Até onde os delírios da adolescência podem levar

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Por Elton Pila

Too late” retrata os (des)encantos na adolescência. A peça, de Mashupe Phaca, foi representada pelo grupo sul-africano Ladimash, no Teatro Avenida, na esteira do FITI.

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Beauty apaixona-se por Thabo, um jovem bem-parecido, que se mostra proprietário de carros luxuosos e diz-se senhor de várias empresas. A menina, na flor da idade, acredita que encontrou o homem dos seus sonhos. Quer viver esse amor. Vive-o de corpo e alma, dentro de casa e em viagens.

A mãe tenta dissuadi-la, chama-a à razão. Mas Beauty rebela-se. Quem foi mãe aos 14 anos o que pode dizer a uma filha de 16 anos, quando os actos e os exemplos sobrepõem-se aos conselhos?

Quando se descobre grávida e a mãe encoleriza-se, enchendo-lhe de “eu avisei-te”, Beauty atira-lhe à cara o histórico familiar de gravidezes precoce. “Sua mãe engravidou ainda adolescente. Você aos 14 anos. Eu aos 16 anos. Está no nosso sangue, no nosso Adn” vocifera Beauty ante ao olhar incrédulo da mãe.

Não precisaria do apoio da mãe, tendo Thabo, seu amor, ao lado. Arruma as malas para pôr-se fora de casa. No entanto, o sonho de felicidade desmorona, o príncipe despe a farda, confessa ter alugado os carros, ter mentindo sobre as empresas. Teria fingido para impressiona-la. Agora, não quer ouvir falar de filho, aconselha à Beauty a abortar. Ela nega, fala dos perigos do aborto, fala do medo de morrer, chora, arrepende-se. Mas…

2 lateA história passa-se em território sul-africano, mas teria enquadramento em qualquer lugar que existissem jovens e adolescentes. Afinal, relações por interesse, gravidezes precoces e o fim dos sonhos não têm fronteiras geográficas.

O enredo não é novo. O final é previsível. As ilações estão ao alcance de todos. Mas a vida que os autores dão as personagens testemunham um trabalho fabuloso, impressionante. Nthabiseng Sadiki, na pele da mãe desesperada, por exemplo, reza, grita, chora, com verdade manifesta.

A língua não se afigurara uma barreira. Os autores, conscientes de que não se apresentavam para o seu público habitual – uma plateia, naturalmente, falante do inglês/zulu, esmeraram-se na linguagem gestual, nas expressões do rosto, no tom de voz para conferir sentimentos, significados e sentido ao texto representado.

Elenco: Enny Modiba, Mapuleng Maake, Lebo Motimele, Nthabiseng Sadiki.

Elton Pila

Sonha em mudar o mundo. Acredita no jornalismo e na literatura como agentes desta mudança. Colabora em alguns jornais, revistas e festivais de literatura. Actualmente, é redactor da Revista Literatas e tem a coluna semanal Como Sopra o Vento

eltonl.pila@gmail.com

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