BAIXISTA CARLITOS GOVE Responsabilidade é o segredo de uma carreira sólida

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A CIDADE de Maputo e o país viviam ainda a euforia da conquista da independência. Nos bairros, os círculos dinamizavam os jovens para a construção do Homem novo, quando Carlos Gove (conhecido no circuito de amigos como Carlitos Gove) fazia soar os primeiros acordes da sua viola baixo.

Na verdade, para este jovem que hoje conta com 53 anos de idade, a música é relativamente anterior a este evento. “Começou no liceu. Na altura, as escolas tinham programas culturais fortes e sérios que me impulsionaram a entrar para apreciar esta arte, ainda que de forma desinteressada”, recorda o baixista.

Sem a sua “arma de guerra”, Carlos Gove conversou conosco, no Jardim do Centro Cultural Franco-Moçambicano, e contou que nos becos do Chamanculo, bairro onde cresceu entre 1977 e 1978, fundou a sua primeira banda ao lado de Childo Tomás, baixista actualmente radicado na Espanha.

Mas foi em Inharrime, Inhambane, que se profissionalizou, liderando a banda “Os Surpreendentes de Inharrime”. Aconselhado por amigos, mudou-se para a cidade de Inhambane onde se juntou a artistas como Camal Jivá, que já era renomado.

“Assinei o meu primeiro contrato nessa altura com uma casa de pasto. Tocávamos quase todos os dias”, lembra. Era este então o aceno para a sua profissionalização. O sucesso foi tal que arrumou as malas e voltou à capital do país, onde havia mais oportunidades.

Em Maputo havia várias bandas, a cidade fervia artisticamente, porém interpretavam sucessos internacionais do rock’in roll, rock, jazz, soul, blues… a lista alonga-se. Entretanto, o guitarrista Pedro Langa tinha sede de sonoridades nativas.

Para satisfazer esse desejo “intima” alguns jovens músicos da capital que vinham emprestando qualidade ao cenário, entre eles Carlos Gove. Nasciam, assim, os “Ghorwane”, em 1986, banda que queria apostar na música tradicional moçambicana.

A diferença deste agrupamento é que as suas composições eram críticas à sociedade e ao regime político de então, introduzindo outra forma de estar na música, numa altura em que quase todos os músicos não tinham um tom crítico e irónico mordaz.

Embora acreditassem no projecto, os “Ghorwane” não esperavam que a recepção seria tão calorosa como foi. Em pouco tempo a agenda estava cheia, eram espectáculos atrás de espectáculos.

O percurso de Carlos Gove e a história desta banda não se separam muito, pois foi nela que o baixista cresceu profissionalmente. Até porque é hoje o líder.

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Os “Bons Rapazes”!

O SAUDOSO Presidente Samora Machel é conhecido pela sua devoção ao povo e às causas da revolução moçambicana. Amante fervoroso da cultura. Samora Machel foi também conhecido pelo seu rigor na forma como governava o país. Directo, firme e pujante.

Exaltado e temido, Samora Machel teve uma forma única de estar na política em Moçambique, daí que os fazedores da cultura o dedicavam temas de louvor.

Nesta esteira, os Ghorwane falavam, nas suas músicas, sobre a guerra de desestabilização que corroía o tecido sócio-económico nacional e da miséria que a mesma criava. Do desespero. Mas, também, os jovens músicos não se cansavam de cantar e celebrar a beleza da pátria, a esperança que reinava no seio do povo, o amor – esse fogo que arde e dilacera os corações do Homem apaixonado – e as suas peripécias.

“Nós falávamos da guerra, da fome e de outras preocupações que o povo tinha, mesmo sabendo que na altura isso não era muito comum”, contou Carlitos Gove.

Em meio a esses anseios e inquietações, o Presidente Samora Machel convidou este agrupamento para uma performance numa cerimónia de Estado. Alguns familiares e amigos dos músicos ainda chegaram a recear que eles seriam admoestados, dada a forma como abordavam algumas questões nacionais.

Mas, para a surpresa de todos, Samora Machel revelou a sua admiração e estima pela banda, congratulando-a pelo brioso trabalho que faziam e, por isso, os baptizou com o epíteto de “Ghorwane: Os bons rapazes”. O nome ficou registado e tatuado no imaginário de todos os moçambicanos da música, dentro e fora do país. E continua a atravessar gerações.

