Odores

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Por Elton Pila 

A relação dos odores com a memória fascina-me. No contoO Veneno da Vergonha”, publicado nesta coluna há algumas semanas, Mulena tem no cheiro salgado do mar o prenúncio da chegada do seu amo, à época estivador-carregador no Porto de Lourenço Marques. Como pode um aroma levar-nos a uma pessoa ou história? Psicólogos chamam de memória olfactiva: associação de cheiros a momentos significativos da nossa vida.

Noutro dia, caminhava ao largo de um jardim, quando as nuvens que ensombravam à Cidade, deixaram-se cair, em gotas ténues. Mas capazes de arvorar, ainda que ténues, odores da terra. Nisto, uma leve corrente de vento atravessa meu rosto, deixando ao meu olfacto o cheiro de relva e areia molhadas, levando-me de volta à infância, aos tempos que me fazia jogador de futebol.

Em muitas manhãs, enquanto a bruma ainda se impunha, treinava e jogava no Clube de Desportos da Maxaquene. Os pitões das botas (chuteiras) massajando a relva humedecida, ora pela cacimba, ora pelo regadio, avivavam odores que marcaram àquela época. Hoje, volvida pouco mais de uma década, o odor da relva e areias molhadas devolvem-me esta história. Quanta história guarda um odor?

Nesta madrugada, enquanto escrevo esta pequena prosa e a aurora desponta lá fora, lembro-me de um velho conhecido ter dito que não suportava o cheiro de repolho, porque o entristecia. O fazia lembrar, justificava-se ele, dos períodos conturbados da guerra-civil. Lembrava-lhe do sofrimento trazido pelos pés das mortes, muitas mortes; das casas e machimbombos queimados; das machambas sabotadas e da fome, muita fome. Naquele tempo, o repolho apresentava-se à mesa, recorrentemente, como a única possibilidade de driblar à míngua.

Por isso, ainda hoje, o cheiro daquele vegetal o causa mal-estar. Volvido tanto tempo, após o fim da guerra civil, continua o trauma. Nega-se a comer qualquer refeição na qual o repolho desponte como ingrediente. Quanta história guarda um odor?

eLTON pILA2

Sonha em mudar o mundo. Acredita no jornalismo e na literatura como agentes desta mudança. Colabora em alguns jornais, revistas e festivais de literatura. Actualmente, é redactor da Revista Literatas e tem a coluna semanal Como Sopra o Vento

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