Contemplações

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Tudo parte do imaginar, idealizar, querer, desejar, perspectivar, olhar contemplar. A maioria das coisas que temos, primeiro vimos, olhamos, tocamos, acompanhamos, até chegarmos a fase de adquirirmos. Hoje inicia uma nova fase, etapa, meta, objectivos, viagem e qualquer coisa que quisermos mencionar no mundo da escrita.

Fomos pensados (ou então, o ideal era que tivéssemos sido pensados). Depois passamos de simples ideias para nos tornarmos realidade. A nossa ideia, hoje, é fazer pensar, através da escrita que reflete a realidade, a ficção, o conto, a crónica e todos os géneros literários, todas as questões que perfazem a nossa arte, em primeiro lugar, o jornalismo e a nossa sociedade, em última instância.

As correrias da vida, da profissão, do mundo, dos desejos, das frustrações, dos amores, das traições, das confusões, dos vulneráveis, dos intocáveis, dos sensíveis, dos que não ligam para os sentimentos, dos que trabalham odiando o que fazem, dos que nada fazem e odeiam esse estágio da vida, dos que não se mexem e não se deixam mexer, são algumas das nossas motivações que nos fazem pensar e querer fazer reflectir sobre nós mesmos.

 São as nossas acções e, também, o que somos hoje, que deve determinar se nos consideramos uma sociedade sã, de pessoas idóneas, de pessoas com identidade, com raízes. Através da escrita, é possível procurarmos contemplar e perspectivar o que nos espera amanhã, ou depois de alguns minutos quando terminarmos de ler este texto, ou uma semana, anos, séculos, até que o infinito nos torne finitos. A vida começa a acabar depois que nascemos, estamos em constante aproximação com a morte a cada dia que passa, dizia um filósofo da idade Média.

Falando em sociedade, contemplações gosta tanto de bisbilhotar e de estar em sítios, eventos ou acontecimentos que fazem da nossa sociedade ser o que é. Há dias, estava na companhia de um amigo de longa data e estávamos a zanzar por aí, contemplando a cidade acácias tão bela e tranquila, ao mesmo tempo a procurarmos um sítio para nos acomodarmos e desenhar alguns projectos por concretizar neste novo ano que acaba de iniciar.

E, como os espaços com sombra são escassos nesta cidade, decidimos nos direcionar às escadas do edifício do Município de Maputo. Podíamos ter ido a um restaurante qualquer, ou uma pastelaria, para degustar de um bom naco, afinal de contas, era meio-dia e o estômago estava já a roncar, reclamando qualquer objecto que o pudesse suportar. Mas não, não podíamos. Por essas alturas do ano, os bolsos andam rotos e não podemos nos atrever a tais atitudes.

Mas, voltando ao assunto, dizia que colocamos nossos esqueletos ali. Conversa vai, conversa vem e começamos a desenhar nossos planos, tal e qual algumas pessoas que estavam noutros cantos daquelas escadas, trocando conversa. Volvidos 10 minutos, apareceu um casal, por sinal, dum moçambicano e uma brasileira.

Com aquele ar de turistas, tiraram a sua máquina fotográfica para registrar o momento e, claro, aproveitar a bela arquitetura que é o edifício do Município, mas também, a estátua do saudoso Samora Machel, que se encontra ali na praça 25 de Junho.

Não tardou que o diabo aparecesse para acabar com a alegria de todos que ali se encontravam. Trajava uniforme da Polícia Municipal e, no seu íntimo, carregava aquele ar de superioridade que quase que todos os agentes de todos os ramos de segurança neste país têm.

Sem muitas manobras, olhou-nos com desdém e ordenou que saíssemos do local. Motivos? É proibido colocar as bundas nas escadas do nobre Município, porque, alegadamente, ver-se citadinos a conversar e bem sentados num dos locais mais belos da cidade desprestigia a autarquia e Maputo é, efectivamente, uma cidade prestigiante.

Mas, o mais agravante foi quando se dirigiu ao casal. Olhou para a máquina fotográfica, sorriu e bateu as suas botas de Tenente da Policia Municipal. Ajeitou o seu cabelo, extensões, e ordenou que o casal parasse de tirar fotos. Disse que na cidade de Maputo, concretamente, naquele local, para se tirar fotografias é preciso, antes, ter uma autorização das autoridades, porque, alegadamente, quem o fizer sem, corre o risco de perder o material e, para piorar, usar os dólares mínguas que trazem dos seus países para pagar multas.

Para um país que pretende se firmar na área do turismo, começamos a questionarmo-nos: que imagem do país aquele casal vai levar para a terra do samba? Certamente que, se se pretende que os turistas avisem ao Concelho Municipal quando quiserem tirar fotos, então, por essas bandas, imaginamos que deve ser obrigatório portar consigo Bilhete de Identidade, cédula de nascimento, certidão de narrativa completa, carta de condução, Passaporte, certidão de óbito, documentos dos seus pais, dos seus vizinhos, dos seus familiares, uma acta explicando porque escolheram Maputo como destino turístico var e uma carta dirigida ao presidente da República, com assinatura do papa, para variar. Porque, se é necessário ter autorização para tirar fotos, imagina sair à praia, ir ao cinema, passear, ir para comer estrogonofe com leite, deve ser difícil de carregar toda a documentação na pasta.

Só não sabemos se há tanta Polícia Municipal para dar conta a tantos turistas e moçambicanos que, sobretudo aos fins de semana, se fazem àquele local para tirar fotos. Se não houver, talvez será necessário pedir reforços à Polícia Municipal da Matola, Polícia de Protecção Civil, os Guarda fronteiriços, os Alfândegas, a Polícia Costeira, a Polícia de Trânsito, Forças Especiais, Polícia Florestal, FBI, guarda do Presidente da República, Polícia Comunitária e, quiçá, Generais na Reserva. Haja paciência. Que contemplações!

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