YAMANDU COSTA: Uma viola que permite espreitar a alma do artista

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A guitarra de Yamandu Costa expressa tudo o que as palavras não são capazes de dizer.

Isso viu-se quinta-feira à noite, no show que o brasileiro realizou na sala nobre do Conselho Municipal de Maputo, onde, com esse instrumento ao colo, embriagou os “bebedores de jazz” com sabores diversos.

Era o “More Jazz” no seu novo formato, que brindava os “maputenses”, ainda na ressaca das celebrações dos 130 anos da “Cidade das Acácias”, celebrados a 10 de Novembro.

A sala ficou minúscula para receber tanta gente que subiu ao primeiro andar daquele edifício, cuja arquitectura enche os olhos de qualquer um pelo seu charme.

De forma gradual, a música foi se instalando para reivindicar o estatuto de prato principal.

Quando chegou ao tema “bem-vindo”, já soava a ironia, uma vez que aquelas sete cordas da sua viola já há muito diziam e cantavam sem “voz”, a emoção que só o Brasil exprime daquele jeito.

Desenganem-se os que pensam que o berço de Tom Jobim e João Gilberto parou de produzir génios, pois Yamandu Costa é uma das provas.

O tom subiu para exibir o quão poliglota é aquela viola, que dialoga com diferentes fraseados. De rico vocabulário, o brasileiro encheu a sala apenas com a voz da sua viola. De tal forma que minimizava o ruído que vinha do lado de fora.

À medida que o concerto evoluía, a conexão com a plateia foi se tornando mais coesa, o que terá sido, em parte, acentuado com a relação que o músico brasileiro tem com o instrumento.

A viola de Yamandu Costa conta histórias com tamanha dramaturgia. Naquela noite, os dedilhares expressavam todos sentimentos.

Para lá das fronteiras

A sua música transcende as fronteiras do jazz. Yamandu Costa não se limita explora várias possibilidades e a música parece sair naturalmente, de tal forma que o processo de afinações foi musicado com pequenos acordes que serviam de testes, mas que não obstante, sempre resultavam em melodias que se encaixavam no repertório.

Algo de lusitano, em algum momento, Yamandu Costa emitiu, no meio, enquanto seguia, com o corpo mesmo, os movimentos da música.

A sua expressão corporal foi muitas vezes parte destacada da performance. Aplausos. Longos aplausos em apoteose, numa plateia constituída por políticos, diplomatas, empresários, artistas e vários outros “maputenses”.

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Moreira e Yamandu – Foto de I. Sitoe

Com clarinete na mão, pouco usual nas performances em Maputo, Moreira Chonguiça fez-se ao palco para interpretar clássicos brasileiros.

Do repertório constou “Insensatez” – tema escrito por Tom Jobim e Vinicius de Morais em 1961 e eternizado na voz de vários intérpretes, entre eles João Gilberto, Elis Regina, Frank Sinatra, Stan Getz, Austrud Gilberto. Na peça, o diálogo era uma brisa que convidava o Redentor a abandonar o Corcovado, no Rio de Janeiro, para cumprimentar Samora Machel, ali em frente do edifício municipal.

Depois foi um samba, que se funde com pagode. Extraída do álbum “Samba Esquema Novo” de Jorge Ben Jor, lançado em 1963, o duo proporcionou “Oba-oba “, na qual Moreira enchia a sala com o seu discurso a passear, despindo, em alguns momentos, as influências de Sting e do que, como etnomusicólogo, pesquisa que são, sobretudo, a música Makonde e Chopi.

Novamente sozinho em palco, a criatividade de Yamandu Costa parecia não acabar com os sucessivos improvisos (na verdadeira acepção da palavra) de bradar os céus. Deu direito até a sertanejo.

Com Mia Couto ao “colo”

No último concerto que deu na noite de 24 de Junho em Lisboa, as crónicas e críticas descrevem que a plateia espantou-se com o facto de ter cantado, coisa rara. Em Maputo fez o mesmo, provavelmente se trate de uma nova tendência das suas performances.

Disse que o Mia Couto consta das suas leituras para inspiração. Com assobios, ele brinca, solta uma voz e permite que as sete cordas assumam as “rédia”. A intenção, ao que pareceu, era mesmo multiplicar aquela expressão que nunca verte até ao âmago do artista- por isso sempre insatisfeito.

Ele chorou na despedida, um intérprete que se entrega à música e permite que o instrumento conduza a discussão, numa familiaridade com o instrumento que assusta, tamanha destreza.

No encore, Moreira trouxe “moda chicavalo”, o folclore suburbano doutros tempos, para entregar àquela guitarra de sete cordas. Demonstrando que desse jeito o mundo vai ficando pequeno, através das pontes que a música mostra ser possível construir, com naturalidade.

Num concerto solo, foi de saltar à vista o virtuosismo de Yamandu Costa, que é o segundo músico que escala Maputo para participar da primeira edição do Festival Internacional de Jazz de Maputo- More Jazz que antes designava-se More Jazz Series. O primeiro foi o tailandês Pathorn Bede Srikaranonda.

*Texto publicado no jornal Notícias na edição de 18/11/17
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Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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