Residência de Craveirinha: Um Lugar À Visitar

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A residência onde José Craveirinha viveu por aproximadamente 27 anos (1976-2003) guarda tristezas e alegrias. Os objectos dela ainda estão dispostos da forma como o dono deixou em vida. Localizado na Av. Romão Fernandes Farinha nº 1504, no Alto-Maé/Mafalala, em Maputo, este espaço é referência para quem quer conhecer o Poeta- Mor.

José Craveirinha nasceu a 28 de Maio de 1922 e faleceu a 6 de Fevereiro de 2003. Seu nome está cravado na história de Moçambique. Os seus feitos são recordados até hoje. Craveirinha exerceu uma infinidade de papéis: pai, esposo, poeta, cronista, folclorista, desportista, polemista, combatente da luta de libertação nacional, jornalista e entre outros. Hoje (28/05), se estivesse vivo comemoraria 95 anos. Ainda com tristeza, faremos a incursão nesta casa.

Essa não é uma Casa-Museu!

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Ainda com a ideia de que o edifício era uma Casa-Museu, pisamos naquele chão que o Poeta- Mor pisou. Na entrada, encontramos uma lápide. Confesso, li os dizeres cravados na pedra com olhos de míope. Na primeira questão que lancei para o filho de Craveirinha, José (Zeca), rectificou-me e afirmou que “este edifício não é uma casa-museu, mas moradia do meu Pai”. Ele convidou-me a reler a lápide, agora com uma missão: desfazer o mal-entendido. Numa leitura rápida percebi que as palavras de Zeca tinham razão de ser. Meu guião de perguntas caiu a baixo. Sentei-me no sofá branco da sala de Craveirinha e descobri que ainda existem muitos mal-entendidos por se desvendar.

Meu pai não nasceu na Mafalala como se propala por ai. Ele nasceu no Bairro de Chamanculo, porém viveu boa parte de sua vida na Mafalala”, afirmou Zeca com uma raiva de lucidez que até dava medo.

Em 2007, ano em que se o poeta fosse vivo completaria 85 anos, o presidente da Republica (PR), Armando Guebuza, descerrou a lápide na parede frontal da casa de Craveirinha. Como Zeca bem explica, não foi o governo que montou a lápide, mas a família de Craveirinha. O antigo Presidente apenas aceitou o convite de visitar a casa e descerrar a lápide”.

Zeca ainda recorda deste dia. “O antigo Presidente da República leu a lápide e disse: «tens de corrigir o trecho: antigo combatente, pois, Craveirinha foi sim um combatente da luta de libertação nacional»,”.

No final da visita, Armando Guebuza perguntou ao Filho de Craveirinha: “o que pretende fazer com a casa?”. Zeca respondeu: “eu vou continuar a preserva-la”.

No mesmo dia o filho do poetamor ainda trocou outras palavras com o PR. “ Eu disse a ele (PR) que já havia falado com o então Ministro da Educação e Cultura, Aires Ali, com a intenção de transformar a residência em Casa-Museu. A conversa com Ali foi motivadora. Fiquei convencido que tudo já estava nos carris”, disse, acrescentando que a intenção não foi materializada.

Em 2009, no decurso da XXV sessão ordinária da Assembleia Municipal, mostrou-se intenção de transformar a casa de Craveirinha em património cultural da cidade de Maputo.A proposta terminou em proposta. Até hoje nada foi feito neste sentido. A casa ainda não tem o estatuto oficial de casa-museu. O governo só organizou a entrega das insígnias dos heróis nacionais que foi para os outros heróis também”, sentencia Zeca.

Em 2012, aniversário dos 90 anos de Craveirinha, foram lançadas duas obras. O evento foi realizado na sala dos grandes actos do Conselho Municipal da Cidade de Maputo.

Craveirinha o amante das artes

No interior da casa, encontramos quadros de diversos artistas, como António Bronze, Malangatana, Samate Mulungo, João Júlio, Chichorro, Bertina Lopes e Idasse Tembe. “As obras foram oferecidas por estes artistas ao meu pai em vida, apenas uma obra de Naguib é que foi oferecido depois da sua morte”.

A pintura mais antiga é um quadro pintado por António Bronze em 1954. Nela estão os Zampungana, homens Chopes (grupo étnico da zona sul de Moçambique). Eles faziam a recolha dos dejectos humanos, coco, nos bairros suburbanos, pois neles não havia um sistema de saneamento, esgotos. Com baldes (Baquites) estes homens faziam a recolha. “Eles tinham códigos próprios e nós respeitávamos. Então tínhamos de olhar para o relógio na hora de defecar”, satiriza Zeca.

