“Wadla bomu keee”: um louvor erótico numa negociação sexual com um único sentido

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Por Dadivo José

Tsunela seyo a nwana a vagwaku” (afasta-se que a criança está doente). Assim começa uma mulher, usando o mais forte argumento para afastar um homem que já perdeu toda gentileza possível para negociar o sexo. 

A mulher tem as suas razões para não querer… naquele dia. Mas o homem está possuído por um desejo que lhe tira a lucidez. E o instinto animal toma conta deste gentleman que é o Zeburane, neste louvor à lírica erótica.

Tem razão a mulher. Não sabe donde o tipo vem e como é que atingiu o ponto de bala. Ele apenas quer se resolver. Nem mais, “afasta-se, a criança está doente e não me tenta se não te insulto. Esse teu comportamento me causa angústia”, fala a mulher convencida de que deu o ponto final.

Qual é então a resposta do marido? “Bula ti fula ndzi nga ku bukuta, u tsika undzi tsimbisa ku ku pswopswa a kiss you cheat” (sou capaz de te dar porrada por essa tua mania de me negar um beijo).

Com esta resposta, Zeburane mostra que até pode negociar, mas as negociações terão somente um sentido, aquele que o satisfaz. Na verdade, não há negociação, há sim uma imposição contra a tentativa da outra parte em chamar-lhe a razão.

O sujeito poético fala claramente de sexo nesta música, logo na introdução. A metáfora limão usa nos versos seguintes. O que marca e define o assunto é a primeira parte do diálogo que estabelece com a esposa. Este diálogo reivindica o lado dramático desta música. O homem assume duas personagens: marido, engrossando a voz e a de esposa, agudizando a voz. Com uma mestria, ordena a sua guitarra para que obedeça também, a estrutura de actuação que ele cria.

A mulher fica o dia inteiro cuidando da casa, trabalhos domésticos pesados, diga-se. Água tirada a boa distância da casa, lenha por rachar, machamba, comida e cuidar das crianças. Enquanto isso, ele vai vagueando com os seus amigos Xidiinguana, Dilon Djindji, Mahecuana, Mutcheca entre outros. São esses amigos dele que têm “pitas” com diferentes montras no que diz respeito ao “traseiro”. Como que a não resistir à pressão do grupo, cara sem vergonha, ainda diz a mulher que procura essas tantas lá fora porque segue aos amigos que têm “pitinhas” com coisas grandes atrás.

Essa coisa de deixar a mulher passar para fechar a análise depois de vê-la de trás já leva séculos. Acontece porém que para esta noite, Zeburane não conseguiu nada, só lhe resta voltar ao porto seguro, a fiel esposa que o espera, mas que agora, já tem outro brinquedo. Descobriu o prazer cuidando dos filhos, para esquecer as secas do boémio marido.

Esta mulher é sempre amiga e sempre avisa: “deixa essa tua mania de andar a noite que qualquer dia voltas com tuberculose”. Sabem, de noite, depois de muitos copos, não há lucidez nenhuma para avaliar o produto que se consome. Se hoje o nosso medo são as ITS e HIV/SIDA, antes o assunto era tuberculose, que acreditava-se ser transmitido depois de uma relação com viúvas.

Zeburane não consegue ver, contudo, o perigo que se lhe é colocado. Ele responde que vai atrás das meninas porque a esposa lhe nega o “limão”, ora não tendo apanhado, só lhe resta incomodar a esposa.

A esposa de Zeburane não é fraca no argumento e, a medida que ela recebe o contra-argumento do marido logo a seguir inventa outro. Nada melhor que provocar um “ciuminho” ao marido. Até porque ele passa mais tempo fora e não vê o que acontece nas suas redondezas. Ela tem esse triunfo para ver se afrouxa o homem. Debalde. Zeburane orgulha-se por ter mão pesada, por ter nascido em Chibuto, onde saber cair e levantar em seguida para retomar a luta é motivo de orgulho. Não se intimida com a presença do outro e promete lhe sovar sem olhar.

Maria, u kohluili ma bele ya mina yo ba hi xikissi?” wa ni hekisa i mpela/ (Maria, te esqueceste que até sovo com a parte da nuca? Assim me fazes rir). Ou seja, ele tem habilidades para bater sem olhar. Ninguém lhe pode abusar, ele confia-se. Assim, mais um argumento da Maria cai. Ela terá que ceder, a não ser que volte a puxar o argumento que mais lhe pode tocar – a possibilidade de sufocarem o bebé. Será que és tão irracional assim, oh Zeburane? Estás mesmo babando por causa do limão?

Filhos são criaturas nossas que amamos. Zeburane estaria derrotado com o argumento acima. Ele não procura contra-argumentar. Assume que é rude, que é irracional porque tal limão ele come com a própria casca, com as sementes, tudo vai. Ou seja, se tiver que chutar o bebé, se tiver que violar a esposa, assim o fará. Depois desta declaração a mulher rende-se a gula masculina, rende-se a insensibilidade masculina, rende-se a irracionalidade deles quando a cabeça de baixo está no comando.

A vava nuna a vana tingana”/ homens não tem vergonha. Sim, eles não sentem o azedar do limão. Homens quando estão sexualmente excitados até se esquecem que existem doenças, procuram argumentos a favor da mocinha para acomodarem a sua irresponsabilidade: “esta moça assim bonita, não acho que tenha doença… vou meter um pouco … vou logo lavar o pénis com sabão …”uma série de ignorantes pensamentos. Assim cresce a rede de contaminações. Neste momento, Zeburane também joga de igual para igual. As mulheres também não têm vergonha, também ficam excitadas e perdem controlo e, como que a sentir o azedar do limão, fazem as caretas, fecham os olhos, esticam-se … tudo por efeito do “limão”.

Depois deste diálogo a mulher entrega o limão e o homem fica feliz e no fim vem as consequências. E sempre assim, segundos depois do acto irreflectido, o mundo dá voltas e acontece o resumo todo de uma vida, de coisas que juramos não fazer e que deixamos cair em alguns segundos da decisão. A mulher reclama danos. “Me mordeste e estou sangrando”. Claro, houve imposição, não foi consensual, a virilidade se transformou em agressividade.

Depois do acto o homem fica geatleman pela primeira vez, pede desculpas e esclarece: “wa swi tiva ma guele ya bomu i u fidzi findzi, katse katse, ma ranguwe rangwe …”. sim, tem razão, quando comemos aquele limão esquecemos onde estamos e como estamos, esquecemos as nossas debilidades físicas, os nossos cansaços, as nossas frustrações e nos entregamos a várias acrobacias. No limão, todo mundo vira atleta até de desportos radicais. Acidentes podem acontecer, mas falemos deles depois. A questão é: Qual é o homem que nunca negociou o limão no seu lar?

Zeburane usa argumentos de peso e alguns irracionais para conseguir o limão. Foi paciente, como uma equipa de futebol italiano, que leva o jogo ate ao prolongamento, mas sabe que vai ganhar. Voltou provocado das bebedeiras com os amigos, encontrou a esposa sem disposição para limonadas, mas insistiu, insistiu e acabou comendo.

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