Uma noite em que o jazz exibiu vigor

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Fotos de Isaías Sitoe

O QUARTETO norte-americano Camille Thurman & The Darrell Green Trio que esteve em Maputo a convite da Embaixada dos Estados Unidos em parceria com Moreira Chonguiça exibiu vigor de há dias, na Sala Nobre do edifício do Conselho Municipal da Cidade de Maputo. A More Jazz Big Band abriu o concerto.

Uma More Jazz Big Band em que a secção de sopro constitui a esmagadora maioria, comportando saxofone (tenor e alto), trompete e clarinete. Havia ainda uma bateria e dois teclados, um dos quais conduzidos por Moreira Chonguiça (recordando, desta feita, a entrevista a revista Indico, em que afirmou ser “um pianista frustrado”).

Foi com “Equinox”, tema de um dos mais celebrados saxofonista norte-americano, John Coltrane (1926 — 1967. Saxofonista do eterno “So What” de Miles Davis:1926 – 1991) que a Big Band abriu o concerto na Sala Nobre do Conselho Municipal de Maputo, deixando de lado o estilo “Avant-garde do seu autor, para uma direcção do “Smooth Jazz”.

Na sequência – como vem se tornando hábito do etnomusicólogo moçambicano no mesmo repertório mesclar standards americanos com os clássicos nacionais – os adolescentes interpretaram “Xitimela”, de um dos mais charmosos músicos da marrabenta e detentor de uma elegante voz, João Cabaço (1951 – 2016). A música foi revestida por uma linguagem jazz, em que se evidenciava alguma bossa nova, sobretudo na bateria. Porém obedecia alguns traços melódicos da versão original.

O repertório de standards nã esgotava, de tal forma que ainda houve a vez do eterno saxofonista e compositor norte-americano, Charlie Parker (1920 — 1955) e a despedida foi com “Hit The Road Jack”, do pianista, igualmente dos states, Ray Charles (1930 – 2004). A sua saída, em pé, a plateia aplaudia a performance dos pupilos de Moreira Chonguiça.
 

Depois de algum tempo de intervalo, em que a ansiedade ia consumindo aos presentes, enquanto no fundo reproduzia-se faixas do M&M, parceria do saxofonista moçambicano como o “Leão de África”, como é chamado Mano Dibango, o quarteto Camille Thurman & The Darrell Green Trio fez-se ao palco.

Camille Thurman abriu a voz com um scat singing (técnica de improvisação vocal que consiste no uso de sílabas sem sentido, numa linha melódica), justificando desta feita as associações que nos Estados Unidos faz-se dela a nomes como Ella Fitzgerald (1917 — 1996) e Betty Carter (1929 – 1998).

2.JPGEnquanto isso, os pratos da bateria de Darrell Green preenchiam a sala com a sonância da sua sonoridade metálica, que era encaixada pelos piano e baixo intensos. Era o tema “Madam Voyage”.

De uma geração que possui valores virtuosíssimos como Jazzmeia Horn, Gregory Porter, Kamasi Whashington, ela transporta valores do jazz de vanguarda, sem, no entanto fechar-se para absorver as novas incorporações que o estilo foi ganhando ao longo dos anos.

O trio que a acompanha, The Darrell Green Trio, segue aos padrões instituídos por lendas como Bill Evans, por exemplo, ao circunscrever-se ao contra-baixo, piano e bateria. A partir da segunda faixa, “How High The Moon”, a vocalista, que, igualmente é saxofonista, ia permitindo que cada integrante se esgrimisse no tema, ao abrir espaços para prolongados “soul”.

3.JPGAssim foi em “Our Day”, “Love Vibration”, nos quais o contrabaixo, que intercalava o tradicional (donde emanam sonoridades mais puras) com o moderno baixo (eléctrico), dedilhando as cordas, exibindo o seu recheado vocabulário.

O pianista idem, era fervor. Igualmente a intercalar o piano com o teclado. E Camille Thurman liderava.

Quando ela segurou no saxofone, já a plateia estava rendida, acompanhando o concerto em silêncio, com algumas pausas em que aplaudia ou ria-se das trapalhices do tradutor da intérprete, que aparentemente por nervosismo foi cometendo gafe atrás de gafe.

Forever is a long time”, “Nobody Knows”, foram outros temas que fizeram o repertório da noite de sábado. Pouco antes do encore (a música que se interpreta depois da despedida dos músicos), Darrell Green pareceu possuído pela música, foi como se tivesse transcendido a matéria, estivesse noutro universo, enquanto entregava tudo a bateria que inundou a sal com vigor. E estava feito o concerto.

 

Publicado no jornal Notícias na edição de 15/01/18

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