.Vamos? Não quero ir

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Por Hélio Nguane
Ontem, fiquei boas décadas parado na paragem a espera dum chapa. Olhei para mil viaturas de transporte semi-colectivo a passarem pelas pessoas, que carentes em chegar a casa escutavam os gemidos e grunhidos do cobrador:
Vamos!?, diziam e/ou perguntavam.

Portas entreabertas, os homenzinhos filtravam as pessoas, o casting era minucioso, só as boazudas, bonitinhas e conhecidas é que entravam para ocupar o banco da frente. Só os vizinhos, engravatados e companheiros de trincheira é que ocupavam os assentos normais.
“É a rotina, todos os dias é a mesma coisa…”, resmungou uma senhora espaçosa, que não passou da selecção.
“Esses malandros devem ser ensinados a nos respeitar!”, tirou da boca enrugada, uma figura de cabelos brancos, que estava ali há já muito tempo.
O relógio não pausa para recarregar as baterias, corre, não fica em segundo lugar. Os chapas passam, a maioria vazios, mas não cumprem a sua missão – levar as pessoas pregadas na maldita paragem ao destino.
Vi um indivíduo a aproximar-se, afinei, pausei e depois desliguei discretamente a música do meu celular, mas permaneci com os auriculares nos ouvidos. Balancei, deixei-me levar pela melodia da música que já não estava a tocar.
Com as mãos no bolso, segurei firme no meu celular e na carteira. O homenzinho apalpou-me e do nada dispersou.
“Afina aí, Paizinho!”, ordenou o motorista.
“Entra quem tem apetite!”, dizia o cobrador, apontando os bolsos de trás das calças das mulheres e homens, parados, ordenados como bananas sem cacho, num minúsculo caixote.
Aperta, aperta e aperta. Sem levantar o dedo indicador, contabilizei as pessoas que estavam no chapa que fazia a via P. Combatentes/ A. Voador: ” 26, 27, 28, 29, 30. Acho que já não entra mais ninguém”, gritei para mim mesmo. O cobrador mostrou magia e enfiou mais três pessoas.
“Entra “maizinha”, fininha. Minha pequena, tem espaço para ti”, disse, num tom irónico, enquanto apalpava as extremidades da porta enferrujada, e sentia o aroma das inúmeras pessoas que afinou.
A moça esticou os braços, olhou para o chapa a transbordar de pessoas, empurrou duas nádegas femininas, procurou o melhor local para colocar a cabeça e apenas 30 por cento do seu corpo entrou.
O cobrador penetrou no chapa (nem sei como arranjou o espaço, presumo que os anos ou meses de estrada tenham lhe ofertado tais qualidades), segurou a perna esquerda da “maizinha”, depois de menos de dez segundos de acção a mocinha já estava 100 por cento no chapa.
Depois da porta fechar, escutei um grito distante: “Roubaram o celular daquela moça magra!”, ouvi da multidão. “Foi aquele ali que ti apalpou aqui. Tens de evitar mexer celular na paragem”, aconselhou-me uma senhora, que o rosto nem tive tempo de olhar.
Coloquei o celular e carteira na pasta. Escutei um “vamos!” Entrei no chapa e fiquei 20 minutos mal posicionado. Faltando um minuto para descer, tive um assento. Senti a vibração do celular, abri a pasta discretamente. Vi um SMS: Vamos?, estava escrito. Sem olhar quem me enviou, respondi: para onde?. Fechei a pasta, desci do chapa, paguei o cobrador.
A batalha ainda não acabou, à casa ainda é distante. Passei pelo mesmo sufoco e subi o chapa final. Tomei um banho, mas a água não limpou a dor de pescoço e as agressões que o chapa e os seus passageiros me causaram.
Recordei da mensagem. Tirei o celular da pasta, olhei para ela e percebi que já havia recebido outras duas vezes e, ingenuamente, respondia da mesma forma. As mensagens não eram enviadas, pois o emissário das SMS era uma das operadoras nacionais.
Fiquei intrigado, liguei para a linha do cliente. Enquanto esperava pela chamada, recordei-me dos chapeiros. Por segundos escutei vários Vamos! Vamos!? Vamos! dos cobradores e fiquei mal disposto.
O homem da operadora móvel, com uma dicção e voz desagradável disse as velhas palavras de sempre:
– … Em que posso ajudar?
– Estou a receber uma mensagem da sua operadora com o texto: .vamos?, o que isso quer dizer?
– É uma mensagem automática da nossa operadora. É o extracto do nosso novo slogan.
Sem medir as palavras, seguindo os impulsos respondi:
– Quem vos autorizou? Em momento algum aceitei ser cobaia das vossas novas SMS? Quem disse que eu quero receber isso?
– É o nosso novo slogan…
– Vamos? Que falta de respeito. Esse “vamos? sem bom dia, sem um “como estás?” é desrespeitoso, como muitos dos chapeiros que encontramos nas entradas. Vamos? Quem vos disse que eu quero ir.
– Meu senhor, é uma mensagem automática!!.
– Eu não quero receber.
Me segurei, respirei fundo, pensei em continuar o contra-ataque, mas pausei e repeti o slogan da operadora adversária e me despedi de forma educada.



Acredita em seus sonhos e transforma-os em verdade. Com amigos fundou o Mbenga e escreve o seu destino. Colaborou com periódicos dos
PALOP’s, trabalhou em Relações Públicas ( assessoria) e Publicidade e Marketing. É repórter do Notícias. Este é só o principio da revolução.

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