Nelson Mandela humanizou o inimigo

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A humanização do inimigo, sustentada, entre outros, pela cultura ubuntu, é um dos maiores legados de Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, cujo centenário do seu nascimento foi celebrado no dia 18.

José Castiano, filósofo moçambicano, foi quem defendeu essa tese, intervindo na mesa redonda sobre o tema “O espírito da reconciliação em Mandela”, que teve lugar na Biblioteca Central da Universidade Pedagógica, em Maputo.

IMG_7534Ladeado pela historiadora Alda Saúte, que reflectiu sobre “Reconciliação: Dimensão Histórica” e Óscar Monteiro que falou a respeito da “Reconciliação: Dimensão Política”, José Castiano – cuja apresentação centrou-se em torno da “Dimensão Ética” – defendeu que o respeito pelo outro enquanto ser humano foi uma das armas de Madiba.

“Ao torná-los apenas adversários políticos, Nelson Mandela humanizou a sua luta e a do partido Congresso Nacional Africano (ANC) contra as desigualdades impostas pelo apartheid”, disse o filósofo.

Desta forma, explicou, Mandela introduziu outra forma de estar na política africana ao desmoronar a ideia de que com o inimigo luta-se. A sua proposta foi o diálogo e a cultura de debate, de modo a chegar-se a um ponto comum.

Durante os 27 anos em que esteve preso, prosseguiu, Mandela dedicou-se ao estudo profundo da cultura dos seus oponentes, de modo a perceber as razões que sustentavam as suas crenças de superioridade racial e civilizacional.

Este exercício, segundo se percebe de José Castiano, permitiu Madiba, que até dominava a língua e a história dos afrikanders, conhecê-los melhor, o que, certamente, o colocava em vantagem nas negociações.

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José Castiano

“Nelson Mandela buscou a fonte da dignidade dos afrikanders”, situou. E explicou que depois de ter percebido que a via adoptada pelos outros países africanos – que já se tinham tornado independentes – de ruptura e expulsão de pessoas da nacionalidade dos colonizadores não tinha dado bons frutos.

Foi nesse contexto, continuou, provavelmente, que optou pela união e coabitação pacífica dos diversos grupos raciais e sociais que residem na vizinha África do Sul.

Por outro lado, José Castiano considerou que, a teologia da libertação, a questão da salvação e perdão, de base cristã, terão contribuído para que no final, ao invés da expulsão tivesse adoptado esta opção.

Um país multiétnico

NA sua intervenção, Óscar Monteiro, antigo ministro da Administração Estatal, afirmou que a África do Sul é, em resultado dos vários processos migratórios que foi assistindo ao longo da sua história, multiétnica, pois é constituída pelos nativos, descendentes de indianos, malaios, holandeses e gregos.

Tal situação gerou outras segregações, que não é só a dos brancos para com os negros. E mais, essa conjuntura deu lugar a identidades grupais que viviam cercadas nas suas próprias zonas.

Quando o regime do apartheid cedeu espaço para diálogo, “os holandeses já há muito estavam desligados do seu país de origem, assim como todos os outros que era difícil enviar-lhes de volta para lá”, disse Óscar Monteiro.

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Óscar Monteiro

É nesse contexto que se elogia a inteligência de Mandela que soube ler o meio em que estava envolvido e conduziu, de forma pacífica, a liberdade dos sul-africanos. “O ANC inaugura outra forma de nacionalismo: não combater raças”, anotou.

Os efeitos da Revolução de Outubro de 1917, na Rússia, que levou ao poder os Bolcheviques para instituírem a primeira república socialista do mundo, ainda se faziam sentir no mundo e a África do Sul não foi excepção.

Na explicação de Óscar Monteiro, aquele acto instalou um equilíbrio no mundo e abriu espaço para que ideias progressistas e comunistas pudessem ser integradas conjuntamente e criasse uma sociedade mais justa.

Mandela para lá da África do Sul

NA apresentação do tema “Reconciliação: Dimensão Histórica”, a académica Alda Saúte continuou com uma perspectiva histórica dos factos.

Na sua intervenção, afirmou que a figura de Nelson Mandela se confunde com a própria história daquele país, cujo significado extrapola as suas fronteiras, atingindo Moçambique em particular, a região austral de África e o resto do mundo.

IMG_7614Alda Saúte fez questão de referir-se à possibilidade de Madiba ter confidenciado com Eduardo Mondlane, o arquitecto do movimento que conduziu a libertação de Moçambique do jugo colonial (a Frente de Libertação de Moçambique) aquando da sua passagem por aquele país, para estudar.

“Há probabilidade de, em 1948, Mandela ter cruzado com Mondlane”, disse.

Acrescentou que a influência de Mandela e do seu movimento se alastrou ao país, igualmente, por via dos trabalhadores moçambicanos que, ao voltarem ao país, partilhavam com os seus irmãos o que estava a acontecer no outro lado da fronteira.

Até porque, referiu, houve moçambicanos que se filiaram ao ANC.

Destacou igualmente que, as suas acções foram para além do seu papel político e de defesa desse ideal de uma sociedade igualitária.

No fim da sua vida, Mandela desenvolveu acções de combate ao HIV/Sida e de apoio a crianças em situações desfavorecidas por razões de vária ordem. “O ideal, nos últimos dias, era uma África condigna”, concluiu Alda Saúte.

 

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