Em Maputo, a realidade é outra

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“Não sei se é conveniente te escrever esta carta. Mas tenho apreço em fazê-lo, não me quero sufocar. Sabes tu o que as palavras ainda na cabeça e as letras no fundo branco do word me fazem”. Interrompeu a escrita. Saiu para a varanda. Indeciso, esquivo dos seus pensamentos que o levavam de volta ao dia em que, casualmente, decidiu ir ver um primo, no outro lado da cidade.

Paulo, da sua voz, do computador, cantava flores de sodade pela cise nos rainha. Tal canção recorda que, naquele dia, há uns anos, em frente ao Cine África, apanhou chapa. Ligações. Mais a diante, a viu na paragem. Tal sereia de saia preta, blusa amarela, cabelo cheio, cacheado.

Naquele instante, sorriu, quando lhe veio a sua imagem a retirar os auriculares que reproduziam, provavelmente So What?, para ganhar fôlego. O rato que espreitou por trás daquelas chávenas sujas que ela escolheu na Loja das Louças, ali na Karl Marx, na vez que passou, a caminho de Xipamanine, se quer incomodou, como era habitual.

Desde que voltou de Paris, é naquelas três peças, pequenos potes, escritos, em cada uma, respectivamente, Coffe, Tea e Sugar, que a encontra. A brancura, que é a cor dos pequenos objectos quando serve um café, depois de um dia cheio de trabalho e nas manhãs para se inspirar, com tampinhas de madeira, conduzem-no ao seu radiante sorriso.

Soube, por amigos, a quem fez questão de perguntar, assim que desembarcou, que ela se casou. Desmoronou um sonho. Nem o impacto da Torre Eifel causaria tamanho estrondo no solo de uma cidade como aquela informação tombou na sua alma. Não se sabe como, inventou um ‘tá bem’ e fez-se a casa, na boleia de um amigo, que ouvia Munga lili.

O dia em que a conheceu, assim que a viu retirar, da bolsa, um papel e uma caneta, mais uma vez perdeu o fôlego. Não podia. Não era possível. Era inacessível a possibilidade daquela poesia ainda verter versos constituídos por verbo humano.

– Isso é poesia ou letra de música? – não tendo resistido, ele perguntou. Mote para conversa. Mal acreditou, quando, na paragem, ela cedeu-lhe o seu número de telefone.

A moda antiga, optaram por cartas. Foram várias as correspondências. Missiva soa feio para o que lá vinha escrito. Confidências. Um entrelaçar de almas. Coito. De olhos fechados, esqueceu da sua parceira de há anos para mergulhar no pedaço de mar que aquela sereia transportava para manter-se salgada e natural.

Voltou ao computador, na mesa de paletas, com a “Triste História de Barcolino” à espreita, reproduziu Cesária Évora. Selecionou “Regresso”. Acendeu um cigarro para fintar o frio que mais lhe floria a solidão que só serve mesmo para escrever.

Acidentalmente, foi para Where you come from, de Bino, como carinhosamente, ambos tratavam o guitarrista. Olhou para a carta receoso, mas os dentes espreitaram entre os lábios ao viajar para Kaya de Siquir, gosto partilhado.

Lágrimas lamberam seu rosto. Sugaram-no. Ela está casada. “Esquece as manhãs que ela bateu a porta e te agarrou num abraço”, uma voz interior chamou-lhe atenção.

Insistente, gritou: não mais haverá incursões à Galeria do Camões para ver o Vasco Manhiça que agora pandza o país, algures na sommarchield, em outras paredes tatuadas de poesia.

– Senhor, não haverá mais ocasiões para visitar a mostra do Zeca Craveirinha no Museu Nacioal de Artes e sentir, de súbito, suas mãos de menina acaricíando o teu pénis, pelo tecido das calças. Nem mais a verás naquele vestido preto que se ficou na promessa de a despires. O castelo ruiu. Não queiras dar uma de Nicolau Romanov – veio derradeira a consciência. Abandonou o computador. Desceu.

O vento abraçou-lhe, fez carícias, com as bolas a ferver. Ele queria vê-la fazer aquela última oração que Missa Pagã não teve competência de registar. São evangelhos guardados na bíblia da vida.

Um dos guardas aproximou-se. Ele retirou, do bolso da camisa, um esqueiro e dois cigarros, acendeu para o guarda e depois o seu. Contemplou a avenida da Resistência. Já estava em Maputo. Paris ficou para a França. Ela casou-se. Pegou no celular, introduziu os auriculares para ouvir a versão de Lee Ritenour de Você é Linda, que o apaixonou na voz de Caetano Veloso.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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