Internacionalização

A internacionalização apenas foi consequência da aceitação e sucesso interno. Em 1987, um ano após a fundação da banda, o Rei da Suazilândia, Mswati III, convidou os Ghorwane para uma festa no seu palácio. E depois de actuarem, um dos convidados à festa gostou da forma tão brilhante como actuaram e decidiu levá-los para uma digressão pelas “Terras de Sua Majestade”. E esse músico foi nada mais, nada menos que o músico britânico Peter Gabriel.

Encantado, o fundador da banda Genises convidou, em 1991, “Os Bons Rapazes” a irem gravar o primeiro álbum, Majurugenta, no seu estúdio. Depois choveram actuações em vários pontos da Europa. E a sua presença passou a ser regular nos diversos festivais de música.

Fintar a marginalização

APESAR do sucesso em paradas mundiais, Carlos Gove não escapou às conotações sociais que na altura via (e às vezes ainda vê) nos artistas, seja músico, das artes plásticas, teatro…Muitas vezes os artistas são tratados como indivíduos marginais e desocupados.

Um dos episódios que o marcou, embora não nos tenha contado com detalhe, foi ir à casa de uma moça com quem namorava e os pais o rejeitarem por ser músico.

Devido a esse tipo de preconceitos, mesmo a opção pela música não foi consensual na sua família. O seu pai, por exemplo, queria que Carlos fosse médico, por essa razão contestou a decisão de investir na música.

 Para contornar estes preconceitos, o baixista explicou que a sua receita sempre foi não se isolar da sociedade. “Não é só pensar que por eu ser músico posso passar a vida na boémia”, observou, acrescentando que “devemos nos comportar conforme as regras sociais”.

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Gove explicou que, no meio artístico o álcool, as drogas e a boémia abundam. E caso não haja disciplina, a probabilidade de se perder é maior. Tudo vai depender da forma como o indivíduo irá encarar a sua profissão.

Nesse sentido é um vencedor, pois no Chamanculo, periferia onde cresceu, é tido como uma referência.

Há que se reconhecer, portanto, que o primeiro desafio para vencer a marginalização estava justamente no bairro onde passou a sua infância: Chamanculo. Pelo que, explicou, “ali só tens duas opções: ou estás bem ou estás mal”.

Outrossim, é que pelos índices de violência e criminalidade nos outros quadrantes da cidade, quem de lá vem é olhado de viés, daí ser difícil convencer que sair de Chamanculo ou qualquer outro bairro periférico não é sinónimo de ser marginal.

Carlos Gove considera-se um vencedor, vive de música e foi a partir dela que sustentou a sua família e formou os seus filhos.

“Aprendi a conviver com tudo isso e busquei sempre ser útil para a sociedade, além da música, ajudando ao próximo, por exemplo”, revelou.

Nondje está a produzir seu álbum

A SUA escola, assumiu, é a banda Ghorwane. Naturalmente, em todas relações humanas há desentendimentos, a banda não foi excepção. A diferença em algumas ideias separa, por alguns anos, Carlitos dos “Bons Rapazes”.

Junto de Jorge Moisés, Jorge César e Paíto Tcheco, ex-membros da banda Ghorwane, em 1999 fundou Nondje, um projecto que também apostou na música de raiz. Na verdade resultou numa fusão que tende mais para o afro-jazz.

O grupo teve muita aceitação em Maputo e era regularmente convidado para actuar nas casas de pasto. Entretanto, entre 2002/3 Carlitos voltou aos Ghorwane e a iniciativa abrandou. Não obstante isso, neste momento a banda Nondje está a produzir o seu disco de estreia. As músicas já estão gravadas, faltando apenas a masterização. Não avançou porém a data do seu lançamento.

“A linhagem é a que sempre tivemos, com alguma maturidade que resulta destes 40 e poucos anos de carreira, o que fomos ouvindo ao longo da vida e aprendendo” – revelou.

Massone é biografia

Se a obra do poeta é eternizada em livros, antologias e/ou publicações na mídia, do músico é em álbuns. Guiado por essa necessidade, embora tenha deixado a sua marca nos cinco álbuns dos autores de “Guidema”, sentiu a necessidade de gravar o seu a solo.

