Heróis do quotidiano

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(Em colaboração com Hélio Nguane)

O SOL todos os dias amanhece nas costas de dona Júlia, enquanto ela arruma a sua banca de verduras numa das avenidas da cidade.

Muito cedo, a senhora vai à zona baixa para regar e colher alface, couve, salsa e cebola, que depois leva para venda. De lenço na cabeça, camisete publicitária de uma empresa falida, há anos, de cor já desbotada e capulana nas ancas, já quase sem forças, senta-se a dona Júlia.

As repentinas alterações de temperatura ensinaram-na que deve sempre ter uma sombra para si, por isso improvisou, com sacos de arroz e restos de madeira, uma pequena tenda.

Mauro, seu filho mais velho, quando mais novo, sempre passou por ali depois da escola, para receber instruções sobre as tarefas domésticas. Ela só teve rapazes, quatro, e por situações da vida, o marido, pai das crianças, abandonou o lar para se juntar a outra mulher. Para agravar, quando ele perdeu a vida, a família dele expulsou-a, com os seus filhos, alegadamente por vontade do falecido.

Mauro, que já era meio grandinho, 14 anos de idade, assistiu a isso tudo sem nada poder fazer, embora percebesse o que estava a acontecer. A partir dessa data teve que amadurecer e ajudar a cuidar dos seus irmãos.

A vida deu-lhe lições, que com facilidade assimilou. Quando terminou a 12ª classe não comemorou, apenas prometeu à dona Júlia que estava pronto para trazer o canudo à casa. Cumpridor de promessas, no dia da graduação redigiu um discurso para agradecer à mãe.

Hoje já trabalha, está estável na vida. Do passado, recorda com um sorriso nos lábios, porque aprendeu a vencer as mágoas e o perdão é uma palavra que habita no seu vocabulário, e é usada quando necessário.

No entanto, há dias que vêm memórias que trazem lágrimas, que aos poucos jorram e dão outro relevo ao seu rosto. O discurso de graduação, guardado na secretária, tem palavras que espevitam o passado e mostram o caminho percorrido.

“Minha heroína é anonima”, inicia o discurso. “Não conhece a palavra desistir, desamimar. Devo tudo a ela. Ela lutou para construir a minha pátria de sonhos. Esta república é democrática e sabe fazer eleição das melhores condutas”, prossegue, entre soluços.

Depois de ler o discurso, Mauro ganha uma certeza: em nossas vidas temos um herói e uma heroína, que nos ensina a ser os heróis do amanhã.

 

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Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

 

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