Os quadros por pintar

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O pintor holandês Vicent Van Gogh é um dos maiores génios das artes plásticas difundidas pelo ocidente a escala mundial. Embora em vida só tenha conseguido vender os seus quadros ao irmão, a sua obra é hoje respeitada.

Mergulhando na literatura, encontramos o escritor russo Fiodor Dostoiévski, outro grande génio das artes.

O autor de “O Idiota” influenciou até intelectuais como o neurologista inglês, fundador da psicanalise, Sigmond Freud, que o considerou o melhor romancista que já passou pela face da terra.

Para além da sua capacidade de construção de personagens cuja psicologia é de uma densidade profunda e alucinada, o escritor tinha uma a habilidade de descrever a sociedade em perspectivas que lhe são singulares. Arrisco-me a dizer até inéditas.

Actualmente ele é uma referência em discussões de diferentes esferas sociais e das ciências humanas. A sua obra transcende a mera discussão da literatura enquanto arte. Reveste-se de simbologias que vestem comportamentos dos indivíduos.

Não é, entretanto, sobre o autor de “Os irmão Karamazov” – celebrada como a sua maior obra – que pretendo neste comentário de hoje escrever. Ele, a semelhança de Van Gogh, é apenas um exemplo que cobre a necessidade que sinto de os nossos artistas trabalharem mais profundamente os seus conteúdos.

As obras de arte são objectos – aqui me refiro a todas elas: incluído a música e o teatro… – que para além dos prazeres nos semeiam consciência e saberes.

As mensagens que neles vêm contidos estimulam e educam, sem os martírios da educação formal, a uma sociedade.

Uma das razões pela qual em civilizações mais antigas as obras de arte têm valor reside no facto de em algum momento da sua história terem traduzido sonhos, frustrações, utopias… enfim os valores e sentimentos de uma época.

A partir desses objectos é possível ter uma noção próxima da forma como se vivia, se pensava, se sentia nessa época.

Dostoiévski é nisso apenas um dos exemplos, até porque no seu caso a sua obra transcende e extrapola os limites do seu tempo. A semelhança de um William Shakespeare, dramaturgo britânico, leva a crer na existência da máquina do tempo devido a forma como as suas obras encaixam-se no nosso tempo como luvas na mão certa.

No nosso país, vemos num José Craveinha, Noémia de Sousa, o sonho de um país independente. Neste mesmo Craveirinha a posterior a frustração de não ver materializado esse sonho.

Num Malangatana temos os mesmos discursos, pintados. No Alexandre Langa, encontramos as crónicas do quotidiano do nosso país dos anos oitenta e noventa.

Nos nossos dias vemos o rapper Azagaia a fazer a radiografia do nosso sistema, tanto político assim como do nosso tecido social. Assistimos neste último trabalho discográfico do rapper Kloro, no álbum Xigumandzene, uma tentativa de caminhar em direcção a busca pela emancipação do Homem.

Mais recentemente encontramos ainda um discurso similar nos quadros do Ricardo Pinto e Vasco Manhiça. Estes são apenas alguns exemplos das exceções, pelo que há muito ainda por fazer. Há muito por dizer. Há muito por ensinar. Há muito por escrever e pintar.

Olhando para o grosso das músicas, quadros de pintura, alguma literatura nacional, somos agredidos por um vazio abismal de conteúdo.

Parte significativa dos artistas está a dizer o abstracto. Está presa a lugares comuns, frases e paisagens feitas, abundantes no senso-comum.

No rap, por exemplo, o grosso dos seus actores estão mais preocupados em dizer quem brilha mais, quem têm mais mulheres, mais carros, mais swagg. É provável que este seja o retrato do quão atrasados estamos. É provável que este seja o indicativo do quão pouco ambicionamos. É talvez o que justifica a nossa pobreza.

Reparando o exemplo brasileiro, nota-se num Gabriel o Pensador, Emicida, Rashid Costa a necessidade de usar da palavra para emancipação do Homem.

A luta que se abstrai do seu trabalho é de convite ao desenvolvimento intelectual, de busca pela transcêndeia dos ouvintes, ao que realmente é essencial para a vida humana.

A nossa passagem pela terra é um momento de preparar a vinda da próxima geração. O quê que estamos a fazer nesse sentido?

Os quadros que temos de pintar são os que estimulem esse convite a emancipação, a transcência.

Por exemplo, os poemas de amor, escritos por Camões podem ser uma bússola, mas não o fim. O amor hoje é muito além do que era no seu tempo. Até porque a questão do género é hoje opcional.

O que estou a tentar dizer é que temos, com esses quadros por pintar, construir novas narrativas, que nos ajudem a sair deste marasmo em que nos encontramos.

Vamos usar a arte para cultivar indivíduos cultos, conhecedores de si para que se engajem na revolução que ainda não terminou porque a luta continua.

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