Massone é o título que a iniciativa recebeu. Pelo que explicou o mesmo é autobiográfico. É o registo de uma viagem com vários quilómetros feitos, em meio a paragens e avanços.

“Massone não é só música é também uma luta a favor da rapariga” – expressou Carlitos, fazendo alusão a algumas adolescentes e mulheres já feitas do bairro de Chamanculo, que muito cedo se desviam.

Parte, prosseguiu, iludidas pelas luzes e prazeres da cidade, outras porque os pais se demitiram das suas funções, obrigando-as a abandonar a escola para amealhar algum dinheirito que alimente os seus irmãos, vendendo pão, badjias e outras coisas nas bermas das avenidas.

“Vivemos num país tropical e em territórios com este tipo de clima não faltam mulheres bonitas, mas a beleza não é tudo. Um dia acaba” – introduziu, para explicar que alguns pais se acomodam ao ver suas filhas a alimentar a casa com dinheiro que ganha de outros homens.

Passados alguns anos com a família levando a vida à francesa, às custas do corpo da sua filha elas ficam grávidas, de repente já tem uma “porrada” de filhos e os homens desaparecem, a realidade mostra-se nua.

A menina que tinha abandonado a escola para alimentar a família, com os pais em condições de o fazer, já perdeu a idade e o ânimo para a vida, porém é jovem. Dessa forma a pobreza se perpetua, conclui.

O mesmo junta a aprendizagem acumulada ao longo destes anos. Não deixa de ser, assume, uma tentativa de trazer uma proposta que o diferencie na paisagem musical do país e do mundo.

Uma das marcas que identifica Carlos Gove é a sua disciplina na execução do baixo. Não é muito de improvisos e facilmente se percebe a sua veia de líder acompanhando a imposição do seu instrumento.

Confira

“A estrada é que nos cultiva, a partilha dos palcos com outros músicos, a busca neles de elementos que te agreguem e ajudem a encontrar o seu som e a fazer somente o que é necessário de modo que a saía limpo”, respondeu.

A noite no Chamanculo, à semelhança de Nova York, nos Estados Unidos, não se dorme, há muita vida. “Enquanto uns se divertem, outros se embriagam, drogam-se e há quem está à procura de oportunidade para roubar”.

E é este retrato que faz na música “Noites de Chamanculo”, que consta de “Massone”. É a faixa que mais informação jazz possui.

No âmbito da promoção deste álbum no ano passado, encetou o “Massone em viagem 1”, pelo que explicou, na ocasião, que em cada viagem será acompanhado por um músico que faça parte do seu percurso.

No concerto que fez na sala grande do Franco convidou Moreira Chonguiça – o saxofonista deu os seus primeiros passos profissionais nos Ghorwane – e evidenciou em alguns acordes uma forte influência do baixista Marcus Miller.

“É uma referência que tenho há vários anos e admiro-o pelo facto de conseguir se adaptar aos tempos”, revelou. Não obstante, apontou outras influências que teve ao longo do percurso.

Da lista constam nomes como Milagre Langa, Pedro Khumaio, Childo Tomás, Victor Wooten, Hortênsio Langa, Aniano Tamele e Wazimbo.

Abertura aos jovens

NOS últimos 10 anos o país tem estado a assistir ao surgimento de novos talentos de instrumentistas, intérpretes e até alguns compositores.

No baixo, em particular, pode-se apontar um Hélder Gonzaga, por exemplo. Gove, com vários anos de palco, considera, por essa razão, que o país está a viver um bom momento musical.

O actual contexto é positivo, na medida em que exige mais de cada um para que consolide a sua diferença e a sua forma de executar o instrumento.

Na banda que lidera, a abertura para com os jovens se tornou evidente no seu último álbum “Kukavata”, no qual se deu oportunidades ao saxofonista Muzila, o rapper DJ Ardiles, o timbileiro Cheny wa Guny e a vocalista Sheila Jesuíta para interpretarem algumas músicas.

A intenção é garantir a continuidade de um projecto que muito cedo deixou de pertencer somente aos fundadores para ser de um público muito vasto.

*Publicado no Jornal Notícias de 10/05/2017
 

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