Ray Charles levou-me à Inhambane

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 Ao som de Ray Charles, “Georgia on my mind”, caminhando pela escura avenida Ahmed Sékou Touré, em Maputo, de noite, lembrei-me de Inhambane.

Me vieram à mente, do bolso da memória, imagens, retratos lá guardados: a marginal, a mafurreira ali ao lado da catedral. Me veio aquele edifício imponente – realmente deve ser obra divina, tamanha beleza. Sei lá eu se beleza tem tamanho.

Com riso no rosto, revivi as tardes inteiras que passei debaixo das águas do Índico. Aos pulos na prancha – os putos de hoje não terão esse privilégio porque uns fulanos decidiram que não!

Aqueles pulos não eram simples pulos, era mergulhar na felicidade, na liberdade que não nos era permitida pelos adultos. Coitados dos adultos. Coitados, pensam que o seguro é o certo.

Quando no coro Ray Charles cantava, com o suporte daquelas vozes femininas, “Georgia on my mind”, era “Inhambane na minha mente” que eu ouvia.

Meu conceito de saudade se edificou quando fiquei distante por um tempo. É nesse território que hoje vives. É nos fiapos, pequenos fragmentos da memória que te encontro. É na voz de um pianista cego que te vejo, te encontro para uma breve visita.

Engraçado sentir saudade do que já foi desagradável. A vida monótona da cidade é um tédio por mais de duas semanas. Porém, o seu encanto está na sua serenidade. Ela vive sem pressas de chegar – é tudo logo ali!

O grito dos pescadores todas as manhãs, em Chalambe, meu bairro, na rua que nasce no Matado(u)ro e desagua no mercado Giló, anunciando: “ndzandzi ni dzidrolo”. Aqueles berros eram insuportáveis, como qualquer despertador, e hoje tenho saudades. Até soa melódico. Os retratos da minha infância foram se abrindo em slide. Era uma exposição com direito a curadoria. Ah, saudade!

Esfolheando as páginas, me deparei com a bunda à espreita pelo calção roto do Quito. Ah, saudades do Quito, por onde anda este amigo?

Deparei-me com a página onde nós jogávamos chipuri, descamisados no campo do Ferroviário de Inhambane, atentos ao guarda, que a qualquer momento poderia aparecer para levar a bola e furar à nossa frente – nunca percebi tamanha perversidade com crianças -, pois era proibido jogar ali.

Esse acto de rebeldia, sem dúvida, foi uma das primeiras evidências de que, para nós, “as regras existem para não cumpri-las” – caso contrário, não há utopia.

Na página seguinte, mergulhou nos meus olhos a beleza desértica da praia da Barra. Aquela imensidão de beldade solitária, a conversa do vento consigo mesmo e o rugir das ondas ao quebrar-se na margem, de área branca, donde se arrastam, já sem força, de volta para aquele lençol azul ali estendido até cruzar-se com o céu, para lá do horizonte. Acho que a lua, de dia, repousa ali. E em troca, a praia, confidente de tal ocorrência, cobrou a sua brancura. Ou talvez a natureza, não resistindo a combinação da lua cheia com o céu azul, quis ensaiar ali suas habilidades de artista plástica.

O sossego das ruas e avenidas, de noite. Aquele cenário de filme de terror: dá a impressão de que a qualquer momento algo vai acontecer. De balde. Fora a tranquilidade, nada se atreve.

Saudade do sol do meio dia de Inhambane. Saudade de contemplar sua arquitetura, cheia de charme das antigas, em edifícios como a Gráfica Sul do Save – onde estacionávamos para costurar conversas -, o edifício do Conselho Municipal, da padaria Guimbororó.

Tenho saudades do zoré: o rebolar das cinturas das mamanas, seu jingado de baixo das capulanas que víamos na Praça dos Heróis, aos feriados.

“Georgia on my mind”, soando “Inhambane na minha mente” tem sabor da mathapa com coco, caranguejo, sitoghoma, camarão e ameijoa. Tem sabor de um trago de surra doce, às 8:00 da manhã, enquanto o sol se espreguiça.

lEONEL2
Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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