Totó ST: o músico d’alma

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Por Maria de Lurdes Cossa

A ansiedade é grande. As conversas fluem à viva voz. Do fundo do palco ressurge um homem, dir-se-ia escondido entre a ribalta de umas luzes que teimavam em colorir a noite que seria de fervura. Vestido de preto, a rigor, sobe ao palco para cumprimentar e dar boas-vindas ao público, que em massa afluiu ao Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM). Todos respondem, mas de forma ténue. Ele insiste… e ganha a resposta, desta vez mais eufórica. Com vida. Minutos depois, chama ao palco, o músico angolano, Toto ST. E depois foi o delírio de todos.

Entre assobios e aplausos do público, Totó ST subiu ao palco. Estava acompanhado de três jovens da sua banda. Eram Cris, baixista, Dílson, baterista, e Mário Gomes, guitarrista. E vestiam-se todos para matar. Branco foi a posta da noite.

Antes mesmo que cada um deles se posicionasse no devido lugar, já se ouviam vozes que gritavam de emoção. Queriam que o show começasse logo.

Com as cordas da guitarra afinadíssimas e a voz no ponto, Totó interpretou o primeiro som da noite, “Que fim de semana”. Um tema buscado do seu primeiro álbum, “Vida das Coisas”, lançado em 2006, bastante badalado.

Confira o video de Totó St

Numa interpretação de um pouco mais de cinco minutos, fez o público vibrar e fazer-lhe as devidas vénias. Garantia assim, que muito ainda estava por vir e que a noite só estava a começar.

O concerto era o primeiro do ano no Centro Cultural Franco-Moçambicano. Totó soube assumir a tarefa com seriedade e mostrou que não tinha sido escolhido ao acaso. Era a pessoa certa no lugar certo e na hora exacta.

A segunda música veio as 21:08 horas. Intitula-se “Saudades”. É igualmente do primeiro álbum. Neste tema o artista enaltece as brincadeira de infância e a felicidade que existe nelas. Para além de destacar quão serenas, despreocupas e alegres são as crianças, afinal, diferente dos adultos, elas não nutrem sentimentos de rancor, falta de amor ao próximo, muito menos o egoísmo.

Depois deste tema apresentou a sua equipa. E Mário Gomes, o mais novo da banda, aproveitou o momento para “passear” a classe. Dedilhou com a mestria a guitarra e não precisou pedir os vários aplausos e gritos do público.

FilhoDaLuz.pngMinutos depois Totó ST voltou ao micro. Desta vez trazia “Ame ndu ku sole” -meu amor. Nesta música, do álbum “Filho da Luz” lançado no final de 2014, o cantor angolano frisa o seu amor à amada em diferentes línguas.

Duas horas mais tarde, quando já tinha arrolado vários outros temas naquela noite especial, Totó ST foi buscar uma vez mais um hino: “Abra porta, Tânia!”. Não cantou sozinho. Teve ajuda de todos, afinal esta música é das mais amadas pela plateia que esteve no concerto.

Buscado do primeiro disco, a música retrata a história de um marido apaixonado, que por ironia de destino descobre, da pior forma, que sua amada e seu melhor amigo mantinham um relacionamento amoroso.

No final de duas horas e alguns minutos, o concerto era pura energia e alegria. Quando Totó ST interpretou a última música, o público, em coro, pediu: “mais, mais, mais… queremos mais”. Não resistiu e no encore brindou com mais duas músicas. Era o bónus.

Ao fim da interpretação dos dois temas estavam todos felizes e com o “espirito saciado”. A noite ficou na memória de quem já há muito não via o músico actuar no país.

 MÚSICO DE MÃO CHEIA

Depois do concerto ficou claro por quê Totó ST tem uma presença frequente em prestigiados festivais de jazz e world music. Ele não é de massas mas é um exímio intérprete com uma versatilidade e abordagem muito pessoal que funde afro jazz, funk, blues, soul, quilapanga (angolano) e R&B. Talvez por isso mantém a fidelidade dos que o admiram.

Para além do estilo peculiar, suas composições são de uma maturidade de lhe “tirar o chapéu”. E a semelhança de um bom livro literário convidam a uma viagem, onde cada leitor, ouvinte neste caso, cria seus próprios personagens.

Setlist do novo álbum, intitulado Filho da Luz

As qualidades que reúne fizeram com que não precisasse pedir que o público lhe batesse as palmas. Era tudo tão automático afinal de contas seu trabalho, por si só, foi suficiente para que todos o reconhecessem e notassem que ele canta com a alma.

A sua paixão e entrega, aliás, pela música é clara até porque já admitiu em uma entrevista a uma revista angolana que: “comecei a cantar muito cedo, nem sequer tive tempo para pensar noutra profissão que não fosse a de músico. A música é parte integrante do meu ser e tudo que sou e tudo que tenho é fruto desta, bela e profunda, profissão”.

23 ANOS DE ESTRADA, TRÊS DISCOS

aaaCantor, compositor, guitarrista e produtor musical, Toto ST iniciou a sua carreira aos 14 anos participando em trabalhos de artistas consagrados da música angolana como os Kalibradros, Genesis e Yanik Afro Men, Perola, Yola Araújo, Selda, Sandra Cordeiro.

Em 2015, partilhou o cartaz do Jazzing com Dianne Reeves, (a primeira Directora Criativa de Jazz da Los Angeles Philharmonic) e com a cantora nigeriana Nneka e foi o músico internacional convidado na primeira edição do São Tomé Music Awards. Toto ST é igualmente “co-mentor” no The Voice Angola 2015.

Ainda naquele ano, foi consagrado o Melhor Compositor” na 18ª edição do Festival da Canção de Luanda e nomeado em cinco categorias nos AMA – Angola Musica Awards, e vencedor na área de Afro Jazz / World Music.

Detentor de um disco de ouro atribuído pela MPO e do prémio para Melhor Compositor e Intérprete 2015 da Radio LAC (uma das mais prestigiadas distinções musicais em Angola) Toto ST apresentou nesse mesmo ano o álbum “Filho da Luz” que sucede a “Vida das Coisas”, 2006 e “Batata Quente” 2009.

Totó ST, Serpião Tomás, nome de registo, nasceu em 1980, em Luanda. Aos 8 anos escreveu a sua primeira letra para uma canção e começou a entoar melodias angolanas, brasileiras, norte- americanas e  de outras raízes africanas.

Incursões do angolano pelo Blues

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