Chega de se escrever sobre chuvas na baixa de Maputo

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SE a sabedoria africana tem na chuva uma bênção, a baixa da cidade de Maputo nega-se a encará-la como tal. A olhar para os seus efeitos nesta zona, está mais para maldição.

Sempre que há precipitação, invariavelmente, precipita-se a paragem de tudo: é o comércio, é a circulação de pessoas e bens…entre tantos outros inconvenientes, pelo facto de as ruas estarem alagadas, ultrapassando, no mínimo, as canelas do transeunte peão e chegando a meio das portas das viaturas.

Observando o percurso destas águas, percebe-se que escorrem do alto da cidade para se aglomerar nas avenidas e ruas que circunscrevem o perímetro da baixa de Maputo. O que manifesta, há já vários e longos anos, um sistema de esgoto deficiente (para não assumirmos, inexistente ou falido).

Sendo um problema já antigo e regular, espanta-nos ainda não termos visto nenhum movimento no sentido de contrariar estas intempéries, se não passeios partidos à esquerda e à direita e nada de mais.

Fica-se com a impressão de que o alarido das preocupações dos munícipes e cidadãos, que se fazem à capital do país (que pelo o que dizem os viajantes, uma das mais bonitas da região), reproduzidas e ampliadas pelos órgãos de comunicação social, em matérias que, sistematicamente, ostentam o mesmo título, que é: “Chuva torna baixa intransitável”, parece ser deliberadamente ignorado pelas autoridades municipais.

É preciso referir que se trata da falência de um sistema de esgoto já existente há muito tempo. É uma rede construída na altura da antiga Lourenço Marques, ou seja, as autoridades municipais herdaram e cabia-lhes apenas fazer a manutenção e inevitáveis ampliações, uma vez que a cidade está em crescimento.

O presente “Tema de Fundo” ocupa-se deste assunto, porque estamos no verão, época chuvosa, e, como qualquer cidadão de Maputo, estamos cientes que teremos, mais uma vez, de assistir a estes lamentáveis episódios.

A baixa da cidade, na verdade, acaba sendo apenas uma ilustração do que acontece um pouco por toda a capital do país.

Por exemplo, a zona da Malhangalene, na avenida homónima, é apenas mais um exemplo do que ocorre na urbe, quando chove.

Introduzindo-se para os subúrbios, a situação torna-se ainda mais penosa. O caos atinge níveis elevados de indigência, com as águas a invadir o interior das casas de pessoas humildes, que acabam perdendo o “tudo”, que já era “quase nada”, conseguido com muito sacrifício, em meio a tanta pobreza.

Ainda nos outrora chamados “bairros de lata”, nota-se, percorrendo algumas das suas principais artérias, vestígios de já ter existido asfalto e, nalguns casos, até valas de drenagem. Mais uma vez falhou-se na manutenção e o resultado é o que vemos.

Obviamente que, tanto na baixa, como no subúrbio, o comportamento do munícipe é pouco abonatório ao, sem o mínimo de remorso e hesitação, atirar embalagens de tudo o que consome e mais alguma coisa pelas ruas e passeios. Chega a causar espanto até, um indivíduo que, no semáforo – como em qualquer outro lugar – baixa o vidro da viatura para exibir o seu braço a depositar no lado de fora o que quer que seja.

Nessas atitudes, não sabemos se propositadamente – atendendo e considerando que é comum ouvir comentários abonatórios em relação a cidades limpas e organizadas por parte dos residentes – ou se por ignorância – nem todos experimentaram outros ares. Mas de qualquer forma há evidências de que a educação está a falhar, uma vez que era suposto todos saberem que esse lixo acaba entupindo as valas de drenagem.

Entretanto, levando em consideração que as autoridades nada fazem (pelo menos visível e palpável) para manter as valas limpas, a elas endereçamos o mais elevado apelo para que não voltemos a tratar deste assunto em modos de reivindicação. Confessamos, este é o assunto sobre o qual não gostaríamos de voltar a escrever.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

 

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