Uma noite trágica ou a mais dócil da vida?

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Por Irmão Mfanhana
Tudo começou com este homem orgulhoso e vaidoso que, como um dom vindo de Deus, com sal e temperos na carne, quando pica em mulheres, deixa-as em alvoroço. Este homem, levado pela juventude da sua carne, optou pela promiscuidade. Não era fiel. A cada dia que passava provocava estrondos algures após algures. Satisfazia-lhe apenas aumentar o número de mulheres que viam a sua nudez. E, num destes actos de vandalismo, conheceu a Maria, então solteira e empregada duma empresa de renome, localizada no centro da cidade. Ela procurava, a todo o custo, um amor na vida que cuidasse dela, que a protegesse das infâmias deste mundo de agonias. Vendo neste jovem um amor perfeito, cedeu-lhe quase tudo, inclusive um cartão verde para abrir qualquer parte da sua roupa sem pedir licença. E o jovem, esse que nada pretendia senão puxar algo no corpo duma mulher para cima e para baixo, trepou o frondoso corpo da Maria umas duzentas vezes, devidamente registadas num caderno velho escondido na sua cabeceira. A Maria tentou várias vezes convencer este jovem a subir ao altar. Preparou-lhe inúmeras armadilhas de tamanhos e modelos diversos, mas nenhuma delas teve sucesso. Este jovem era tão escorregadio e colava tanto quanto queria.

Na noite dum sábado de Inverno, isto na década de 2000, o jovem resolveu, como de costume, ir passar a noite em casa da Maria. Telefonou-lhe e ela concordou. O relógio marcava vinte e três horas e o jovem andava sereno pelos caminhos estreitos e escuros do bairro de Chipangara. Orgulhoso, sentia o sangue macho correr-lhe dos pés à cabeça; caminhava para, mais uma vez, provar o macho que era. Porém, algo de errado aguardava-o. Chegado ao destino, encontrou a porta já trancada; deu umas tantas pancadas nela, mas nenhuma resposta. Pegou no telefone e tentou entrar em contacto com a donzela da noite, porém do outro lado da linha ninguém respondia. Achou ele que a Maria se encontrava algures no bairro e que regressaria tão cedo e, nisto, resolveu aguardar pelo seu regresso. Aguardou, aguardou e aguardou; passaram duas horas. Mil tentativas de efectuar uma chamada; mil pancadas na porta; porém, nada. As corujas começaram a ensaiar as suas cantigas nocturnas; o jovem ficou cheio de medo, olhou para o relógio, já eram altas horas da noite e, pior, no fundo daquele temido bairro do Chiveve (Beira, capita da província de Sofala).

O peito rasgou-se quando ouviu uns gritos de socorro vindos de lá mais para o fundo da zona. O coração caiu e rolou pelo chão, sem mais força nem vontade e vivendo por milagre. Foi atrás do coração, agarrou-o; virou para todos os lados e reinava silêncio total, apenas as corujas intensificavam as suas cantigas agressivas para os que foram rejeitados pelo sono da noite. “A minha vida termina hoje” – pensou o jovem enquanto guardava o coração num dos bolsos das calças.

Eram altas horas da noite e, naquele mítico e temido bairro do Chiveve, espreitar fora era sinónimo de arriscar a vida. Não valia a pena, nem por doença, nem por morte, nem por qualquer outra coisa, circular por aquele bairro àquelas horas. A sorte do jovem é que havia, a uns escassos metros dele, uma latrina improvisada e coberta de sacos de sisal, que expelia um cheiro nauseabundo num raio de 50 metros. O jovem viu nela um lugar para tentar a sorte. Dirigiu-se para lá, entrou, encolheu-se num dos cantos e cobriu o nariz com uma parte da camisa. Assim passou o resto da noite com mosquitos. As horas tardaram a passar. Porém, como o tempo não pára, o relógio marcou cinco horas da manhã, o jovem saiu do amado esconderijo com uma nova vida, igual ao recém-baptizado, meio gordo, meio dolorido; pegou no caminho de casa. Chegado à casa, fez de tudo para que ninguém soubesse do ocorrido e aguardou por qualquer sinal da Maria para confirmar se o acontecido fora um simples acidente ou algo planificado. À tarde, às horas da sesta, o jovem recebe uma visita duma amiga. Era uma tarde um pouco agitada, com ventos vindo do zénite, levantando poeira, crianças brincando descontroladamente e fazendo barulho após um almoço de mistura de mandioca com feijão-nhemba. A amiga vinha vê-lo, saber do estado em que se encontrava, porque tinha recebido uma mensagem da Maria, a qual dizia tê-lo feito sofrer e a “cena” fora muito boa. O jovem ficou envergonhado, quis desmentir que não chegara a ir à casa da Maria naquela noite, mas de nada valeu. Deitou lágrimas. Parecia arrependido. Sentia-se mais desconfortado com a presença daquele corpo feminino defronte dele do que com a notícia. Ora, doutro lado, o desejo queimava-lhe o coração, queria ele que aquela mulher ali presente fosse mais uma das que lhes tinha visto a nudez; mas não havia como fazer com aquela toda vergonhosa notícia. O jovem agradeceu tanto a notícia como a visita. A amiga pegou-lhe os pés e foi-se embora. O jovem ficou paralítico por uns bons minutos e em seguida suplicou a Deus e aos demónios que algo do género não voltasse a acontecer.

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