KWIRI: a pluralidade de Roberto Chitsondzo

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MOÇAMBIQUE é este imaginário que, como nação, nasce um pouco depois da metade do século XX. Brotar a meio é já um atraso, a caravana já caminha à sua velocidade, mas a vontade de encontrar um caminho alternativo desmorona toda e qualquer adversidade.

O livro-disco “Kwiri: Roberto Chitsondzo” é isso, uma narrativa que nos cultiva e rega-nos de esperança. Anima a sinceridade permitida a Cremildo Bahule, redactor e editor do livro, de retratar um indivíduo que não passa de mero mortal, sujeito a erros, tal qual este país com 42 anos de independência.

Encontramos no percurso de Roberto Chitsondzo, transcrito na sua biografia, um herói, cuja música sempre foi a luz acesa que o guiou. É comum assumir-se que diferente da razão, mais dada à prática e guiada para questões palpáveis, a arte é encarada como um mero exercício – e espaço – de contemplação. Um lugar apenas para alimentar a alma (Ser). Sabendo-se sempre que alimentação é uma necessidade biológica, da qual também o Ser não abdica.

Buscando o folclore para a música, o guitarrista da semi-acústica e vocalista principal da banda Ghorwane conta-nos histórias de nós mesmos, que nascem do seu “eu”, da sua forma de conceber o mundo. Claro, que nesta afirmação, não ignoramos, parafraseando o poeta português Fernando Pessoa, que o artista é um fingidor, entretanto, podemos assumir que Chitsondzo nos leva a descortinar outros imaginários.

O tecido sonoro que cobre a música do álbum – agora independente da banda Ghorwane – é meio acústico, no qual se evidencia a textura da viola e de todos os outros elementos que constroem este trabalho composto por 14 faixas.

As composições são lugar-comum de metáforas e ironias que só nas línguas autóctones carregam o seu significado literal. (Canta em Ronga, Changana e Português). Quando dizemos que a língua é a residência de uma cultura, é na certeza de que há compartimentos que só naquele edifício fazem sentido, num outro contexto, são vazios de significado.

Kwiri”, música que dá título ao álbum, é uma das músicas que podem atestar este universo de metáforas. “Kwiri”, cuja tradução para português seria ventre (barriga) comparado almofariz (pilão), que é um triturador manual, que recebe e trata de vários ingredientes, que, entretanto, invariavelmente, são de sabores diferentes. O mesmo poderia dizer-se de uma mãe, que como diz a sabedoria popular, “mãe não faz coração”, querendo justificar o facto de, do mesmo ventre, saírem indivíduos com diferenças abismais umas das outras.

O “narrador” explora o quotidiano recorrendo ao realismo fantástico em composições que cumprem com a função social da música, que, como refere Pedro Júnior1, passam por múltiplas actividades, rituais, expressões artísticas e emocionais, e permite que os homens se identifiquem como indivíduos e como seres sociais, de um determinado grupo.

Sendo que o músico é um profissional membro da sociedade, Roberto Chitsondzo reflecte questões sociais diversas. Em músicas como “Dondza”2, há um apelo à aposta na escola – pedagogia – como melhor via para a construção do saber, que possibilitará um bem-estar do indivíduo e, inevitavelmente, do país, assumindo que a nação é resultado da acção de cada um dos seus habitantes e outros que se identifiquem com o mesmo.

Questões de cunho pedagógico voltam no tema “Tsomba la mina”3, em que uma das razões que a guia é justamente um tributo ao velho André, que lhe ensinou a tocar, com uma viola improvisada de lata de azeite. É certo que a música nos traz o questionamento de um agricultor sobre o paradoxo de um país possuir recursos minerais e os mesmos serem uma arma apontada contra esse mesmo país. Mas o condão de homenagear quem o ensinou é um manifesto de respeito a esta figura, a figura do professor (função pela qual passou).

Neste álbum Kwiri, Roberto Chitsondzo entra em diálogo com a literatura, onde foi buscar elementos para construir músicas como “Custa dizer amor”4, baseada num poema de Leite Vasconcelos e “Waxukuvala”5, inspirada na prosa de Ungulani Ba Ka Khossa – prefaciador do livro que acompanha o disco -, Orgia dos Loucos.

