Mentira de pai

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Por Elton Pila 

Estava uma tarde quente. Pouco depois de sair de casa, já tinha a camisa ensopada de suor. Ia à escola – aquele local que o ocidente institucionalizou como espaço de aquisição e/ou sistematização de conhecimento.

Os auriculares nos meus ouvidos faziam-me surdo aos barulhos da rua. Cheguei a paragem e um amontoado de gente preencheu minha visão.

Estão todos a espera de chapa? Perguntei-me.

-Não são apenas os dias de chuva, também os dias de sol intenso acentuam o problema de transporte, na Cidade de Maputo. – Continuei falando aos meus botões.

As músicas nos auriculares pareciam-me aumentar o calor. Então parei-as, e coloquei os meus ouvidos à mercê dos barulhos urbanos. Procurei, na paragem, alguém que tornasse a espera pelo chapa suportável. Mas ante a multidão, não entrevi um rosto conhecido, nem um rosto simpático. Na verdade, a antipatia tinha razão de existência, éramos todos adversários, esperando o momento da competição.

Os transportadores teimavam em demorar-se. A espera tornava-se entediante. Nisto, aproximam-se da paragem, à passos lentos, um homem e um menino. Deixam-se ficar ali, na espera pelo transporte, transpirados pelo sol. Passo a observá-los.

O homem estava pobremente vestido. O rosto, calcado pelo tempo, dava-lhe uma aparência velha, mas devia ter pouco menos de quarenta anos. O menino, que devia ter cinco ou seis anos, calçava sandálias, calças cinzentas, camiseta branca, sem desenhos, nem enfeites, e um chapéu maior do que a sua cabecinha.

Esporadicamente, os chapas começavam a fazer-se àquela paragem. Quando estacionavam, a azáfama começava, era chegado o momento da competição. Corríamos, empurrávamo-nos, incluindo o homem, agora levando o menino no colo, mas só os mais fortes seguiam viagem. A cada nova tentativa, a disputa ficava mais acirrada. Outro chapa, outro corre-corre, outro empurra-empurra, ninguém mais queria esperar, mas, mais uma vez, só os fortes seguiram viagem.

Depois de várias disputas, eu, o menino e o homem continuávamos na paragem, todos suados. Fracos. O homem, visivelmente cansado, tirou a criança do colo.

Então no chão, o menino acompanhava os carros passando pela estrada. O som das buzinas era música aos seus ouvidos. O olhar brilhava, parecia iluminar os faróis das viaturas. Estava feliz.

No entanto, o trânsito emperrou. E a impaciência imperou. Todos buzinavam inquietados. Da janela de um dos carros engarrafados, despontou o rosto de uma outra criança. Esta e o menino-na-paragem trocaram olhares, procurando semelhanças. O menino-no-carro sorriu, querendo iniciar uma nova amizade. O outro menino também sorriu, mas um sorriso sem ânimo, nem amizade, distante.

Volvido algum tempo, os carros continuaram a viagem. O menino-no-carro fez com a mão um gesto: despedindo-se. O outro ignorou. Levantou a cabeça e fitou os olhos no pai.

Poquê papá num compa callo? Perguntou o menino-na-paragem, na sua voz afinada pela inocência, mas estremecida pela tristeza.

A pergunta avermelhou o rosto claro do homem. Ficou calado por algum tempo, ensaiando a resposta. E os seus olhos iam aguando-se encarando os olhos tristes do menino.

– Vou comprar, meu filho. – Respondeu o homem, sem verdade, nem convicção, afagando a cabecinha do menino dentro do chapéu.

Os olhos do menino voltaram a brilhar, e um sorriso de felicidade alagou seu rosto, afogando toda tristeza.

O homem voltou o olhar para a minha direcção. Os olhos procuravam em mim, mais do que um cúmplice, procuravam alguém que perdoasse a sua mentira. Eu, pouco devotado à religião, apenas sorri. Ele tentou sorrir, mas as lágrimas, caindo dos seus olhos já há muito aguados, impediram o sorriso. Envergonhado, virou o rosto, e, discretamente, secou-o.

MUSEU SENTADO. – Gritou um cobrador.

A lufa-lufa recomeçou. Mais uma luta. Daquela vez, eu estava entre os mais fortes. O homem e o menino foram vencidos, mais uma vez. Eu, já acomodado no chapa, próximo à janela, continuei de espírito e ouvidos atentos ao pai e ao filho.

– Papá vai complal callo que dia?

Amanhã!

No dia seguinte, encontrei-os, na mesma paragem, empapados pela chuva que se deixava cair em consequência do calor do dia anterior.

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