Homens, vamos todos ser cornos mansos … parece que ajuda

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Xiwora Mati cantou a ingrata situação da Maria adúltera sem opção

Por Dadivo José

Vezes sem conta ouvi a frase “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. De facto, são vários casos de mulheres, capazes de sacrificar a sua formação académica, sonhos e mais, em troca de uma banca de tomate e cebola, donde virá o dinheiro para alimentar a família e até as fichas do marido, enquanto estiver na batalha por um grau académico, que vai lhe conferir alguma manobra nas contas do final do mês lá em casa

A formação superior é vista como um meio válido para o bem-estar social através de aumento da renda. Esta convicção ganha azo com a constituição do decreto-lei número 204 de 1990, sobre o regulamento, promoção e progressão na carreira Professional. Mas olhando para a população estudantil em Moçambique, ainda é perceptível que há mais Homens a estudar, do que as mulheres. Elas ainda estão lá, por trás destes Homens que se querem grandes.

O que as pessoas não sabem, é a ginástica que esta mulher faz para manter o lar, enquanto o marido luta pelo futuro. No entanto, o futuro está no futuro e o presente é urgente. As crianças querem comer e querem material escolar. É neste presente que às vezes, se parece com uma corda no pescoço, que coloca esta mulher num dilema: Já fez todo o jogo de cintura, tem família por alimentar e, assume ela, que é também responsável pela estabilidade do chefe da família, que um dia dará alegrias a todos.

O que ela vai fazer? O certo é que o homem, lá no seu íntimo, vai cantar a música de Estêvão Bombi (já desaparecido das lides musicais), que diz: “ni fambili hi minengue tirweni/ hiku pfumala a mali ya xapa/ kambi loku ni fika lana kaya ni kumili a nhama ya mbuti”- (fui a pé ao serviço/ por falta de dinheiro de transporte/ mas a volta apanho uma caldeirada de cabrito como jantar). Este homem sente fome, precisa de comer e a comida é gostosa. Será que lhe vale de alguma coisa perguntar a proveniência da fartura? Melhor mesmo calar e viver.

Quem colocou de uma forma clara este assunto é o nosso amigo (músico) Maninho, de Xai-Xai, província de Gaza, no tema “Ma despesa”. Ele faz uma pergunta clara a todos os Homens: Será que não podes recorrer ao suicídio no caso de descobrir que a tua esposa tem um amante, que até comparticipa nas despesas de casa?
Mais a frente, coloca as coisas em dois prismas de análise de rentabilidade: “Loku mina ni lava munwani wa nsati a ta yegetela usiwana la hina”- (se eu procurar uma amante, vai aumentar a nossa pobreza), “kambi, loku wena u lava munwani wa nuna…(ajuda nas despesas cá em casa). Ou seja, para Maninho, é preferível ser corno, mas com devida compensação, porque se eles se querem e se gostam, ainda que te recuses aos benefícios do consumidor da tua esposa, a relação deles vai continuar na mesma, e a única coisa que te ajudará a manter o orgulho será o facto de acreditares que não sabes. Maninho convida-nos, portanto, a sermos chulos das nossas próprias esposas.
Era isso que deveria ter percebido o marido da Maria, personagem cantada por grupo Xiwora Mati, na década de 1990. No tema Maria, eles contam a história de uma jovem mãe, com filhos por alimentar, consequentemente ajudando o marido, que não foi grande na atitude dele.
Eles usam o tema Gwavana, uma ave que quando se desloca deixa as crias para trás, comportamento típico de mulheres adúlteras, que no momento de adrenalina extraconjugal se esquecem dos filhos.

Mas esse não é o caso da Maria, que saiu para ir guevar (comprar para revender) peixe na capitania, a zona nobre da venda de mariscos na cidade de Maputo. Maria sabia que ficara sem argumentos para aguentar com a vida, sabia que o dono da mercadoria podia lhe dar a um preço bem baixo se ela fingisse gostar da palmada que este dava na bunda dela sempre que fosse levar o peixe.

Só que naquele dia, o marido seguiu para ver de perto, como é que a Maria, desprovida de recursos, guevava tanto peixe. Ele não quis ser um corno manso, com rendimentos altos. Viu a cena e correu logo para espancar a esposa, rasgou as roupas e a deixou ali, as vistas de todo mundo. Naquele momento, o Homem não se lembrou dos filhos deles, que naquele dia não teriam jantar. O negócio estava ruído e, pior, ele não tocou no homem que apalpou a bunda da Maria. Cobarde ele. Durante muito tempo comeu peixe e viveu da venda do peixe.

Eu até entendo marido da Maria, pois, quando ela admite ser apalpada em público significa que num outro ambiente seria o pacote completo. Mas a Maria precisou disso para voltar sempre com o peixe. O poder opressivo dos pescadores é maior aqui e a Maria não tem poder para proceder doutra maneira. Quantas Marias andam por ai, nas entrevistas para emprego? Nas fronteiras com os alfandegários? Nas escolas com os docentes? Nos teatros para ter os melhores papeis? Nas gravadoras com produtores? Nas igrejas para ter confiança do pastor? E esta Maria só queria ajudar o marido a alimentar os filhos.

O grupo de Xiwora Mati já não existe, mas esta música me faz pensar sempre. Penso na Maria que perdeu o peixe por causa de um adultério patrocinado por uma pobreza, que representa esta grande mulher que se esconde atrás do homem para sustentar os sonhos de uma família. Homens, não podemos nos sentir cornos numa situação destas, temos apenas mulheres que sacrificam sentimentos e corpos por nós.

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