A Bossa de Caetano

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A Bossa de Caetano reveste-se de singular significado por tratar-se da música que, na adolescência, o arrebatou e aniquilou o sonho que Veloso tinha de ser cineasta. Esta compilação com 14 faixas saiu sob a chancela da Universal Music.

CaetanoO pai do movimento Tropicalismo apresenta aqui um registro de alguns dos maiores clássicos que internacionalizaram a Bossa Nova e música brasileira como um todo, do mesmo modo que solidificaram o edifício robusto que é a MPB (Música Popular Brasileira).

O Jazz é sim um género nobre e rico por ter cruzado a fraseologia da música erudita e sonoridades africanas.

Mas a Bossa Nova, sua filha, nascida num Brasil cristão, apropria-se com particular propriedade e profundidade da música erudita, entoada nas missas, associa ao samba, ritmo da plebe e os suporta na esteira do Jazz.

Ambos têm origens semelhantes porém os seus sabores são distintos. É esta uma das primeiras leituras que a compilação de Caetano Veloso possibilita.

Por cinco minutos e oito segundos, na terceira faixa, depois de na segunda, “Chega de Saudade”, ter homenageado o seu eterno ídolo, o celebrado João Gilberto, interpreta ao lado do seu camarada de trincheira, Gilberto Gil, a sua composição “Desde que o samba é samba”.

O projecto frisa que independentemente do vocabulário isto é música brasileira. Qualquer semelhança é mera coincidência. As suas guitarras dialogam acordes habituados a estar juntos.

Gilberto Gil empresta a sua voz cuja decifração do sentimento equivale a interpretação do estado de espirito da Mona Lisa, de Da Vinci, para dar uma tristeza feliz a música.

Na faixa seguinte, Caetano, volta num acústico limpo, intimista, no qual o seu violão subsidia a voz num entrelaço cujo resultado é um diálogo encantador.

Encarna a alma do poeta Vinícius de Moraes e Carlos Maya ao interpretar “Coisa mais linda”. Vestido daquela capacidade de Tom Jobim de entregar a sua alma a música, mergulha nas suas imagens e transmite fluentemente. O piano elétrico entra para dar o toque tropical que merece.

Se a cidade de São Petersburgo, na Rússia, tem que agradecer os méritos de se fazer conhecida no mundo a alguém é ao escritor Fiodor Dostoiévski que as honrarias deveriam ser entregues. O mesmo se pode dizer da Bahía para o Caetano Veloso. Não obstante este estado brasileiro possua vários embaixadores.

É cantando a saudade que sente do seu estado que faz a sua ode e declaração de amor em “Quando eu penso na Bahia”.

Numa tonalidade que lembra em muitos momentos a sua irmã Maria Bethânia traz de volta a música “Chuvas de Verão”. Este foi título de um dos filmes mais polémicos do Brasil, apresentadas as salas em 1977.

A longa-metragem, dirigida pelo cineasta brasileiro Carlos José “Cacá” Fontes Diegues, causou impressão pelo facto de ter mostrado cenas de sexo e corpos nus de um casal já na terceira idade.

A música narra um amor falido de quem já sofreu que baste e perdeu as fantasias juvenis de um final feliz eternamente depois de diversos episódios turbulentos.

Num espirito meditativo, com os instrumentos quase que a soar na surdina, este Bossa de Caetano é um tributo que Veloso faz a música brasileira e aos maiores compositores e intérpretes do movimento Bossa Nova.

Como não podia deixar de ser, o poetinha, como o chamava Tom Jobim, Vinícius de Morais é chamado mais uma vez no seu sucesso “Eu sei que vou te amar”. O lirismo do poeta é respeitado numa interpretação impecável, de uma sutileza incrível que Caetano nos oferta.

Reza a história que Caetano estava sentado em sua casa numa tarde qualquer, de um dia qualquer, fazendo uma das coisas que mais gostava: ouvir música, quando a rádio reproduziu “Oba-lá-lá-Bim Bom”, de João Gilberto.15mai2013---cantor-caetano-veloso-se-apresenta-no-programa-rio-sem-preconceito-realizado-no-circo-voador-na-capital-fluminense-1368678363470_956x500.jpg

A voz e o violão daquele compositor e intérprete que introduziu uma nova forma de estar na música brasileira, arrebatou Veloso que ficou maravilhado. Em homenagem a este marco na sua vida, a obra é trazida antes de fechar o álbum com “Na baixa do sapateiro” gravada em 1939 por Ary Barroso.

Sua poesia continua a distribuir-se em composições como Chora tua tristeza, Lindeza, Get out of the town, Samba de Verão, Samba e amor.

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