O PCA ZECA

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Zeca, obeso, saiu do elevador e entrou na sua casa protocolar – já em processo de alienação. O calor era insuportável, transpirou do parque de estacionamento, em baixo do prédio, até o seu apartamento na avenida Julius Nyerere. Regulou a temperatura do ar condicionado, 16 graus.

Antes de se sentar no sofá egípcio, comtemplou sua sala, no extremo esquerdo, por cima do vaso chinês, visto logo à entrada, apreciou os Comedores de Batatas, quadro de Van Gogh que comprou na Alemanha, numa viagem oficial, quando era ministro. O ministério pagou-lhe a relíquia.

Aquela imagem lhe levou, por alguns instantes, de volta a sua infância rural. Cresceu agricultor nos confins de Massinga, sem possibilidade nenhuma, sem perspectivas futuras. Parecia que o destino lhe mandara plantar batata.

Serviu o seu covorsey, um conhaque, depois de acender o charuto cubano, oferta de um confrade americano, a quem facilitou, graças as suas influências, a abertura de uma empresa que nem ele mesmo entende de que ramo é. Claro que em troca aceitou umas acções. Até a generosidade tem preço para atitudes de valor.

Reproduziu no seu aparelho sonoro a colecção de John Coltrane, comprada em Nova Orleães. Não podia voltar dessa viagem sem, pelo menos, um Cd de jazz. Também os mestres da etiqueta disseram-lhe que alguém do seu nível deveria, no mínimo, gostar de jazz. É para gente de requinte, diziam eles.

Por acaso até gostava e servia de desbloqueador de conversa em algumas situações em que quisesse se exibir nos jantares protocolares no Hotel Polana.

Ao som de Coltrane numa parceria com Hartman – You are too beautiful -, afogado no conforto do sofá, desapertando a gravata que lhe sufocava desde o momento que pensou em coloca-la, lembrou-se do seu desvio que despoletou na publicação Panama Papers. Zeca volta a transpirar, mas logo relaxa, sabe que não vai dar em nada, tubarões não se afogam. O fumo do charuto inunda a sala, aquele aroma lhe agrada. Pega no copo transparente que ganhou a cor dourada do conhaque, observa o líquido e se perde nele. “Eles acham que me derrubam? Ingénuos”, comenta consigo mesmo.

Outro facto que não lhe incomoda depois de várias denúncias de corrupção divulgados na media da praça é que seus superiores não lêem jornais e se o fazem é para admirar as quantias que os seus correligionários amealham. O povo que vota também não lê – não tem dinheiro, nem educação para isso -, muito menos os funcionários da empresa pública da qual é PCA. Exceptuando esses licenciados que querem lhe roubar o lugar com competência. Mal sabem eles que não têm licença para a sua cadeira.

Sorve alguns goles se rindo dos pobres letrados que desconhecem as teorias que ditam a prática neste país. Ainda está para surgir a ciência que explica o funcionamento deste Estado. Dava excelente dissertação para doutoramento.

Seu Samsung S7, branco, vibra, pegando no celular para ver de quem é a mensagem, o Iphone 6 plus, dourado, igualmente vibra, mas ignora, já sabe que é hábito da catorzinha escrever para os dois números quando precisa de dinheiro para o ginásio, extensões novas, combustível para o carro que ofereceu ou para pagar renda e gás da casa no bairro central A.

Só que desta vez não era a catorzinha. O remetente era outro. Zeca se frustra ao procurar pelo lenço de mão, sua testa enrugada transpira. A pança enorme lhe cansa, a obesidade não lhe deixa respirar nos conformes. Era mensagem dos correlegionários: encontro amanhã as oito, na sede do partido.

Grande chatice! Já são aproximadamente duas e meia e acordar as 10 está cada vez mais difícil. “Esses marcam encontro a essa hora, não sabem ser ricos?” Se questiona. Depois comenta “por isso este país não avança”. “Esses não sabem que ricos se encontram as 3 da tarde em Bilene e não na sede do partido logo cedo”.

Zeca não entendia e se indignava por não poder viajar de avião no meio-dia seguinte, deixando o povo a espera do voo atrasado, como sempre, pois o PCA usou o avião comercial do Estado para questões partidárias.

O gordo termina o copo, apaga o charuto no meio e vai para à cama. Sua esposa finge que dorme. Quando ele puxa o cobertor percebe que ela está de lingerie aberta, há muito que aquele corpo não lhe provoca apetite nenhum. Um preto gosta de pretas mesmo, pensa consigo. Essa branquela foi só conveniência, se justifica. Seu status não lhe permite casar com pretas.

Assobiando, por saber que, embora chatos, estes encontros terminam com nomeações, sobretudo quando privadas do conclave geral, desce do Mercedes benz preto, vidros fumados e caminha para o edifício. O motorista reclama ter chegado as seis e meia para levar o PCA para o encontro, mas este só desceu as nove e meia. O outro, motorista do ministro, comenta “é hábito dos chefes. Eles devem ser os últimos a chegar”.

Lá dentro, sentados em cadeiras altas, de madeira envernizada, num círculo que dispensou mesas, Zeca recebe a proposta: “alguém terá de se sacrificar, a coisa está feia. Os doadores estão a pressionar. O camarada é que controlava a pasta do ministério polémico. Os heróis não podem se sujar. Sua única prisão deverá ser a cripta”, ri-se o interlocutor para desanuviar o ambiente tenso.

O outro bate nas costas do Zeca: “será por alguns meses para baixar a poeira”. Zeca ordena “o valor deve ser depositado nas Bahamas, já tenho várias contas na Suíça. Contactem os meus advogados. Algum de vós tem o contacto do Mossak, aquele Fonseca?”

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