Mafalala

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Sinto-me na obrigação, obedecendo a asserção explicada por Novoa num desses vídeos que circula pelo whatsapp – não viral porque sem piada, sem nenhuma estupidez comum que repudiamos na hipocrisia com a qual habitamos diariamente -, de assumir o sentimento que nutro pelo Bairro da Mafalala. Quando cheguei de Inhambane, conhecendo a sua reputação de violência, não colocar os pés lá era uma certeza.

Mas lá estão a vida e o tempo, esses sinónimos, nas suas. Um dia lá fui. Ironias do destino, – creio já ser unânime que não se demitem os clichês porque estão revestidos de verdade – ali aprendi a sonhar. Entre os becos estreitos e enferrujados, conheci pessoas humanas, ouvi narrativas dignas de crónicas de um bom prosador de veia poética. Aqueles solos pantanosos testemunharam os primeiros passos de um novo indivíduo. Não entrarei em detalhes.

Ao ouvir relatos de Soweto, as crónicas sobre as favelas brasileiras, conjugado ao facto de ter crescido em Chalambe, um Bairro com semelhante fama – nada que se compare – acabei concordando com Severino Ngoenha quando nos sugeriu que, de alguma maneira, aqueles quintais e, actualmente, algumas casas de madeira e zinco pertencem ao nosso Harlem – embora se referindo as artes apenas.

Um dos exemplos de entrega à luta pela liberdade que este país tem é, sem dúvida, a Mafalala, donde vem os nossos Craveirinhas, Honwanas, Noas – embora este último somente na infância. A história deste bairro, destaca Fátima Mendonça, a configurou em mito. Mitologia mafalaliana? É uma hipótese.

Sem pretensões de Olimpo, suponho, os seus filhos constroem outras possibilidades de mundo que desafiam a realidade, destruíram alguns dogmas. Vá à história confirmar. São poetas que vivem cada verso na carne e no osso, transpiram a poesia da vida e oram Missas Pagãs.

Não que a Mafalala se trate de um exemplo sui genére, mas, obviamente, peculiar nas suas nuances. Não diríamos que é o lugar em que se deseja que seja aquele confuso casarão onde os sonhos são reais e a vida não, como cantou Chico Buarque – pintor brasileiro que escreve peças de teatro e finge que são músicas. Há muita pobreza naquele bairro. Onde não há?

Ainda é notável a falta de saneamento, se não algumas valas por onde escorrem lágrimas sujas de quem até já se esqueceu que chora. Os seus modos de ocupação de espaços ainda são anárquicos. Mas nem por isso deixa de ser a fortaleza que Craveirinha reivindicou.

O poeta teria dito, como nos escreveu Fátima Mendonça, em reacção a solidariedade de Julius Nyerere que expressou oferecendo asilo a Samora Machel quando os ataques sul-africanos estavam intensos: (…) Samora, quando precisar de fugir, foge para dentro de Moçambique, não precisa ir para a Tanzânia. (…) Saiu da Mafalala? Foge para Mafalala outra vez!”

A Mafalala era a nação do poeta. A Mafalala é poesia – outra vez a liberdade – que não pode ser encarada, reconheço, como uma relíquia que não evolui e a questionar hoje é um caminho para conduzí-la ao lugar de beleza de que é digna.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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