Cenas à tarde animam. Realmente.

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De chinelos ou de sapatilhas. De camisetas ou de camisas. De calças ou de calções. De bonés ou de óculos. Foram entrando às gotas os personagens, ainda que secundários, da história que teve lugar no sábado último, no Centenário. Mas o personagem principal já estava lá há muito tempo, ou melhor, desde que o tempo existe. Com um charme singular e uma leveza de espírito, o mar abriu as portas e o seu perfume tranquilizante acomodou os visitantes. Esses não a usurparam o espaço, apenas conviveram com ele das 14h00 à meia-noite.
E Kloro, quem juntamente com a banda fez a parte principal da trama, que papel carrega nesta história? Um pretexto para que o enredo existisse. Pretexto? Só? Sim (respondo). Ao se olhar para a palavra, longe de todas as suas semânticas, parece oca. Três sílabas apenas. Mas não. O pretexto é que faz com que tudo aconteça. Há sempre uma razão. Um motivo. Uma justificativa. Kloro não passa dessa razão que fez com que homens e mulheres, jovens na sua maioria, dedicassem uma tarde para contemplar o mar ao ritmo do hip-hop e ao sabor da Jameson.
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É a primeira vez que o hip-hop se conecta com a Jameson. Para os que estavam ali, banhados pelo calor que roçava os 34 graus, o matrimónio era perfeito. Foi uma tarde que nos sugeriu dois novos paradigmas: é possível “curtir” à luz do dia e é possível tomar whisky a ouvir hip-hop. Mais do que o ritmo e a bebida, a conexão foi de pessoas. Dispersos, trocando conversa e risadas, confirmavam esta tese. Mais do que se deliciar da boa música e da perfeita temperatura, o público criou uma nova forma de estar sem as algemas da noite.
 
Ainda que muitos temessem atravessar a entrada do Centenário logo às primeiras horas do evento, não deixaram que o claro se escapulisse antes de lá estar. E viu-se como é elegante enchergar-se uns aos outros sem o socorro dos holofotes da noite. E não foi um público minúsculo. O espaço estava lotado, não permitindo até grandes excursões. Nem era preciso, o que importava é que a mente se movimentasse no compasso das músicas que a experiência do Dj Beat Keepa deixava escorregar. Esse era o “welcome” que todos precisavam, cruzando as múltiplas atmosferas do RAP, como que a fazer recordar de que escola pertence e que segredos guarda sobre o ritmo, partilhando “o outro lado da moeda” ao explorar sonoridades transversais.
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Estava feita a primeira intervenção no Jameson Connects, iniciativa que deixou o Centenário irreconhecível. A marginal já estava inclusa na festa. O público já se tinha composto. Gente bonita, famosa e de bom gosto foi convidada a aproximar mais ao palco, pois o momento que se seguia não era só de escuta, também importava visualizar a voz do narrador: Azagaia. O músico (mais do que rapper) não trazia nem calções nem sapatilhas. O que tinha a dizer “descombinava” com as vestes da maioria. A temperatura e o espaço que o perdoassem, era mais importante vestir-se de operário do que turista. Pelo menos não foi militar. Menos mal.
 
Não houve “Duditos Way”, pelo facto de Duas Caras ainda respirar ares de Agualusa e Pepetela. Houve desculpas por isso. Não sei se a produção foi perdoada, mas Azagaia trouxe uma “positividade” tal que suplantou a ausência de Kara Boss. A perfomance de Azagaia, não muito distante do que já se sabe, fez com que os meninos da cidade (à mistura com os do gueto), pegassem a cabeça, baixassem a cabeça, dobrassem a cabeça e, acredito eu, não faltou vontade de o quebrarem a cabeça. É que, de certa forma, a mensagem era para eles, senão para os seus pais, tios ou avós. Mais do que consciencializar os jovens, Azagaia dirigia-se à classe média-alta da nossa sociedade, denunciando seus pecados, cuja última música os apelidou (os pecados) de vampirismo. Ainda que caminhasse no território deles (zona da Marginal), o jovem despido de qualquer pudor recitava versos sine metu, ou melhor, sem medo.  
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Como se se protegesse de algum projéctil, Kloro subiu ao palco com um lenço branco na garganta, uma camiseta branca e calções sei lá de que cor. Proteger nada. Um estilo apenas. A banda já estava posicionada e a introduzir a “música da sociedade”. Os instrumentistas também estavam leves: bonés, camisetas e calções. Mais do que vestes, tinham disposição e muito bom astral. Não se notou apenas no semblante, mas também na performance de cada um.
 
Quem ajudou para que, ano passado, o Franco enchesse viu claramente a reedição. Fora o espaço nada foi diferente. Minto. Ainda que as músicas tenham sido as mesmas (excepto duas), o vibe do Centenário foi melhor. Por ser um local mais intimista e sem assentos. Ademais, Kloro apresentou-se com mais precisão na voz, fazendo com que muitas palavras não caíssem mar adentro, e tendo o controlo quase que absoluto da banda.
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“Sine Metu” é o conceito da prestação de Kloro. Ao mesmo tempo usado pela Jameson. Da “música da Sociedade” à “Já não posso esperar” muita coisa aconteceu. Foi uma viagem sem volta no navio da sua música. Com oscilações, ora para o jazz ora para o reggae ora para o r&b, o RAP de Kloro agitou a rica plateia e o mar. Antes de aterrar nos ouvidos, o som ia dar uma volta ao alto-mar. Som salgado. Não há melhor refeição. Os peixes devem ter morrido de inveja.
 
Cada um em “conexão” com o seu “par ideal” e “sem medo” elevou a sua “imaginação” e disse para si próprio “não posso esperar” tenho de ter a “família em primeiro” se não fico “Claramente puto” ou mutilam-se os “sonhos” tal como na “Síria”. Sim, Kloro cantou as músicas para a sociedade. Exodus, Sodoma, Elfas, Roley e outros equiparam este barco que claramente chegou a um bom porto. Mesmo o freestyle de Hélder Leonel, a fechar com chave de ouro, teve uma dose de satisfação. Gritos e aplausos confirmam.
 
Nos instantes finais, já aberto para o que se assumiu como discoteca, Dj Faya e Supaman mostraram que os seus sets de hip-hop estão vivos e gozam de boa saúde. O primeiro fez uma ronda ao hip-hop moçambicano, concentrando-se mais na Trio Fam e seus amigos. Ou seja, foi um momento para os presentes se escutarem. Lembro-me de Teknik ter ido cumprimentá-lo ao ouvir a sua música e de uns tantos fazer uma selfie com Slim Nigga por ali estar a tocar nas mãos do Faya. Parece que John Jameson (e os seus filhos), em algum momento, rebelou-se lá do além contra a redundância do dj e o som parou misteriosamente. Quando tudo resolvido, Faya não se fez de rogado, continuou com o seu trilho, desafiando os espíritos do senhor Jameson (o criador da bebida). Como se não bastasse, repetiu algumas músicas.
 
Supaman, o segundo, fez um périplo pelo mundo e, ousado, misturou o hip-hop com outras substâncias. Já estávamos no meio da noite. Os contornos desses últimos instantes não cabem nesta explanação. Ainda assim, muito se fez à luz do dia. E provou-se que cenas à tarde… animam.


1 COMENTÁRIO

  1. texto que poderia ter sido melhor se tivessem mencionado também os músicos da banda que acompanhou o Kloro…sem a música (parte importante do evento) teria sido tudo diferente, enfim…

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