Um questionamento estético

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“A pessoa que escreve sobre a música acaba por falar da música tal como a sente”

David Rodrigues –

Estou de acordo que a escrita sobre a música afigura-se incompleta por que quanto mais clara pretende ser mais personsalizada se torna[1], mas é como, há dias escreveu Reinaldo Serrano, no “Expresso”, (cito de memória) “a música é uma das razões de estarmos vivos”.

Entretanto, vou-me aventurar pelo álbum conjunto de Moreira Chonguiça e Manu Dibango, intitulado “M & M”, lançado em 2016, no Cape Town Jazz Festival.

É um trabalho composto por 11 faixas que são a recriação de clássicos norte-americanos, que os cultores preferem chamar de standards e dois temas especiais: “Unga Hlupheki Nkata”, de Fany Mfumo e “Soul Makosa”, o eterno hit de Dibango.

Nesta incursão, ambos enveredam por uma (re)arquiteturização de músicas consideradas o ápice da criação jazzística. É como se, neste sentido, questionassem e problematizassem dogmas, pois incorporam a melodia-tema, uma estrutura instrumental indentificado como material da música afro.

A ousadia da dupla pode ser percebida a partir da introdução de “Unga Hlupheki Nkata”, um clássico da marrabenta num repertório dominado, essencialmente, por peças norte-americanas e pelo sucesso que internacionalizou Manu Dibango, “Soul Makosa”.

Fanny Mfumo é, sem dúvida, um dos maiores músicos que – parafraseando o radialista Orlando Mavie – respirou o primeiro ar mundano neste país. Dai tratar-se de um tributo merecido.

É um gesto de reconhecimento a nossa música urbana que Rui Laranjeira[2] afirma que a sua proliferação, em parte, deveu-se a consciência identitária dos africanos residentes nas periferias da então Lourenço Marques. Estamos aqui a referir-nos a Mafalala, Chamanculo e Munhuana, bairros de lata que faziam as periféricas cercanias entre a urbe e o subúrbio.

É incontestável que o dedilhar da guitarra do auto-intitulado “King da Marrabenta” concebeu composições e acordes que indicaram os rumos da marrabenta.

Unga Hlupheki Nkata” foi reconstruída trazendo um sample (puro até os 00:27’) da versão analógica, que é encaixada por um baixo que faz a cortesia até ao final. Sempre mantendo a melodia-tema.

Trata-se de uma incursão que teve o seu momento derradeiro no álbum “Khanimambo”, no qual figuras como Xidiminguana, com o tema “Ni Ta Muka Hi Kwini”, Wazimbo a interpretar “Mambatxy”, Chico António a consentir a recriação de “Tetego” (enérgica!).

Numa iniciativa que contou ainda com referências como Hortêncio Langa (Valava Lovolo), Chico da Conceição, na música que abre o trabalho discográfico disse: quero-te grande no país e no mundo, Moreira.

Desta feita, sobretudo, ao gravar ao lado de Manu Dibango, Moreira Chonguiça reivindica a atenção para os timoneiros da música moçambicana. Exige espaço nas grandes cidades culturais do mundo.

Imana no sopro do sax-tenor do autor de “Citizen of the World” (2009), neste duelo com o compositor de “Soul Makossa”, a brisa da praia do Tofo e Bazaruto…das nossas paisagens.

Nota-se em “M & M” a exploração de notas, que constituem novidade no vocabulário do saxofonista moçambicano. Até porque desde o álbum de estreia de Moreira Chonguiça, “The Moreira Project Vol 1 – The Journey” (2005), que andou relactivamente estático nesse quesito.

No álbum “M&M”, colaboração entre Moreira Chonguiça e Manu Dibango, há, essencialmente, uma revisitação e apropriação de standards do jazz norte-americano para recriá-los com linguagens estéticas do afro-jazz.

É, nesse sentido, uma compilação provocadora, pois levanta um questionamento estético a partir de títulos como “Night and day” (Cole Porter -1932), “Softly, as in morning sunrise” (Sigmund Romberg-1928), “In a sentimental mood” (Duke Ellington – 1935).

Repare-se que são temas que corporizam parte do repertório que envaidece a tradição estadunidense, considerado o ponto mais alto do jazz. Imprimindo outro um virtuosismo nada minimalista.

Em entrevista ao “Notícias”, a quando do lançamento em Maputo, Manu Dibango revelou que um dos motes deste trabalho é trazer “o barco de volta ao seu porto originário, África”.

Neste contexto podemos interpretar esta atitude como a reivindicação de uma herança que deve ser repatriada, uma vez que, como é sabido, o jazz nasce de escravos africanos que transportaram nos navios negreiros traços da sua cultura.

Portanto, ao retrabalhar a arquitectura de standards, com adição de compartimentos estéticos africanos, nos acordes e arranjos, pode se denotar um questionamento estético, à medida em que os clássicos são trazidos sob outra perspectiva.

Moreira Chonguiça e Manu Dibango vêm com uma proposta sustentada com outros argumentos fraseológicos que adicionam informações a este género hoje difícil de definir (os conservadores insistem que não é; os liberais dizem que pode ser, mas construída com os elementos de hoje, argumentando que nada é estático. O debate é longo e posicionamentos há que defendem que jazz não é o género, mas sim a forma de executar música).

Com arrojo, as músicas mantém parte da estrutura da melodia-tema, diferenciando-se, sobretudo nos acordes e no, digamos, sotaque. Em muitos casos dissolve com elementos eletrónicos a característica acústica do original de alguns temas.

Corporizam estas recriações, a introdução de precursão e de uma energia na harmonia que tende a transpirar o feeling de uma África animada que não se limita a música no seu carácter contemplativo, mas que apela ao movimento do corpo, em resposta aos estímulos da alma.

[1] David Rodrigues, Professor da Universiadade Técnicca de Lisboa e músico amador de jazz na síntese, intitulada Jazz e Multiculturalismo, da conferência proferida no Centro de Investigação e intervenção Pedagógica da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto em Junho de 1998

[2] Autor da obra Marrabenta sua Evolução e Esterilização, 1950-2002

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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