À espera…

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Por Guilherme Roda

O Centro Cultural Universitário da UEM foi palco, no dia 05 de Julho de 2018, de “À espera de Godot”, espectáculo de Teatro apresentado por Castigo dos Santos e Fernando Macamo (contando como o exame final deste último), estudantes finalistas do Curso de Licenciatura em Teatro, ramo de Estudos Performativos, pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, num ambiente intimista e constrangedor, bem à moda de Beckett.

O texto que se segue não se trata de uma crítica ou algo do género, mas apenas um comentário, por isso mesmo não se ocupará em analisar o cenário, a representação ou qualquer outro elemento inerente a dramaturgia do espectáculo. O maior propósito aqui é o de partilhar a inquietação, sempre inevitável, quando se entra em contacto com o “Teatro do Absurdo”.

O que torna uma obra de Arte atemporal é sua capacidade de sobreviver a gerações e a limites geográficos. Em outras palavras, o  brio que contagia os Homens todos, porque o seu principal objecto é a condição humana. Problematizar a vida – esse emaranhado de lutas, obstáculos, derrotas, vitórias, tédio, angústia, alegria, causalidades, casualidades e uma data de coisas impossíveis de enumerar – é o grande segredo, a pedra filosofal nas mãos dos grandes génios da arte, Homens como o irlandês Samuel Beckett que nos meados do século passado nos legou com uma das mais fascinantes e arrepiantes peças de teatro, “À espera de Godot”

Com “À espera de Godot” que estreia em 1949, Beckett inaugura um tipo de Teatro que mais tarde ficou conhecido como o Teatro do Absurdo. O crítico inglês, Martin Esslin assim o apelidou por ser um género teatral que para além de romper de forma radical com os temas e com o realismo presente no Teatro Tradicional, procura reflectir sobre a condição do Homem no Pós-Segunda Guerra Mundial, falando especificamente da degradação desse mesmo Homem que se vê só e perdido na imensidão do vazio que ele próprio criou em si.

É justamente para esse cenário de escombros e desolação que nos leva a brilhante encenação de Angelina Chavango e actuação de Castigo dos Santos e Fernando Macamo, que no seu trabalho artístico final decidiram “atirar-se ao absurdo”, uso esta expressão como forma de explicitar e enaltecer a coragem, o talento e a sensibilidade desses dois jovens actores que no meio de tantos nomes e obras decidiram escolher Beckett e o seu “À espera de Godot” clássico do teatro contemporâneo, tal como sentencia Ryngaert em “Ler o Teatro Contemporâneo”.

É preciso que se tenha sexto sentido para se compreender ou se deixar penetrar pelo universo de Beckett, pois não é tarefa fácil desvendar o mistério do qual o autor se serve para retratar o Homem de forma tão profunda e arrebatadora.

Haverá maneira mais profunda de reflectir sobre a vida a não ser através dessa espera infinita que Beckett nos sugere? A vida não será uma espera, uma infindável espera por algo ou alguém que nunca chegará? Não seremos nós, Didi e Gogo, derrotados pelo tédio e pela angústia, mas mesmo assim esperando por um sinal, um milagre, uma saída? Até quando esperaremos que o nosso país seja mais sensível a Arte e a Cultura?

À estas questões juntam-se muitas outras e o debate, que devemos a nós mesmos, se prolonga. A realidade é uma noite habitada por pesadelos, por isso é preciso que cada um de nós carregue dentro de si uma lanterna ou simplesmente um fósforo, algo que produza luz e o Teatro é a melhor escolha, por acender-nos a consciência sempre.

A dada altura do espectáculo ouvimos: “enquanto esperamos porque não nos enforcamos?”, a plateia explode, entre gargalhadas e aplausos se esconde o terror, esse pavor que só o Teatro, a Arte, consegue acender dentro de nós. Quando nos vemos despidos e derrotados diante da ribalta em forma de personagens, se extingue a indiferença e o egoísmo, tomamos a humanidade como responsabilidade de cada um de nós tal como nos ensina Sartre, e, aí sim, nos damos conta do abismo que cavamos contra nós mesmos.

O Teatro é tão necessário neste país tal como o pão na boca das crianças que morrem de estômagos inchados pela má nutrição. Um país precisa de cidadãos com consciências acesas para vencer a fome e a miséria, esses monstros devoradores de esperanças, que perpetuam a nossa espera por um país mais livre, com mais oportunidades e mais justo. Por isso é urgente um Beckett que nos lembre o mais importante de todas as coisas, a não esperar. Pois não será “À espera de Godot” uma crítica ao conformismo, a ausência de engajamento e protagonismo que carateriza a nossa sociedade? Estamos sempre à espera que as coisas mudem, que algo aconteça, mas nada fazemos a não ser cruzar os braços e ficar à espera…

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