Outra narrativa da Ilha de Santiago

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Mayra Andrande apresentou-me a Ilha de Santiago. Num retrato poético, a sua música que baptizou com esse título é um convite a visitar esse pedaço do arquipélago de Cabo Verde. A sua voz que pinta cores coloridas, desenha diversas paisagens, cujos traços são feitos por pincéis nostálgicos. Há saudade na sua voz, embora (de facto) nem sempre triste.

Foi a partir do álbum “Lovely Difficult” (2013) que constituiu o núcleo duro do repertório da sua performance em Maputo, no palco Gil Vicente, do Festival Azgo 2014, que esta ilha invadiu o meu imaginário.

Eis que, em 2015, justamente daquele lugar me chegam ao ouvido, os meios-tons de Elida Almeida. Não se pode aqui falar de amor à primeira audição (sei que concordam!), mas foi um registo que ficou registado algures. Na altura, apresentava o seu álbum de estreia “Ora Doci Ora Margos”.

Veio a Maputo, não pude ver o concerto, embora a tenha cumprimentado uma tarde antes, na conferência de imprensa, no “Franco”.

Esta personagem, nascida em Cabo-Verde, ganha reputação, leva consigo o prestígio de ter sido descoberta pelo mesmo produtor que internacionalizou a Rainha dos pés descalços, Cesárea Évora, José Djô da Silva.

Mas em entrevista ao jornal lusitano “Público”, na cidade onde nasceu e cresceu, no interior pobre do seu país, onde se quer, pelo menos – como descreve a reportagem que traça o seu perfil – até 2014 havia energia eléctrica, disse que, a estrela mor do arquipélago não é a sua praia, que não é a que mais brilha no seu horizonte. A sua onda é outra. A navegação de Elida segue outro vento.

Embora a aprecie, o ritmo daquele seu lugar, onde aprendeu a ouvir música com rádio a pilhas, Tabanka, é que a envolve e é o que quer revolucionar.

Era uma noite fria de Maio, quando Mayra Andrade nos fez navegar nas margens dos universos que canta – o seu país. Uma noite para não esquecer. Uma personagem da narrativa que ela deixou a pairar voltou a Maputo, em Maio, para continuar a história.

Aos 25 anos, Elida nos leva à baila em “Djam Odja” (3:14), primeiro título do seu segundo álbum, “Kebrada”. A sua voz é um tecido leve que nos penetra. Passeando em meios-tons, a intérprete exibe uma maturidade e segurança surpreendentes. Entretanto, em entrevistas, confessou que em criança jamais se imaginou cantora.

O material sonoro que suporta a voz é uma extensão da dor que Elida Almeida deposita na música. A guitarra semi-acústica prolonga o seu discurso. Destacam-se desde esta peça um requintado trabalho na composição, como um todo, e nos arranjos – com realce para os instrumentos de corda.

“Kebrada” tem a intenção de nos mostrar o que pode estar por vir de Cabo-Verde neste contexto contemporâneo. Depois da Cesária Évora, o arquipélago, de vozes femininas, nos brindou com Lura, Nancy Vieira e Mayra Andrade que não recusavam a primeira como referência central para a sua arte.

Com Elida, conhecemos outra Ilha de Santiago, outro Cabo-Verde, que se expressa através de Tabanka, Batuko. E a jovem quer ser a voz da sua gente.

“Nha Rainha” (3:31), um dos temas mais calmos do álbum, são as lágrimas que jorram numa guitarra semi-acústica. Sem ser narcisista, esta música testemunha que se está diante de um trabalho autobiográfico, de um cidadão com um olhar crítico do status quo.

Há na tristeza que emana desta canção, a beleza da certeza de um dia não ser mais triste não – é mesmo o que nos diz um dos versos de Vinícios de Morais, em Samba de Bênção. O piano suave e preciso compõe o tecido sonoro, como que a confirmar a dor de que padece o sujeito poético.

A competência de chorar em Elida Almeida volta a evidenciar-se em “Forti dor”. É um espectáculo de teatro em que a secção rítmica ocupa um lugar figurante, de meros acompanhantes. Neste trabalho explora-se, sobretudo, elementos melódicos.

O roçar no violoncelo dá um ar ocidental e nisto se escancara a declaração de Elida Almeida de que busca incorporar outros elementos nos seus ritmos tradicionais.

Com ares folclóricos, de festa popular nos brinda “Bersu d’Oru” (3:47). Na faixa seguinte, “Grogu Kaba” (3:14) nos recorda que apesar das suas inovações não deixa de ser música tropical, que origina brisas das margens da Ilha de Santiago, vindas do oceano Atlântico.

“Kontam” (3:36), “Nlibra Di Bo” (3:17), “Sapatinha (Nha mininesa)” (3:43), “Nta Fasi Kusa” (2:35), são outras propostas que compõem “Kebrada”. Em “Ilia Mundu” (4:06) Elida Almeida explora outras possibilidades da sua voz, embora mantenha intacto o seu timbre peculiar.

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