DOCUMENTÁRIO “LIVING ART” Os artistas e a intimidade do seu processo criativo

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O QUADRO já pintado na exposição, a música no concerto ou a dança no espectáculo são muitas vezes o único fragmento da produção artística que o público tem acesso.

Mas a alemã Tina Kruger, carregando uma câmara de filmar ao colo, registou todo o processo de produção artística e o sintetizou no documentário Living Art.

Este documentário resulta do trabalho de pesquisa da autora para a sua dissertação de Mestrado, na Holanda, no curso de Antropologia.

A sua dissertação observou e avaliou as artes contemporâneas em Moçambique, tendo como palco a capital do país.

Até porque os sete protagonistas do enredo, fazedores de diferentes manifestações artísticas, residem nesta cidade. São eles David Aguacheiro (ceramista), Djive e João Paulo Bias (artistas plásticos), Edna Jaime e Ídio Chichava (bailarinos), Jazz P (rapper), e SHOT.B (grafite).

Tina Kruguer acompanhou o quotidiano de cada um, registou os momentos do seu processo criativo, resultando num documentário de 50 minutos que está, por essa razão, dividido em três capítulos: “Criação”, “Produção” e “Exposição da obra”.

“Busquei não interferir no seu trabalho. Pedi-lhes que fossem naturais, o que, de certa forma, foi possível pelo facto de serem artistas que eu já conhecia antes deste trabalho”, disse a autora.

Há, porém, uma excepção: a performance de dança contemporânea de Ídio Chichava. Vestido de uma peça de roupa coberta de lixo retirado nos contentores e nas ruas da capital. Ídio fez a performance nas artérias mais agitadas da baixa da cidade.

“Ele já tinha pensado na performance, mas não seria naquele dia”, esclareceu Tina Kruguer que coordenou toda a produção sozinha. Ela foi a directora artística, operadora de camara, editora, roteirista, argumentista…

Propositadamente, a autora optou por ir em contramão da tendência habitual de documentar apenas as danças tradicionais moçambicanas e apostou na arte contemporânea.

“Os outros trabalhos sobre a cultura e as artes moçambicanas estudam o tradicional e a arte contemporânea é pouco explorada, mas eu quis mostrar algo diferente”, justificou.

Um filme sem diálogo explicativo

A pesquisa possibilitou a Tina Kruguer perceber que as fronteiras entre as diferentes manifestações artísticas são ténues e que há muitas similaridades nos movimentos e no processo de criação.

De forma a dar corpo às constatações e aos detalhes que foi encontrando durante as filmagens, para não perder nada mesmo, nenhum fragmento, concebeu um filme sem diálogos explicativos.

Tina Kruguer explorou o ambiente natural dos ambientes que esteve a gravar. O tintilar do chocalho de metal, ao sabor do vento, enquanto João Paulo Bias trabalha a sua obra de pintura, cuja tela é de jeans que ele adquire pessoalmente e as confecciona, um exemplo.

Os diálogos, outro exemplo, de transeuntes que cruzam com Djive enquanto ele caminha com os objectos, aparentemente, marginais no saco num dos bairros de lata da cidade. No documentário estão presentes estes detalhes.

A ausência de diálogos destinados ao Living Art é propositado, pois a intenção é explorar o sensorial, de forma a invocar a dimensão estética de quem se propõe a assistir a este trabalho.

Por outro lado, ainda que de forma implícita, a explicação que habitualmente encontrámos na voz do narrador, foi transferida para o jogo de planos inusitados e inéditos, nalguns casos, que Tina explorou para este trabalho.

Alguns dos cortes foram propositadamente repetidos, de forma a ilustrar o detalhe do processo de produção de uma obra artística.

A partir do segundo capítulo da estória, que começa, como que a ilustrar “um passo a frente”, com um passo de dança de Edna Jaime, Tina coloca, em simultâneo o ensaio da Edna, no Jardim Tunduro, juntos às plantas, num ambiente natural, e Ídio Chichava que se exibe coberto de lixo.

Tina Kruguer considera mentira que os citadinos de Maputo não adiram aos espectáculos e a exposições de arte contemporâneas por não percebê-la. “Há um número de factores que deve-se levar em conta, entre eles os preços de acesso, os espaços onde são exibidos, entre outros”.

As pessoas, prosseguiu, estão abertas a coisas novas, de tal forma que a performance na baixa teve muita aderência. “Houve até quem deixou as suas actividades para nos acompanhar”, acrescentou.

Livig Art mergulhou no universo criativo de artistas como a rapper Jazz P, tendo submergido nas noites em que, com a luz da vela, acompanhada por um parceiro no leito, ela não se permitia deitar sem antes verter da “cachimónia” alguns versos.

De forma criativa este documentário captou a íntima interacção entre o artista e a sua obra, que são momentos peculiares.

“Ao longo de todo o trabalho, encontrei um ponto em comum, o amor que os artistas têm pelo que fazem, pelo seu trabalho e foi para mim estimulante”, concluiu.

 

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