O impressionismo leva a reconhecer que é-nos natural “querer instalar residência no coração de toda gente”, (como diz um dos versos de “Custa Dizer Amor”), o que não é obra fácil. Nesta busca por dizer essas quatro letras de significado diverso, o compositor exalta humildade, humanidade e recorda-nos que é possível.

Moçambique reencontra-se neste álbum. Este país plural está assente nas composições, no multilinguismo, na esperança de dias melhores e nesta constante busca pela facilidade de “dizer amor”.

Pese embora nos seus acordes, liberte frases de sonoridades estrangeiras, o casamento com ritmos tradicionais faz deste trabalho mais nosso e como escreveu Amosse Macamo, amigo de Roberto Chitsondzo, “sugere[m] novas estéticas” ao cenário musical nacional.

A moçambicanidade é um conceito ainda não acabado. No que diz respeito às artes, Ghorwane e – naturalmente – Chitsondzo são parte da equipa dos respectivos arquitectos.

Em função do que o disco oferece, discordo, parcialmente, da minha querida amiga e mana, Benilde Matsinhe, ao, no seu depoimento no livro, circunscrever Roberto Chitsondzo, a Maputo e ao mapa cognitivo e imaginário Marhonga. Certamente que a urbe, em parte, composta por acácias, alimenta o imaginário do compositor, é inevitável, pois ele cá mora. Concordo que, como lutador, num país como o nosso, estar na capital é vislumbrar oportunidades.

Entretanto, tenho para mim que encará-lo desse modo, seria reduzi-lo, uma vez que a sua música congrega o mosaico cultural e artístico que compõem a nação. Guiados por uma visão que não isola Chitrondzo apenas a este projecto, podemos nos recordar, por exemplo dele a interpretar “Guidema”, na banda, que é um tema em Guitonga – língua da província de Inhambane – e “Nkadi funa”.

A abertura a novas tendências estéticas, ao incorporar o rapper SG no disco, o guitarrista Jimmy Dludlu, o saxofonista Moreira Chonguiça e a vocalista e intérprete, Yolanda Chicane, evidenciam um músico que se busca da pluralidade, congregando no seu trabalho “marhongas, machanganas, bitongas, matswas, makuas, macenas…e por aí vai”.

O livro contextualiza-nos sobre os momentos que marcaram a sua trajectória como indivíduo, que na sombra da banda Ghorwane poderíamos ter perdido. Entretanto, peca na falta de um suporte extra, onde colocar o disco, se não nas traseiras do livro. Por outro lado, obriga a compra dos dois produtos (livro e disco) quando pode haver quem precise somente de uma componente.

1 Trata-se de um artigo intitulado “Apontamentos para Reflexão KapaDech: O fim prematuro de uma geração ou o desaparecimento de um fenómeno?”, no qual discute os efeitos do desaparecimento da banda Kapa Desh do cenário musical. A reflexão foi apresentada nas II Jornadas Científicas do Instituto Superior de Artes e Cultura de Moçambique (ISARC), decorridas nos dias 17 e 18 de Outubro de 2013 em Maputo sob o lema “O papel das indústrias culturais na valorização e promoção da arte e cultura moçambicanas.”

2 É a terceira música do disco. Roberto Chitsondzo (voz e guitarra acústica), Ismael Amisse (guitarra electrica), Júlio Baza (trompete), Sérgio Joaquim Nhacumbe (bateria), Fernando Macamo (baixo), Samti Tembe (percurssão e voz), Paulo Matabele. Vozes adicionais Paulo Chibanga, Lunga, Jenine, Xénia, Kelly, Tsakane.

3 Décimo terceiro tema. Roberto Chitsondzo (voz e guitarra acúsitica), Ernesto Ndzevo (bandolin), Nelton Miranda (teclado), Samito Tembe (percussão e voz) e Paulo Chibanga (voz secundária).

4 Oitava música. Roberto Chitsondzo (voz e guitarra acústica), Fernando Macamo (baixo), Samito Tembe (percussão) e Bertina Chitsondzo (voz secundária).

5 Nona faixa. Roberto Chitsondzo (voz e guitarra acústica), Fernando Macamo (baixo), Ismael Amisse (guitarra eléctrica), Roberto Chitsondzo Júnior (guitarra eléctrica), Muzila Malembe (saxofone), Sérgio Nhacumbe (bateria), Samito Tembe (percussão), Bertina Chitsondzo, Maria Macassa e Augusto Jamo (vozes secundárias).

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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