O veneno da vergonha

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Por Elton Pila

Pedrito, o filho mais novo, clamava por comida. Rebeca, a filha adolescente, perdida no delírio da adolescência, encontrava-se em camas algures da cidade. O fornecimento de água e luz já havia sido interrompido por falta de pagamento.

Mulena, a esposa, envelhecida pela penúria, expressava-se tristonha:

– Foste a casa dos meus pais e pediste a minha mão. Meus pais cederam. Trouxeste-me aqui, e proibiste-me de estudar e trabalhar. E disseste que, me darias tudo. Mas foram só dois filhos e pouca felicidade. Nada mais. Assisto no espelho às rugas a calcarem meu rosto.

Jerónimo ouvia calado as lamentações da esposa. Estava sentado no sofá velho, em frente ao televisor desligado que reflectia seu corpo claro e emagrecido.

– Casaram-me para sofrer! – Lamenta a esposa.

Jerónimo nada responde.

Havia ele casado a sua esposa, no tempo em que o trabalho de estivador – carregador no Porto de Lourenço Marques rendia. Auferia dois mil escudos mensalmente. Carregava e descarregava navios que atracavam no cais. E, no final da labuta diária, levava à casa parte do mar, o cheiro.

Quando um perfume salgado atravessava as ventas de Mulena, ela sorria. O aroma prenunciava a chegada do seu amo. E depois de beijos e abraços, a esposa tirava os sapatos do marido. E depois colocava água para o banho. E depois jantavam com toda a família à mesa. E depois conversavam. E depois o casal amava-se intensamente em seu leito. Eram felizes.

Mas as coisas mudaram, quando o desenvolvimento levou ao porto os tractores de carga e os chineses. Não mais eram necessários os estivadores – carregadores. As maquinetas, operadas pelos orientais, carregavam maior número de caixas em menor espaço de tempo. Jerónimo foi arrastado para o mar do desemprego.

A bóia de salvação fora o mercado de Xipamanine. Lá Jerónimo oferecia as suas costas a quem fazia grandes compras em troca de algumas moedas. Nada comparado ao que recebia no porto, mas ainda o garantia o título de chefe de família.

Mas, tempos volvidos, a crise financeira que abalara o ocidente, chegou à África. E invadiu o território moçambicano. Já mais ninguém fazia compras de grande vulto. Os abastados compravam muito menos do que podiam carregar.

Jerónimo, acostumado a ganhar a vida usando à força, viu-se alongando a fila dos que procuravam emprego.

Do título de chefe de família já não era merecedor. A cada discussão com a esposa sentia a sua autoridade diminuir. Passou a ouvir calado os murmúrios e berros de Mulena.

– Contas acumuladas. Água e energia já não nos chegam. Mal comemos. Mal vivemos. E assistes a isso impávido. – Gritava a esposa.

As palavras de Mulena ecoam na mente de Jerónimo. Lágrimas assaltam seus olhos. Não suporta as sentir molhando seu rosto, e tenta secá-las. Mas de nada adianta matar o caudal de um rio que a sua nascente se mantém viva. Então, dirigiu-se ao quarto. Mas, antes de bater a porta, ouviu a esposa dizer:

– Sofremos, como se não tivéssemos um homem em casa. Devias tomar vergonha!

Pedrito que chorava ignorado, já havia calado. Sentado na esteira, encharcado pelas suas lágrimas, ouvia, sem coisa alguma perceber, as lamentações e os gritos da mãe, e o silêncio do pai.

– Ma – mã. – Eram as primeiras palavras da vida de Pedrito.

A mãe habituada aos balbucios do filho, nada percebeu.

– Ma – mã.

Desta vez, as palavras atingem Mulena. Seus olhos brilham, e o sorriso abre-se. Coloca o filho no colo, esperando ouvir mais de perto o seu chamado. Pedrito chama-a, mais uma vez. Mulena sorri orgulhosa. Conversam mãe e filho entre balbucios e palavras.

– Pa – pá. – Diz, agora, Pedrito.

Mulena eufórica chama por Jerónimo. Esquecida das duras palavras dirigidas ao marido, deseja conta-lo a boa nova.

– Jerónimo…

– Jerónimo – grita Mulena caminhando em direcção ao quarto.

Aberta a porta do quarto, a euforia dá lugar à inacção. A alegria à tristeza. O brilho nos olhos às lágrimas.

No meio do quarto, estava Jerónimo. Os pés encarnados não tocavam o chão. O pénis estava erecto. As mãos avermelhadas. O coração batia. No rosto pálido e gordo, via-se a língua fora. Os olhos abertos e amarelados. Fora numa corda amarrada ao pescoço, presa a um dos barrotes no teto que Jerónimo encontrou à morte.

Mulena leu, silenciosamente, num bilhete caído no chão: A vergonha é um veneno.

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