FITI: Uma alternativa para quem quer teatro

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Por: Elton Pila e Hélio Nguane

Mesmo com frio e a neblina, há mais de 14 anos, tem lugar o Festival Internacional de Teatro de Inverno (FITI). Até 25 de Junho, todas as sextas, sábados e domingos, a partir das 18 horas, a iniciativa vai proporciona risos, reflexão e calor.

O Teatro Avenida, Cine Teatro Gil Vicente e Centro Cultural Franco Moçambicano, na Cidade de Maputo, são os palcos escolhidos pela 14ª Edição do Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI). Serão no total 25 grupos, dentre moçambicanos, alemães, angolanos, sul-africanos e portugueses.

O evento é organizado pela Associação Cultural Girassol e vai apresentar, também, música, conversas sobre cultura e homenagens a personalidade que participaram para o desenvolvimento do teatro nacional.

A peça teatral “Ciclo Vicioso” do grupo Girasol deu início ao festival. Seguiram-se-lhes, entre outras, as peças “As Malandragens de Xikonyoka”, “Violência Doméstica”, “A lua do Advogado”, “Combatente Negros e Cães”, “Doente Imaginário”.

O Festival existe há mais de 14 anos. De acordo com o director da iniciativa, Joaquim Matavel, o FITI é movido pela vontade de contribuir para a promoção da cultura. “Queremos contribuir para o desenvolvimento da promoção do teatro moçambicano. Mas, acima de tudo, queremos fazer a diferença numa sociedade em que estamos toda a hora a reclamar de alguma coisa que não está bem”, conta. Para Matavel o FITI é uma alternativa, um evento que tem como missão trazer teatro aos amantes desta arte.

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Joaquim Matavel, director do festival 

FITI como um espaço de reencontro

Carlos Alberto Chirindza e Rodrigues Francisco são amigos, faz já muito tempo. Juntos fundaram o Grupo de Teatro Hopangalatana. No início do segundo milénio, representaram, no país e no estrangeiro, algumas peças, como o caso de Romeu e Julieta, na Áustria.

Entretanto, Rodrigues Francisco foi viver para Finlândia e o grupo passou por um período sem actuações. Quando regressou, entre outros projectos, começaram a trabalhar na criação de um livro de música atado à timbila e um documentário piloto, que se quer tutorial, para ensinar a tocar aquele instrumento.

Em conversa sobre o quotidiano, sobre o mundo actual, entre os dois amigos, foram surgindo inquietações. Então, resolveram reflectir sobre o actual estado das coisas, sobre o ser humano e levar a sociedade a reflectir.

Criaram um guião, entre improvisos e conversas, cortes e costuras, foram construídos os diálogos, introduziram a música e o produto ganhou o título “Um Papo Entre o Homem e O macaco”. Esta peça marca o reencontro dos dois membros do grupo aos Pelo título pode parecer uma peça infantil. Mas seria pelo título e um pouco pela caracterização do personagem que interpretaria o símio (com uma longa cauda). Mas o assunto abordado é, sobretudo, para os adultos. Foi o que se tentou transmitir, recentemente, no Teatro Avenida, na senda Festival Internacional de Teatro de Inverno.

A caracterização do palco com ramos e folhas verdes junto ao som do chiar dos pássaros e das folhas roçadas pelo vento (som constante ao longo da peça) remete o espectador a uma floresta. É lá que há-de ter lugar o encontro entre o símio e o homem. O quão mal faz o homem a natureza? Esta questão cabe como a problemática reflectida ao longo da peça, que confronta, simultaneamente, o espectador com as dicotomias presente/passado, urbano/rural, modernidade/tradição.

O macaco representa a tradição, o passado, o rural, o homem representa o imediatamente oposto. Assistem-se diálogos que se querem compreendidos enquanto teses, pois cada um vai defendendo a sua posição, esforçando-se para descredibilizar a do oponente.

O desenvolvimento humano e tecnológico do qual se gaba o Homem tem comprometido a vida do planeta, incluindo a do próprio Homem. O desenvolvimento é feito às custas da poluição ambiental e do desmatamento. A cidade cresce a medida que as florestas diminuem. O homem transforma o espaço para satisfazer as suas necessidades. No entanto, esta transformação está-lhe a sair cara. A factura vem em forma de doenças como malária e cólera e de aquecimento global. O futuro não se afigura risonho.

O símio chega a vaticinar um tempo vindouro em que a comida tornar-se-á artificial. Isto, porque, cada vez mais, os espaços agrícolas estão a ser ocupados por grandes prédios habitacionais e indústrias. “Não haverá mais terra para plantar” entenda-se.

A componente musical é forte, no decorrer da peça. Não fosse Rodrigues Francisco, no papel de homem, exímio tocador da timbila e Carlos Chirindza um bom tocador de batuque. Este último, por exemplo, usa o instrumento em sua posse, para invocar os espíritos ante a um olhar aterrorizado do homem. Esta alusão ao tradicional que o símio se socorre para descredibilizar, ou, pelo menos, questionar o desprezo do homem, sobretudo o africano, por se apartar da sua tradição, do seu passado.

Um casal anormal vai abrilhantar o FITI

CASAL

Hoje (9 de Junho) até domingo (11 de Junho) o teatro vai destilar a sua classe no Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM) e no Teatro Avenida, com os grupos teatrais Katchoro, Madoda, Gungu e Mugachi e La Donna e Mobile (Alemanha) a mostrarem o valem.

O piano sem tecto”, peça de La Donna e Mobile será a primeira esquentar o público, às 18h, no CCFM. No mesmo dia, o Franco irá receber mais um grupo: Katchoro, com a peça “O casal palavrakis”, a partir das 19:30h.

A obra do grupo Katchoro é adaptada do texto original de Angelica Libdel, e dirigida por Venâncio Calisto. A peça estreou em Novembro do ano passado, nas oficinas do Jornal Notícias.

O Casal Palavrakis” é um espectáculo cujo enredo retrata a história de um casal, Elsa e Mateus, vítimas do seu passado. Os dois vivem traumatizados pelos maus-tratos protagonizados pelos seus pais. Elsa e Mateus odeiam os seus progenitores e o mundo que os rodeia. Este misto de sentimentos marca significativamente a relação do casal.

Amanhã, as sessões de teatro irão continuar com mais dois grupos, nomeadamente, Madoda, que vai exibir, às 18h, a peça “Sociedade em apuros”, e Gungu, que leva ao palco do Franco-Moçambicano, às 19:30h, “Pátria de esperança”.

Domingo, uma vez mais, o grupo Ladimash irá apresentar uma peça, no Teatro Avenida. No entanto, para a segunda aparição no FITI os sul-africanos levam consigo a peça “2 late”, às 18h. Para terminar a sessão, o Teatro Avenida vai receber a peça “Mekanou”, do grupo Mugachi.

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