Homem de Deus

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Por Elton Pila

Sopravam os primeiros ventos da madrugada. A cidade deixava-se desabitar, deixava-se silenciar. Longe do turbilhão do dia, a cidade forja os seus encantos. A lua revela segredos escondidos pelo sol, embala sonos e suscita sonhos.

Rompem à atmosfera negra da noite, as luzes dos postes, perfiladas como se mostrassem aos noctívagos o caminho da manhã.

Caminhávamos, eu e Leonel Matusse Jr., meu confrade, pela Av. 24 de Julho. O nosso andar, alheio aos perigos da noite, era contido e manso para não despertar o silêncio.

Volvidos alguns passos, preenche nossa visão, o majestoso edifício da IURD – o Cenáculo da Fé. A luxosidade do edifício limita aos passeios os devotos que pretendem chorar à Deus suas desgraças.

Atenho-me, por algum tempo, as vidraças que enformam o edifício, na esperança de vislumbrar o Deus vivo ali invocado.

No entanto, na nossa direcção, caminha, à passos lentos, um individuo de meia idade. Roupa rota, suja, feição de pobre, de malfeitor. Reduz o passo, pára. Observamo-lo. O diabo tenta quem está próximo de Deus. Ficamos em alerta. Mas sem deixar transparecer o medo. O homem encara-nos com o olhar. Nos bolsos avolumados parece guardar inconvenientes perigos. Começo a ficar apreensivo.

O homem, então encostado ao muro do cenáculo, reduz-se a sua pequenez e deixa-se de joelhos e junta as palmas das mãos e fecha os olhos e reza. Afinal, é Homem de Deus.

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