“Lambinha” e “Rei Lear”: Jomalu e Shakespeare em diálogo

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É PRECISIO assumir que as relações de poder nas sociedades são das teias mais complexas que se pode tentar desfiar. Daí, provavelmente, a confusão que é a política – instituição legitimada do poder.

O poder, evidentemente, manifesta-se das mais diversas formas, tendo, porém, a mesma finalidade em todas e quaisquer circunstâncias, a possibilidade de co(i)nduzir o rumo e o destino do status quo.

Já há quatro séculos, o dramaturgo britânico William Shakespeare – este homem que, tenho para mim, construiu a máquina do tempo e viajou nela, pelo menos, até aos nossos dias – o tinha descoberto e na tragédia escrita, precisamente, em 1606, evidência de forma sublime, no clássico “Rei Lear”.

Cá entre nós, o seu trabalho mais conhecido e citado – ainda que muitas vezes, em minha opinião, de forma equivocada, ao encará-la como uma linda história de amor, enquadrada no Romantismo, quando, na verdade, trata-se de uma triste tragédia – é Romeu e Julieta.

“Lambinha – Boot licker”, composta e interpretada pelo vocalista e guitarrista Jomalu, inevitavelmente, conduz-nos ao Rei Lear. Há uma intertextualidade entre a letra da música e esta peça de teatro.

Lear é rei da Grã-Bretanha, pai de três princesas (a Disney diria duas esbeltas e uma linda camuflada por falta de auto-estima e outras tramóias só deles). São elas, da mais velha a mais nova, respectivamente, Goneril, Regan e Cordélia.

O rei, querendo abdicar do poder, promete compensar a filha que melhor declaração de amor lhe fizer. É, no presente contexto, irrelevante trazer quem ficou com o trono, pois apenas interessa quem não ficou e “os porquês”. No caso, foi a Cordélia, por incompetência na adulação, manifesta, ao declarar apenas que seria incapaz de “elevar o coração até à boca”. Foi a deserdada.

As outras duas, guiadas por uma perspicácia e habilidade na leitura das circunstâncias, sem ignorar, claro, o facto de serem ambiciosas, disseram o que o velho queria ouvir e como tal, foram rechonchudamente compensadas.

O título do mais recente álbum de Jomalu é justamente o deste tema em alusão, “Lambinha – Boot licker”. O personagem é aberto, estando a carapuça por cair na cabeça de quem couber, o que permite diferentes e diversas leituras.

Na faixa, o músico moçambicano envereda por uma postura crítica contra os “escovinhas”, “lambe-botas”, que se pode descrever como miseráveis capachos, que se guiam servis ao senhorio do dia pela sede de poder, ridicularizando a ética e qualquer tipo de moral e bom senso. Alguns até ignoram o conhecimento adquiridos ao longo de anos e anos de formação para de cócoras e cabeça baixa rechear os seus lábios de poeira, enquanto estende a língua para a bota do seu superior hierárquico.

A estória de Jomalu sugere que, no nosso actual contexto, ao que parece, a bajulação aos chefes (detentores de poder, seja económico, mas sobretudo, político) é a única via para que se tenha uma vida digna, provendo um bem-estar para a família e conquistando ou, nalguns casos, mantendo o status social almejado.

Goneril e Regan, filhas mais velhas do rei, na peça, optaram pela via da “graxa” e tal e qual, o “narrador” de Lambinha previa do futuro dos lambe botas, tiveram benesses, ao contrário da sincera Cornélia.

Neste ponto, William Shakespeare mostra uma máscara do poder que é pouco agradável: a de que, a dado momento, aos seus detentores apenas o seu ego é que importa, ainda que alimentado de mentiras.

Ambos autores trazem-nos a ideia de que, para o poder (aqui nos referimos à política), a sinceridade é uma instituição a ser destituída e separada de qualquer possibilidade de coabitação no seio dos que o detém.

Neste sentido, sugerem que o rei (ou chefe, no caso de Jomalu) perde a admiração pelo que são qualidades humanas, daí, levantando, então, outras ilações em relação à natureza dos detentores do poder.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

1 COMENTÁRIO

  1. Fazem bem escrever para abrir a mente daqueles que são preguiçosos em pensar. A leitura abreo horizonte para enchergar o além

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