Dois boletins da República emoldurados (transformados em quadro) com dimensões gigantescas ocultam o sol que tenta espreitar das precianas. No boletim, existem dois poemas pintados com pinceladas sensíveis que captam a emoção que o poeta transbordou em cada palavra escrita. Num deles compara a fúria do rio Incomáti em tempo de cheia com a revolta do povo cansado de tanto sofrimento. “As palavras deste poema até hoje ainda têm razão de ser. Quando li no dia das manifestações de 1 e 2 de Setembro de 2010 até pensei que meu pai tivesse previsto este cenário”, observa Zeca.

Numa das salas, encontramos esculturas de arte maconde (do norte do país) e xiquelequedane (esculturas do sul de Moçambique). Como o filho testemunha, “meu pai tinha tempo para nos ensinar a valorizar as artes. Nos domingos nos levava para o mercado Xipamanine para apreciarmos obras de arte, xiquelequedanes”.

A casa do polemista e folclorista

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Na mesma sala, encontramos batuques. “Meu pai era um estudioso do folclore de Moçambique. No ano de 2009, foi lançado o livro “O Folclore Moçambicano e as Suas Tendências”. “Tens de ler para conhecer a outra faceta (cronista e folclorista) de José Craveirinha”.

No livro, existem artigos publicados em vários jornais do período compreendido entre 1955 até 1987. Neles, Craveirinha disserta sobre cultura e mostra a sua faceta de crítico desportivo.

Para além de poeta, cronista e folclorista, José Craveirinha era polemista. “Para se ser polemista é necessário ter domínio da matéria que vais escrever. Tens de preparar uma tese com argumentos fortes para desferir golpes letais ao seu inimigo”.

Na Mafalala Craveirinha era conhecido por Ntsilana (um chamboco feito com rabo de cavalo marinho). “Meu pai não tinha amigos brancos que se achavam a raça superior. Ele ntsitava, dava chambocadas, aos seus oponentes na sua língua, português”.

O quadro das memórias

Num canto isolado da sala deparei-me com uma pintura de Bertina Lopes. Logo que vi a obra, de susto derrubei uma escultura. Nela há representações, desenhos, de um indivíduo com as mesmas feições e expressão de dor de que Jesus Cristo na sua paixão, num cenário de dor e pranto. Atrás dele visualizasse vários soldados.

A obra, explica, deve ser enquadrada no contexto em que foi criada. Craveirinha esteve preso durante quatro anos (1965-1969) na Cadeia Civil, localizada na avenida Kim Hill Song, pela Polícia Colonial Portuguesa (PIDE). Bertina Lopes pintou a obra em dedicação a Craveirinha em 1965.

O filho de Craveirinha recorda os antecedentes. “Em 1963, meu pai regressou de Portugal depois do Festival de Ginástica em que participamos. Em Moçambique, vivia-se um clima de instabilidade. Meu pai foi obrigado a refugiar-se na Suazilândia. A BOSS, Policia de espionagem sul-africana, e a PIDE estavam no seu encalço. Lá existiam moçambicanos mulatos e pretos que controlavam os seus passos, alguns deles ainda estão vivos e dividem o mesmo espaço connosco. Neste cenário, meu pai recebeu conselhos que diziam que se ele não se entregasse seria abatido. Ele não hesitou e entregou-se”, revive.

Durante os quatro anos da prisão de Craveirinha, a família ficou desamparada. “Eu tinha 10 minutos por semana para falar com meu pai. Mas no dia da independência nem um convite recebemos. Todos no estádio da Machava e eu em casa”, relata Zeca acrescentando que “com a independência fiquei triste, pois a situação tende a piorar”.

Fixando o olhar no quadro de Bertina, Zeca constata: “depois da Independência tem-se rezado mais. Mataram os grupos dinamizadores que tocavam os apitos e levavam-nos a fazer a limpeza e agora reza-se mais. Até existem igrejas que têm cultos todos os dias da semana”.

Falando em religião, Zeca contou que Craveirinha era agnóstico, não professava nenhuma religião.

Uma visita esperada

Craveirinha tinha uma paixão pelo desporto. Era exigente nesta matéria. Zeca lembra do dia que uma das descobertas dos Craveirinha visitou a casa. “Certo dia, entrei na casa e vi uma Moça tímida. Ela tinha os pés sujos e calçava uns chinelos pipoca. Curvada, com os joelhos colados, ela estava preocupada em esconder os seus pés sujos. Ela internacionalizou-se e hoje é referência no atletismo nacional”.

Zeca conta que, depois do sucesso, Lurdes Mutola nunca apareceu para visitar o pai. “Mesmo quando ele estava hospitalizado na África do Sul, país onde ela residia na época, não lhe visitou.”.

