Os peregrinos (fim)

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Por Reinaldo Luís

O relógio marca 14 horas e poucos minutos. Voluptuosos os vultos erguemse, lentamente, na velocidade do hastear de uma bandeira. As moças sacodem a poeira das capulanas, que lhes serviram de esteira. Outras balançam as ancas, o tronco; alongam os braços, as coxas, enfim, todo o corpo. E logo seguiuse o cortejo. Houve sincero prazer em ambos encontrando-se, pela segunda vez. E desta, Gil distribuiu a promessa de que iria ser a lenda da estrada. Mas ninguém lhe deu ouvidos, porque Gil é igual a um motor injectado – o que tem de berros, de velocidade não tem nada!

Do alto, soavam cânticos a Nossa Senhora de Fátima, e em baixo, os passos envolviam-se, dando sonoridades de uma banda musical. As vozes entrelaçavam-se e perdiamse, na algazarra de um outro grupo, que caminhava na velocidade do tempo; e os olhos, naquela penumbra.

Os homens rolavam já, pela rua fora, antes, em contramão, e agora, na direcção exacta, ao encontro da enferrujada placa, a poucos metros da vila de Boane. Na qual, já há anos vem escrito “Bem-vindos ao Município de Namaacha”. Gil foi o primeiro que rompeu o silêncio de alguns minutos, dizendo na ironia da sua personalidade:

– Estão todos de parabéns! Sejam mesmo Bem-vindos à Namaacha.

Avelino, que já reparara, a longos metros, na placa, ficou inteiramente pasmado, quando o ouviu falar. A razão era simples: não entendeu a necessidade de terem descansado, na Paróquia de Boane, se já estavam tão perto. Alves, porém, estava certo de que as palavras de Gil teriam um pouco de verdade. Este não só estava feliz, pela grande conquista, para ele conseguida sem quase nenhum sofrimento, mas via-se estremecer, sempre que pensava na marca do telemóvel, que a mãe lhe prometera se ele escalasse a terra santa, peregrinando.

Aliás, não parava de se sentir lisonjeado. A estrada se estendera ao mais infinito. Estava só; tinha três linhas amarelas, uma no meio e uma de cada lado. Só se ouvem, de muito longe, ruídos de máquinas industriais, que estilhaçam a pedreira. Mas no ânimo dos caloiros, Namaacha, que parecia uma cidade Perdida, devia ser aquilo, ou não seria nada. Era desespero; mas a intolerância de Avelino começava na convicção de burla e terminava na desistência repentina, algures.

– Conseguem ver aquela gente ali? – questionou Gil.

– Sim, é ali mesmo? Falou Avelino.

– Não, pá! Ali é Mafuiane, é onde iremos comprar cana-de-açúcar. É nice, vais ver.

– Burla! – Esta era a impressão, com que Avelino, apesar da simpatia que o arrastava, falou, de novo, a

Gil, enquanto os outros se admiravam com tudo, pela atenção e pela ajuda, que prestavam às moças. Mas, durante a conversa, Mundinho contemplava e observava o andar gingado das mocinhas, cujas roupas batiam a claridade, que se mirava no recuo. Eram miúdas dos 21 anos, cheias de adornos, que lhes cobriam a imperfeição.

As caras também apompadas era como se estivessem num passeio de amigos. A linguagem aqui, embora livre, soa a delicadeza, a educação, ou mesmo à suavidade dos seus sotaques aportuguesados misturados com um ronga puro. Afinal, todas são genuinamente fingidas!

Em Mafuiana, alguns compraram cana-de-açúcar, enquanto outros cavalgavam, sem parar, e, doravante, a vinte metros dos que ficaram para se distraírem, Amélia, uma afamada ladra de namorados da Tâmega, segurou firmemente a mão de Mundinho. Este já a esperava, tanto que a recebeu como se fosse uma amiga-amante de longa data. Todo aquele conjunto de acontecimentos impressionava e atraía os olhares impávidos dos caloiros da estrada.

Mundinho sentia-se cada vez mais arrastado para aquela mulher, que o procurava, e lhe estendia a mão. Na velocidade da luz, os toques deram lugar à conversa, que começou num tom afectuoso, mas que terminou logo, com a chegada de Hélio, um arrogante por excelência. Já estavam na pontinha, um pequeno asilo de peregrinos. Todos descansaram, em silêncio, a chuparem canas-de-açúcar.

Vinte minutos depois, logo que um quarto grupo passou por ali, onde estavam, Marcelino observou-lhes que estavam a descansar demais, e que tinham de continuar a caminhar, senão teriam de fazer 24 horas, antes de chegarem ao santuário. Foi um comentário descabido, porém não teve nenhuma objecção.

Antes mesmo que Mundinho se tenha decidido, Marcelino, Jonas e Hélio desataram a andar. Uma vez inquiridos, sobre as suas condições, os avançados deixaram-nos a par da distância que faltava percorrer, praticamente da mesma forma com que foram educados.

Avelino empalideceu, balbuciou algumas palavras, na tentativa de diálogo, sem sucesso. Só aos poucos, através de palavras calmas e optimistas, tendo consciência de que não estavam desamparados, e que juntos iriam chegar a Namaacha, acabou por se tranquilizar.

Como já era de esperar, mediante as ideias controversas de que Namaacha é longe, os ânimos dos caloiros diluíram. Se já não estivessem no Cruzamento de Goba, a escassos minutos de Mandevo, com certeza alguns teriam desmaiado. A caminhada teve um óptimo período, mas após treze horas de calcorreada, seus entendimentos andavam aos tropeços. Não raro, com os nervos alterados, colocavam a culpa um no outro, sobre uma possível falha, na discrição de Namaacha e, consequentemente, a culpa sobre o incidente ocorrido.

Ao menos, naquele momento, o ambiente ganhara outras tonalidades e vozes, o que fez com que ninguém percebesse que alguém tirara a placa, em que se lia Mandevo. Mas, mesmo assim, mesmo ressentidos, todos descansaram e respiraram fundo, para escalaram, para escalaram, logo de seguida, o Monte Pecador.

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