Amarar as lágrimas

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Aqui tudo dá medo. Aquele pilão encostado na porta feita de saco de arroz, ao pé da casa de banho, recorda o início da desgraça. Helenane agacha-se, na casa de banho, para tirar o líquido úrico, xixi. A mbenga partida, colocada como pia, na casa de banho, não absorve odores maiores que a dor de Madalenane. Helenane tenta consolá-la, mas em vão.

– Irmã, porque não enxugar estas lágrimas?

– A lágrima o lencinho até pode enxugar. Mas o que aperta meu peito duvida que o lencinho seja capaz de amarrar.

Depois de dizer essas palavras, Madalenane pega numa mulala, encosta-se numa sombra, e escova lentamente os dentes. Seus lábios estão cada vez mais acastanhados. Sua capulana movida pelo vento encosta na lama do quintal. Uma raiva possui Madalenane, que cuspe a mulala. Os retalhos daquela raiz navegam nas ondas do vento, para, depois, repousarem no chão. O grosso da mulala cuspida chegou mais cedo à lama. Com as duas mãos, ela agarra a lama. Enquanto a lama lhe suja as mãos, sua mente mergulha nas recordações que lhe nublam o dia.

O dia

Gritos. A casa está vazia. Os mais velhos ausentaram-se, no edifício só se encontram Madalenane e Helenane. Embaladas pelas brincadeiras, elas, na falta de assentos, aconchegam as suas nádegas no alguidar e no pilão. Como crianças que são, desenham no chão e, com suas vozes, legendam, esperançosas, os seus sonhos.

– Eu quero encontrar um marido, que mude a minha vida, quero que ele me tire daqui de casa. Compre xitanda moya, aqueles que, quando estão no céu, afugentam as nuvens – Delira Helenane, enquanto desenha, na areia, um homem, uma casa e um helicóptero.

-Eu só quero casar. Cuidar do lar, dar filhos, cozinhar e lavar para o meu esposo.

O sol espreita, pela cozinha feita de pilares de madeira revestida com sacos de arroz enegrecidos pelo fumo da lenha.

A conversa das duas irmãs é tão forte, que não se notou a presença de mamana Matilidane, que entrou na casa, gritando pelos seus nomes. Calada e atenta, a mamana acompanhou a conversa, com a face encostada, num dos pilares externos da cozinha.

Na primeira pausa, Mamã Matilidane deixa a sua face penetrar na cozinha. O seu sorriso esfuma-se e mergulha na atmosfera. O sorriso e espanto das duas irmãs deixam os seus rostos, depois das chineladas que elas receberam.

Inconformadas e enraivecidas, encontram-se trancadas no quarto, e esperam escutar os passos de seu pai, para lhe contar a injustiça, e mostrar as marcas dos chinelos pipocas, nos seus corpos.

Logo que o pai entrou, mamana lhe tlhangavetou*, com lágrimas e palavras trémulas.

MasinguitaMasinguita… elas sentaram na mbenga e no pilão. Minhas filhas me singuitaram, elas não serão boas esposas, elas dificilmente, ou nunca, vão casar.

-Calma mulher. Acalma-te, são mitos. São estórias, que o povo conta, para amedrontar as crianças.

– Observou Papá Paulo, com serenidade.

A conversa dos pais prende os pés das duas, e elas retornam ao quarto, deitam-se na esteira, com o medo e a dúvida. Medo de que seus desenhos, na areia, fiquem apenas desenhados na areia, e não se tornem realidade, e não ganhem vida.

Hoje

Hoje a alegria paira na casa, depois de Helenane se ter tlhuvado, na casa de Flávio. Madalenane vai limpar o nome da família. Nada vai impedir esse dia. A família está toda reunida. Depois dos sorrisos, vieram as lágrimas. Depois das lágrimas, vieram, de novo, os sorrisos. O lobolo aqui é assim. A alegria vem da filha, que vai rumar para outra família. A tristeza vem da família, que vai perder uma filha. E a felicidade vem da outra família, que vai ganhar mais um membro.

Depois deste misto de sensações, Madalanenane deixou a sua família, e rumou para os braços de seu marido. Na casa de seu esposo, os dias não se resumiam em amor, amor e amor. Existiam tristezas e lutas. O amor de Alberto persistia e suportava a relação. Apesar de já estarem juntos há um ano, e ela ainda não ter brindado a relação, com um ser, o filho, o marido mantinha-se firme, pois a esperança ainda permanecia. Mas esta senhora, a esperança, foi destroçada, com o diagnóstico do curandeiro, que deu o veredicto final: ela não pode dar filhos.

O amor de Alberto Marido foi fraco e o Alberto Progenitor foi mais forte. O amor de Alberto e as lágrimas de Madalenane não foram fortes o suficiente, para fazê-la ficar. E, hoje, sentada na sombra, ela arrepende-se de se ter sentado no pilão.

  • *A palavra toma no texto o sentido de receber, acolher em changana, língua do sul de Moçambique

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