Álvaro Taruma: “TENHO MUITO MEDO DE ESCREVER MAUS POEMAS”

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Por Elton Pila
Dois anos depois da estreia em livro próprio, Álvaro Taruma tem um novo projecto literário. Não adianta o título, mas diz-nos que há-de ser sobre gritos e silêncios, numa conversa que nos falou do livro e do projecto de poeta que quer ser.
ALVARO TARUMA


Começou por publicar de forma dispersa textos em revistas e jornais. Volvidos aguns anos, lançou “Para Uma Cartografia da Noite” (Literatas, 2016). Um livro de prosa-poética, mas também com alguns textos que nos remetem à crónica, no qual se mostra, para o leitor, um poeta inconformado em relação ao estado das coisas.
Com o primeiro livro, Taruma se impôs na nova safra dos poetas moçambicanos. A fórmula deu certo. Mas não a quis repetir nesse livro por sair, ainda este ano. “A minha intenção não era repetir a fórmula do primeiro livro. Há pessoas que por descobrirem o caminho ficam na mesmice”, aponta.
A ideia era alçar novos voos, trazer outro tom, outra voz, afinal, diz-nos o poeta, cresceu e por isso tem outra sensibilidade. E por isso o livro que vai sair tem voz própria. ”Acho que o livro conseguiu ser fiel a si mesmo. É autónomo. Deve nada ao primeiro.”
Há-de ser, conta o poeta, um livro de prosa-poética como o primeiro, mas mais curta, sem lamechices. O poeta afiança que se esforçou para ter textos mais limpos e mais objectivos, sem o exagero que estava escondido na inocência do primeiro livro.
Quer Taruma que seja uma obra para selar o seu cometimento com a poesia, a boa poesia. Esta é a trilha que anima o projecto de poeta que quer ele ser: “Tenho a ambição de ser um poeta notável. Publicar só por publicar nunca foi minha intenção. Tenho muito medo de escrever maus poemas”, revela-nos.
Talvez por isso, não quer que sua poesia seja somente de embalo ou entretenimento, quer uma poesia que leva dentro um grito de revolta, não só do poeta, mas também do povo do qual o poeta é parte. Este por sair, é um livro contaminado pelos acontecimentos que têm estado a marcar o país (e o mundo). “O nosso campo territorial, quer a nível político, social, económico e cultural, propicia muito a criação”. Estas experiências pejam as linhas dos textos, mas, adverte o poeta, não de forma escancarada, é de forma poética, metáforizada.
TARUMA
Entre a oficina e a espontaneidade
Taruma entrou para o projecto do novo livro já com a ideia de oficina, do que queria que o livro fosse. Queria, como já revelamos, sair da forma de escrita do primeiro livro, da palavra plástica. “Queria trazer as coisas de uma forma mais canibal, mais de carne, mais de sangue, aquela palavra que sai, não da luz, mas das trevas”.
No entanto, a meio do caminho, a ideia de oficina entrou em conflito contra a naturalidade com que as palavras lhe chegavam. O ímpeto e a espontaneidade sugeriram outras formas de escrever. Foi a estes poemas que o poeta deu primazia. “Sou um poeta que gosta da ideia do espontâneo, da inocência da poesia”, assume, mas não abraça a ideia do poema só pela poesia, pensa também no impacto dos textos. “O texto tem de justificar certo momento, tem de trazer algo de novo, não apenas no sentido de beleza, mas também no sentido de voz”.  Nisto escreve sobre a frustração de um país que está a andar a meio-gás. “Muitas vezes aquilo que escrevo para reclamar dos meus estados de alma, também serve para reclamar aquilo que é o país como um todo, enquanto um campo de clivagens políticas, éticas e culturais”.
Neste sentido, Taruma quer e preza ser um poeta actual, focado no seu tempo. Para ele o poeta é uma espécie de antena receptora que capta o mundo sob diferentes prismas. Por isso – voz do poeta – não escreve para empurrar os leitores à ilusão, ao esquecimento. “Quero uma literatura que tenha uma mensagem, que a mensagem seja ‘mudemos’. Não estou a aludir as grandes revoluções, mas temos de mudar, ainda que seja à plano pessoal para que possamos mudar a sociedade”.
 
Publicado originalmente na página cultural do Jornal Zambeze na Edição de 18 de Janeiro de 2018

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