estilos e temas, tenho sempre plots sinistros ou enredos a guerrear dentro da minha cabeça. É evidente que há uma necessidade de se trazerem assuntos actuais, urbanos, mas nós somos uma nação nova e a nossa história ainda não foi contada, ou boa parte dela, tanto pela hermenêutica histórica como pela literatura. O que tiver que ser, será, tudo a seu tempo. Estou a desenvolver um romance histórico, situado na década oitenta, estou curioso para ver no que vai dar.

O Livro sai com o selo de vencedor do Prémio INCM/ Eugénio Lisboa, 2017. A distinção legitima a qualidade da obra?

Quantos prémios o Patraquim tem? Certamente não foram os prémios que o legitimaram. Para mim, é sempre problemática esta relação entre o prémio e a qualidade do livro. É-me sempre uma chatice. Já desisti, antes, de publicar um projecto premiado. Sou pessimista por defeito e perfeccionista inveterado, trabalho os meus livros de forma doentia e nunca estou satisfeito, nunca mesmo. Vejo centenas de gralhas, gafes e coisas e tal nos meus livros depois de impressos. Não os gosto de abrir, mas não consigo resistir.

Há quem diz que a nova geração de escritores não se afirma, porque falta crítica literária. O que pensa disso?

R: “Não se afirma” ou não é afirmada? E já houve, de forma consistente, esta dita crítica literária (ou mesmo artística), se não manifestações isoladas? Terá a crítica literária desaparecido com o amadurecer do capitalismo? Duvido!

Temos alguns escritores, seu caso por exemplo, entre jornalista e crítico (vide entrevista ao Bonde). Como é ser escritor em causa própria e crítico em causa alheia?

Hipotequei a alma à literatura e estou comprometido com o meu projecto de escritor. Gostava de ter mais tempo para entrevistas e críticas de livros (ou artes, no geral). As minhas recensões críticas e entrevistas são parte de um exercício, escrever sempre e adquirir outras habilidades.

O livro foi editado em Portugal, logo sai com o novo acordo ortográfico, que Moçambique não assinou ainda. Não se preocupou com a pronúncia perdida nalgumas palavras ou pensa que essa não é uma preocupação maior no romance como é na poesia?

Manifestei-me logo em relação ao “desacordo ortográfico”, mas a minha opinião não foi tida em consideração. Sou contra o acordo, como moçambicano, mas olha que eu já entro no texto sem maiúsculas, sem pontos e com uma mancha gráfica avant-garde. O acordo ortográfico foi, no fim, uma preocupação menor.

Tem um livro no Plano de Leitura em Portugal. Em Moçambique nem se fala de Plano Nacional de Leitura. Começa daí o nosso problema de leitura que acaba comprometendo todo um sistema?

Sim, a base do iceberg. Olha que eu lecciono num instituto superior e é sempre um desafio corrigir provas. Uma escrita correcta, legível e aprazível é quase um mito. Eu disse “a base do iceberg” porque é, no fundo, um problema estrutural, político. Os novos manuais escolares e os professores também pouco concorrem para a excelência do sistema de educação. Com a descentralização da elaboração dos livros de ensino, o INDE, cuja missão é o desenvolvimento curricular, cedeu a sua tarefa às editoras, o que foi uma má decisão. Os livros são horríveis e nem sempre os melhores são os adoptados pelo Ministério da Educação. Dizem que é a economia de mercado. Os professores também não colaboram, se não é o desleixo institucionalizado para com o processo de ensino e aprendizagem, é a fraca prática de leitura – o que não incentiva, por exemplo, a frequência às pouquíssimas e pobres bibliotecas, feiras e aquisição de livros –, e as salas de aulas a transbordar de alunos, o que não permite a educação personalizada, que minam essa competência.

Fale-nos da Trilogia? De onde surge a ideia? O que há-de ser o livro de poesia a ser publicado em Setembro, no Brasil?

R: A “trilogia absurda das minúsculas” surge com a proposta de publicação de “o mundo que iremos gaguejar de cor”, pela Cavalo de Mar, em 2017 (o título é um verso do Paul Celan), e é vagamente inspirada na tetralogia das minúsculas do Valter Hugo Mãe. A “trilogia” representa um conjunto de meus primeiros livros dedicados aos adultos, composta por um livro de contos, um romance (“mundo grave”) e um livro de poesia (“mundo blue”). Sou conhecido pelas minhas publicações infanto-juvenis, porém, em segredo, andava há muito a explorar outras coisas, a experimentar, e eis o resultado, uma reflexão local sobre as pessoas e os seus mundos. Há quase que uma repetição nos três, diga-se, entretanto, percebidas sob telescópios diferentes. Não há nenhuma intenção de catarse, talvez uma denúncia, em “o mundo que iremos gaguejar de cor”, por exemplo, o José dos Remédios disse que eu explorava a “intolerância”, e o Adelino Timóteo falou de “Caos”, de peregrinação por uma nova ordem. O terceiro volume, “mundo blue”, trata, no seu primeiro caderno, de um dos veios dos outros dois livros, o amor, mas é um amor desassossegado, de ruína e de introspecção também, uma burlesca “a paixão segundo Pedro Pereira Lopes”. O segundo caderno é bastante diversificado, com algum lirismo e crítica social à mistura.

“Não há nenhuma intenção de catarse, talvez uma denúncia”. Entende a literatura mais como um espaço de denúncia e menos de catarse?

Enquanto criação, a literatura pode servir a variados intentos, justos ou não, humanos ou não… pode ser tanto para a denúncia como para a catarse.

É mais conhecido pelas publicações infanto-juvenis. Agora, apresenta-se para leitores mais adultos. O público-alvo influencia-lhe a escrita?

Não! Eu gosto de enfrentar desafios, mas eles não me são impostos pelo público. Aliás, poucos escritores moçambicanos escrevem por “exigência do público”, com excepção do Mia, da Paulina e de um número exíguo de escribas que tem publicado infanto-juvenis, este que é um nicho por desbravar no nosso país.

Publicado originalmente no Jornal Zambeze, edição de 3 de Maio de 2018

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