O filho de Craveirinha ainda guarda o último momento que falou telefonicamente com Lurdes. “A última vez que ouvi sua voz ela disse que o então Ministro dos Desportos, Joel Libombos, queria falar comigo. Eu atendi. Ele disse que a Lurdes estava na Praça dos Heróis e eu responde: agora estou a almoçar e desliguei o telefone”, Zeca pausa, e sem hesitações diz, “mas ela conhece a casa…”.

A casa solitária

Antes desta residência, a família de Craveirinha vivia na entrada da Mafalala. “Em 1976 mudamo-nos para esta residência”. Zeca não guarda boas recordações da casa. “Dois anos depois de termos mudados para esta casa, em 1978, minha Mãe foi atropelada por uma bicicleta caiu na berma da estrada, bateu com a cabeça e entrou em coma…”, Zeca ficou em transe por instantes, buscou forças e sem finalizar a frase disse: “Por isso não guardo boas recordações desta casa. Ela (mãe) era o nosso pilar. Sem ela meu pai não seria o que ele foi. A perda da minha mãe foi um momento triste. É difícil de habituar-me com sua ausência. Quando minha mãe faleceu meu pai deixou de trabalhar, ficou em casa”.

Em 1991, Craveirinha tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Zeca recorda desse episódio. “O prémio foi uma alegria e tristeza, pois faltava alguém para comemorar com ele, minha mãe. Duvido que ele seria o que é se não estivesse ao lado dela”.

Zeca narra que teve uma boa educação. “Não tenho queixas. Meu pai estava mais preocupado com o desporto e minha mãe com o nosso ensino. Eu praticava ginástica e existiam exercícios complicados como saltos mortais. Por vezes eu hesitava e deparava-me com a mão não hesitante de meu pai”.

O livro Maria tem um fundo autobiográfico, não é algo ficcional é baseado em vivência. Aquela obra é uma dedicatória a minha mãe (Maria). Confesso que, ainda hoje, quando leio alguns poemas daquele livro, caem lágrimas dos olhos”, recorda com uma expressão melancólica.

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A casa do Poeta

José Craveirinha publicou várias obras, destacando-se Xigubo (1964), Karingana ua Karingana (1974), Cela 1 (1981), Maria (1988), entre outros.

Meu pai gostava de silêncio, por isso acordava nas madrugadas e escrevia. Não tinha um local especial para escrever. Escrevia em todos locais da casa. Quando a inspiração surgia tirava o seu papel e caneta e escrevia. Ele tinha poucas horas de sono. Bem cedo já estava pronto, podíamos vê-lo na rua a caminhar. Meu pai tinha carta de condução mas nunca conduzir, pois achava aquilo, conduzir, coisa de luxo, e ele sempre foi humilde”.

Na biblioteca, consta um espólio de mais de três títulos, bem como um manancial de caixas de outros locais onde estão guardados materiais inéditos. “O espólio de meu pai é três vezes mais do que ele publicou em vida. Temos lançado obras mas sentimos que existe pouco interesse na leitura de obras poéticas”.

A casa do Jornalista

José Craveirinha colaborou como jornalista, nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira entre outros.

Isolado das luzes da ribalta, Craveirinha é convidado por Samora Moisés Machel, primeiro estadista moçambicano, para passar uns dias em sua casa em Belene, Gaza. Numa das suas leituras ao jornal, Craveirinha deparou-se com um erro: em eventos similares, o jornal deu destaque ao Ministro em detrimento do Presidente da República. “Na primeira página aparecia um ministro que inaugurou algo e na página três com pouco destaque aparecia um artigo sobre Samora Machel. Ele foi falar com Samora e lhe perguntou quem é o general, major e chefe das forças armadas o que está na página um ou na página três? Samora não se conteve e levantou. Ao seu jeito assobiou, quando ele assobiava era sinal de que algo não estava bem, e tomou medidas”, revive Zeca.

De referir que, na casa do poeta, existe uma colecção de discos de grandes artistas do jazz como são os casos de Duke Ellingtin, Lady in Saty, Billy Holiday, Count Basie, Charlie Parker, John Coltrone, Jazz Naturaly, Johnny Hartman e Mahalia Jackson. Está ainda uma boa colecção de Fanny Mpfumo. A casa de Craveirinha guarda uma infinidade de medalhas, certificados de méritos e diplomas de honra, insígnias e prémios que ele arrecadou. Para além de uma colecção da indumentária do poeta.

Artigo escrito em Setembro de 2014 e actualizado para homenagear o Poeta-mor

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